LUIS NASSIF: OS JUDEUS QUE APOIARAM BOLSONARO
Como ficam os judeus que, mesmo conhecendo o histórico de Bolsonaro, egresso dos porões, um poço de preconceitos de toda espécie, envolvido com o baixo clero da Câmara, apoiaram incondicionalmente sua candidatura?
Dentre todos os casos extravagantes de apoio a Bolsonaro, nenhum se equipara ao advogado criminalista Ary Bergher, filho de Gerson Bergher, um médico com histórico de atendimento nas comunidades carentes, político cassado pelo AI-5.
Em 03.04.2017, o candidato Jair Bolsonaro foi recebido para palestra pelo Clube Hebraica do Rio de Janeiro. Foi saudado por Luiz Mairovitch, presidente do clube, com palavras entusiasmadas. Bolsonaro é um ícone, declarou ele, e várias palestras serão organizadas com ele.
Na palestra, Bolsonaro desfiou todo seu repertório de preconceitos. Quando listava os adjetivos com que costuma ser chamado pelos críticos – xenófobo, misógeno, homofóbico – uma mulher acrescentou “fascista”. Passou a ser hostilizada pela plateia e chamada de fascista.
Foi um discurso repleto de ódio, preconceito, contra índios, quilombolas, enquanto a plateia alucinada gritava “mito”, todos descendentes de judeus que enfrentaram o ódio nazista, que tinham nas famílias as cicatrizes dos campos de concentração.
Segundo a cobertura do Valor, “sentindo-se dono da situação, Bolsonaro aumentou o tom virulento do discurso contra a “minoria que está ruminando aqui do lado”, numa referência à mulher que o criticara”. Saiu consagrado enquanto, do lado de fora, judeus com memória criticavam o evento.
Nenhum dos presentes revelou-se um bolsonarista mais exaltado que Ary Bergher. A ponto de agredir violentamente uma senhora judia, de 88 anos, que protestava contra Bolsonaro, com palavras de baixo calão: “SUA LADRA, FILHA DA PUTA, VOU TE MATAR!”. O caso terminou com um Boletim de Ocorrência e levou à demissão de Bergher da presidência da Federação Israelita do Rio de Janeiro.
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Curiosamente, um dos grandes crimes do Estado Novo, de cunho fascista, foi a prisão do casal Henry e Elisa Berger, judeus socialistas. Elisa foi presa com Olga Benário. Harry foi preso e torturado até enlouquecer.
O nome era pseudônimo de Arthur Ewert. Mas um ascendente direto de Ary – Gerson Bergher, seu pai – manteve acesas as tradições humanistas dos judeus. Foi deputado estadual, cassado pelo golpe militar, médico, trabalhou como voluntário nas comunidades de Maré e Vila Cruzeiro. E, em 2009, protestou abertamente contra a visita do então presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad ao Brasil, citando a negação de Ahmadinejad do Holocausto .
Como explicar a posição do filho Ary, enaltecendo um discurso de ódio típico daquele que levou a Europa ao holocausto? Não se sabe se Ary Bergher esboçou alguma reação contra a visita da filha de um ex-Ministro de Hitler aos Bolsonaro.
Apesar de ser a antítese do pai, de promover um egresso dos porões da ditadura que cassou o próprio pai, em 2021 Bergher foi nomeado pelo prefeito Eduardo Paes para Presidente do Instirtuto Memooirial do Holocausto, que leva o nome de Gerson Bergher.