ALÉM DA COVID, BOLSONARO ESPALHA A PANDEMIA DA FOME, ALERTAM CAMPONESES

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Homeless men speak as they have a meal given to them by the project Covid Sem Fome (Covid Without Hunger) at the internationally renown tourist attraction of the Lapa Arches, in downtown Rio de Janeiro, Brazil, on May 05, 2021. (Photo by MAURO PIMENTEL / AFP)

CRISE ALIMENTAR

Desde o começo da pandemia, os movimentos populares do campo atuam para enfrentar a pandemia da fome

Adriane Canan, Catiane Cinelli, Justina Cima e Sandra M. da Rocha Rodrigues
Brasil de Fato | São Paulo (SP) |

 

Pesquisa aponta que 19,1 milhões de pessoas passaram fome e 55% não se alimentavam adequadamente no final de 2020 – Mauro Pimentel / AFP

É importante começar dizendo: é a agricultura camponesa e familiar quem alimenta o povo brasileiro. Cerca de 70% dos alimentos diversificados que chegam as mesas da população vêm da produção das camponesas e dos camponeses.

Com apenas perto de 2,3% das terras agricultáveis no país, o campesinato, junto ao povo das florestas e das águas, produz o verdadeiro alimento que chega às feiras, aos espaços de acesso à população.

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Se fizermos um recorte de gênero e raça/etnia ao dado de 2,3%, ampliamos ainda mais o entendimento do lugar que ocupam mulheres e povos tradicionais na produção de alimentos diversificados, mesmo em espaços ainda mais reduzidos.

Mulheres e pessoas não brancas têm ainda menos terras, mas seguem produzindo com variedade e no caminho da agroecologia como modo de vida e projeto de sociedade, no caminho da comida de verdade e da soberania alimentar.

Destacamos, com toda a veemência, que não é o agronegócio quem alimenta o povo com suas monoculturas.

O agronegócio alimenta o próprio bolso, avança, junto à mineração e aos grandes empreendimentos do capital, com sanha voraz e com muita violência sobre os territórios camponeses, indígenas e quilombolas, querendo ampliar ainda mais seus lucros, plantando, colhendo e exportando commodities. E envenenando o Brasil.

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Aumento da fome

É do lado do agronegócio, e só dele, que está o atual governo genocida brasileiro. Se eles propagam o “aumento do Produto Interno Bruto (PIB)” gerado pelo avanço do agronegócio, nós denunciamos o aumento da fome gerado por suas políticas voltadas apenas para o grande capital.

O povo não come PIB ou commodities, o povo precisa de comida de verdade.

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Dados do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no contexto da pandemia da covid-19 em nosso país apontam que 19,1 milhões de pessoas passaram fome e 55% não se alimentavam adequadamente no final de 2020.

E vejam que no mesmo período o agronegócio festejou recorde de grãos e crescimento de 5,7% em relação à safra anterior.

Nós, mulheres camponesas, falamos direto de nossos quintais e roçados produtivos em todo o país, onde cultivamos a diversidade e cuidamos das sementes crioulas construindo um futuro sem fome e com soberania alimentar.

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Nós denunciamos o governo Bolsonaro e salientamos o impacto de sua necropolítica, tanto na gestão da pandemia quanto do alimento para o povo, sobre a vida das mulheres trabalhadoras do campo, das águas, das florestas e das cidades. Continuamos produzindo e muito foi doado às populações mais fragilizadas.

Produção de alimentos

Resistimos também a partir da produção de alimentos. Nesse período da pandemia, as mulheres camponesas foram duramente afetadas no que se refere à renda. 

As vendas diretas às/aos consumidoras/es e as feiras livres, que são as grandes responsáveis pela renda das mulheres, foram inviabilizadas sem que fossem construídas formas de colocar nossa produção a serviço de quem precisa. Mas nós optamos, ao contrário do agronegócio, pela solidariedade.

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As camponesas e os camponeses do Brasil expressaram a solidariedade de classe de diversas formas: na doação de alimentos, na confecção e doação de máscaras, produtos de higiene e limpeza, na partilha de saberes sobre o uso das plantas medicinais e chás, das receitas fortalecedoras da imunidade, preparos de pratos mais nutritivos.

Ao mesmo tempo, atuamos politicamente na pressão por políticas públicas emergenciais para o campo continuar produzindo alimentos.

Desde o começo da pandemia, em 2020, nós dos movimentos populares do campo, dos partidos de esquerda e do movimento sindical da agricultura familiar atuamos para enfrentar a crise alimentar, a pandemia da fome que já apontava.

Novas políticas públicas

A Lei Assis Carvalho (PL 735/2020), construída pela maioria das organizações que representam as trabalhadoras e os trabalhadores do campo, das florestas e das águas, possibilitava a ampliação da produção de alimentos saudáveis a partir de crédito e fomento.

Essa lei dá ênfase ao trabalho das mulheres e com políticas específicas para nossa produção, como também garantia de que o auxílio emergencial pudesse chegar à agricultura camponesa, aos indígenas e quilombolas.

Aprovamos no Congresso Nacional, depois de muita luta, mas Bolsonaro vetou praticamente todos os itens da lei, o que a impediu de ser um instrumento real de combate à fome.

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Em 2021, como continuidade da luta, propusemos com o mesmo conjunto de sujeitas e sujeitos políticos e sociais do campo, o Projeto de Lei Assis Carvalho II (PL823/2021).

Neste momento estamos pressionando para aprovar com urgência no Congresso, mas sabemos da dificuldade pela complexidade política que enfrentamos, com uma base bolsonarista ligada ao capital, ao agronegócio, e com a possibilidade de veto caso chegue à avaliação de Bolsonaro.

Por isso, reafirmamos: se, mais uma vez, nossos esforços por garantir políticas públicas de enfrentamento à fome e à insegurança alimentar forem barrados, só aumenta a força de nossa denúncia constante: Bolsonaro incentiva a pandemia da fome.

Existe um culpado

Se os preços não param de subir, se a fome aumenta, se a carestia atinge o povo em cheio, principalmente as mulheres trabalhadoras urbanas e do campo, existe um culpado e uma estrutura que o mantém no poder.

Nossa luta e resistência é camponesa, feminista e popular e denunciaremos todos os dias, somando às vozes de toda a classe trabalhadora: Bolsonaro não preveniu vacina e também não previne alimento. Bolsonaro quer a pandemia da covid-19 e também a pandemia da fome.

Nós, camponesas e camponeses, lutamos pela vida do povo produzindo alimentos saudáveis e exigindo políticas públicas a serviço da classe trabalhadora, defendendo o Sistema Único de Saúde (SUS) e as conquistas históricas do povo. Exigimos #VacinaNoBraço e #ComidaNoPrato. Para nós, a vida do povo deve estar sempre em primeiro lugar.

 

*Justina Cima, Catiane Cinelli, Sandra M. da Rocha Rodrigues e Adriane Canan são do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC Brasil)

** Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Vivian Virissimo

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