KIEV SOFRE ATAQUES, E KHERSON É TOMADA PELOS RUSSOS; DIÁLOGO SOBRE CESSAR-FOGO É RETOMADO
A man walks in front of a destroyed building after a Russian missile attack in the town of Vasylkiv, near Kyiv, on February 27, 2022. - Ukraine's foreign minister said on February 27, that Kyiv would not buckle at talks with Russia over its invasion, accusing President Vladimir Putin of seeking to increase "pressure" by ordering his nuclear forces on high alert. (Photo by Dimitar DILKOFF / AFP)
No 8º dia após deflagração do conflito e com rodada de negociações na agenda, ofensiva russa segue em cidades ucranianas
Ouça o áudio:
No 8º dia após deflagração do conflito e com uma nova rodada de negociações na agenda, a ofensiva russa segue em cidades ucranianas. Nas últimas horas, a cidade de Kherson, no sul do país, foi tomada pelo Exército russo. Além disso, a capital Kiev e a cidade de Kharkiv continuam sob bombardeio.
Esses movimentos ocorreram horas antes de uma nova tentativa diplomática de se chegar a um cessar-fogo na Ucrânia. Uma reunião entre representantes dos países deve ocorrer ainda nesta quinta-feira (3), de acordo com os governos russo e ucraniano.
Bombardeio na capital Kiev
Kiev voltou a ser alvo de bombardeios russos nas primeiras horas desta quinta-feira (3), de acordo com veículos internacionais. A capital ucraniana segue sofrendo com um cerco imposto pelas tropas russas a partir de cidades do sul. A cidade, onde está o presidente Volodymyr Zelenskyy, é ameaçada desde terça (1º) com um comboio militar da Rússia em seu entorno.
O prefeito de Kiev, Vitali Klitschko, disse que a situação na capital é “difícil, mas sob controle”, segundo correspondentes que estão no local. Klitschko afirmou que não houve baixas durante a noite e que as fortes explosões noturnas eram mísseis russos. No entanto, segundo ele, os ataques teriam sido combatidos pela defesa aérea ucraniana.
:: Com apoio do Brasil, ONU aprova resolução contra Rússia; combates seguem em diversas cidades ::
Ucrânia admite perda de Kherson
Na noite de quarta-feira (2), autoridades ucranianas confirmaram a tomada pelo exército russo de Kherson, cidade portuária de 290 mil habitantes no sul do país. “Os invasores estão em todas as partes da cidade e são muito perigosos”, declarou o chefe da administração regional, Guennady Lakhuta, no Telegram.
:: Caos deixado pelos EUA no Afeganistão soou como “carta branca” para Rússia, diz pesquisador ::
O prefeito de Kherson, Igor Kolykhayev, afirmou ter conversado com os russos em um edifício da administração municipal. “Não tínhamos armas e não fomos agressivos”, afirmou.
A captura de Kherson é importante para o estabelecimento de uma rota naval para os militares russos. Há relatos feitos por correspondentes internacionais de que a cidade de Mariupol, no sul do país, também está cercada por tropas russas.
Rússia acredita em cessar-fogo
O governo ucraniano afirmou, nesta quarta, que a delegação de seu país está a caminho da fronteira com Belarus e Polônia, onde devem participar de uma segunda rodada de negociações com a Rússia. Um dos principais assessores do governo russo também confirmou a reunião.
Segundo o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, “as negociações entre os representantes da Rússia e da Ucrânia terão lugar hoje [quinta-feira]. Uma solução será encontrada, não tenho dúvidas. Mas, apesar das negociações, continuaremos nossa operação militar. Ucranianos recebem instruções de Washington e preparam provocações”.
:: Deputados do Partido Comunista da Rússia se posicionam contra guerra na Ucrânia ::
“Os Estados Unidos subjugaram a Europa, como Napoleão ou Hitler fizeram uma vez. O Ocidente não ouve a Rússia, mas a histeria passará. Cabe aos povos que vivem lá decidir o futuro da Ucrânia. Qualquer vida humana não tem preço, mas qualquer ação militar envolve baixas”, declarou Lavrov.
Resolução anti-Rússia na ONU
O Fórum da Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou, na quarta (2), uma resolução contra a ofensiva militar russa na Ucrânia. Foram 141 votos a favor, 5 contra e 35 abstenções. O Brasil se alinhou à maioria e também votou a favor. Leia a íntegra do documento (em inglês).
Os países que votaram contra o texto foram Rússia, Belarus, Síria, Coreia do Norte e Eritreia. A China se absteve. A resolução deixou de “condenar”, como estava prevista versão inicial do texto, para “deplorar nos mais fortes termos” o que chama de “agressão” russa.
:: Explosão de torre TV em Kiev deixa mortos; Rússia anunciou ataques a alvos estratégicos ::
A Rússia contestou o teor da resolução e disse que sua invasão ocorre em “legítima defesa”. “Não foi a Rússia que iniciou esta guerra. Essas operações militares foram iniciadas pela Ucrânia contra os habitantes de Donbass (a região separatista no leste do país) e contra todos aqueles que não concordavam com ela”, afirmou o embaixador russo Vassily Nebenzia.
O Brasil votou a favor da resolução, mas fez ressalvas. “A resolução é um apelo à paz da comunidade internacional. Mas a paz exige mais do que o silêncio das armas e a retirada das tropas. O caminho para a paz requer um trabalho abrangente sobre as preocupações de segurança das partes”, disse o embaixador brasileiro Ronaldo Costa Filho.

Famílias refugiadas da Ucrânia aguardam transporte na fronteira com a Moldova / Nikolay Doychino / AFP
A Corte Internacional de Justiça realizará na próxima semana duas audiências públicas para discutir um pedido de medidas provisórias da Ucrânia contra o governo da Rússia. As sessões foram agendadas para 2ª e 3ª feira (7 e 8 de março).
Também nesta quarta, um procurador do Tribunal Penal Internacional (TPI) disse que vai “prosseguir imediatamente” com uma investigação sobre supostos crimes de guerra na Ucrânia desde 2013. A apuração terá depois que 39 países solicitaram ao TPI que tomasse providências sobre a ofensiva militar russa.
Entenda o conflito
Desde o final de 2021, tropas russas passaram a se concentrar nas proximidades da Ucrânia e o Ocidente enviou armas para os ucranianos. O conflito tem como pano de fundo os limites da expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), uma aliança militar composta por membros alinhados aos EUA, em direção à fronteira russa e o mercado de energia na Europa.
:: Rússia tenta capturar cidades-chave; Ucrânia resiste e nega ter perdido controle de porto ::
Outro elemento central é o fracasso dos Acordos de Minsk, assinados em 2014 e 2015 como uma tentativa de construir um cessar-fogo para a guerra civil na Ucrânia. A ferramenta diplomática previa condições de autonomia para áreas separaristas de Donetsk e Lugansk e a retirada de armas da região em que tropas ucranianas enfrentavam os rebeldes.
O governo de Kiev se recusava a cumprir a parte política prevista pelos acordos, já que isso poderia causar uma fratura em sua soberania.
A Rússia invadiu a Ucrânia no dia 24 de fevereiro sob a justificativa de “desmilitarizar e desnazificar” o país vizinho. Desde então, União Europeia e Estados Unidos anunciaram sanções como resposta e também fornecem armas aos ucranianos.
Um milhão de refugiados já tiveram que deixar a Ucrânia em decorrência do conflito, afirma Organização das Nações Unidas (ONU).
Edição: Arturo Hartmann e Thales Schmidt