FILÓSOFO JOSÉ ALCIMAR*:FETICHISMO DA IGNORÂNCIA E AVERSÃO À TEORIA: NOTAS SOBRE MARX E PAULO FREIRE

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José Alcimar de Oliveira *

(…) sempre me movo em contradições dialéticas
(Marx, carta a Kugelmann, 17 de março de 1868).

 

 

01. Há 24 anos, em 02 de maio de 1997, o Brasil perdeu o filósofo e
educador Paulo Freire. Neste 2021 trazemos à memória o centenário de seu
nascimento. Assim como Gramsci se referia ao Mouro de Trier como o
filósofo da práxis, a Paulo Freire nos referimos como o educador da práxis.
Na quarta parte do primeiro capítulo do livro primeiro de O capital Marx
analisa a mercadoria sob o aspecto de sua compreensão fetichizada, sob o
título de O caráter fetichista da mercadoria e seu segredo: a mercadoria se
apresenta aos seus produtores na forma de “uma relação social que existe
não entre eles próprios, produtores, mas entre os produtos de seus
trabalhos”. No caso, a relação social entre um marceneiro e uma costureira
aparece como relação entre a mesa e a toalha, como coisas trocáveis e
possuidoras de valor de troca, não propriamente em função do trabalho
nelas materializado. Ao fundar sua filosofia da educação na práxis, Paulo
Freire concebe o trabalho educativo como espaço de crítica e superação da
relação fetichizada entre o trabalhador e o produto do seu trabalho.

 

02. Segundo Marx, o poder e o alcance do modo capitalista de
produção se afirmam de forma local e global como um processo de
mercantilização de coisas e pessoas. O caráter mercantil da produção
personifica coisas e coisifica pessoas. Ao analisar o caráter fetichista da
forma mercadoria, Marx nos diz que “se as mercadorias pudessem falar,
diriam: é possível que nosso valor de uso interesse ao homem”. Sob o
império do fetiche, o trabalhador não consegue objetivar que o valor de uso
oculta o valor de troca e os dois ocultam o valor-trabalho. Paulo Freire
chega a Marx pela dialética do tijolo. Ao propor uma filosofia da
alfabetização de adultos a partir das relações coronelistas de trabalho
vigentes no Nordeste de dos anos de 1960 e não diferentes em 2021, Paulo
Freire, num círculo pedagógico dialético, em diálogo com o oprimido,
situou o tijolo na cadeia de opressão e exploração das relações capitalistas
de produção.

 

 

03. Duas características fundamentais configuram o capitalismo: 1) é
um sistema de mercantilização universal, o mais venal entre os sistemas
que se organizaram ao longo da história; o que é produzido, é produzido
sob a forma mercadoria; 2) é um sistema de produção de mais-valia. Não
produz apenas lucro, mas capital. A produção é presidida sob a lógica
férrea da geração da mais-valia. Não entra nessa conta nenhuma intenção
ou finalidade de produzir valor de uso para atender às necessidades
humanas. O trabalhador edifica o condomínio de luxo, mas por força do
trabalho alienado a que se submete vê como natural a impossibilidade de
nele habitar. O perigo da alfabetização de Paulo Freire foi desocultar no
tijolo como valor de uso a dominância do valor de troca.

 

04. No sistema do capital mais-valia e mercadoria não são realidades
dicotomizáveis, passíveis de serem compreendidas em si mesmas.
Constituem-se antes como uma unidade socialmente produzida e
atravessada de antagonismo. Como nos assegura Ianni: “os seus
componentes mais característicos, sejam a mais-valia e a mercadoria, sejam
o operário e o capitalista, produzem-se desde o princípio antagonicamente”.
O que fez Paulo Freire? Em diálogo com o oprimido, o oprimido como
classe social, construiu mediações que, apropriadas pelo trabalhador, lhe
permitiram compreender a natureza ontológica do antagonismo entre
capital e trabalho. O antagonismo objetivado conduz à luta de classes e o
trabalhador inicia a transição da classe-em-si à classe-para-si. Processo que
seria impossível no círculo vicioso e mecânico das técnicas correntes de
alfabetização de adultos.

 

 

05. O capitalismo tem consciência dessa relação antagônica e sabe
como desenvolver mecanismos ideológicos para impedir seu processo de
objetivação crítica pela consciência do proletariado. É necessário incutir na
consciência do trabalhador a aversão à teoria, administrar o seu tempo livre
pela indústria cultural do entretenimento. Roger Bacon, célebre filósofo
franciscano do medievo, já apontava os modos como a ignorância se
disfarça e o poder cognitivo de sua aparência de saber como um dos quatro
obstáculos epistemológicos que bloqueiam a capacidade de objetivação do
intelecto. Porque tem consciência do poder do fetiche da ignorância sobre a
consciência do oprimido, Paulo Freire pensa a prática educativa como um
ato de conhecimento, uma aproximação epistemológica e crítica da
realidade. A miséria real que marca a vida e a consciência do oprimido não
tem o poder de gerar, de forma mecânica, consciência de classe sobre a

própria miséria. Por isso, assinala Ianni: “As relações antagônicas não
podem resolver-se a não ser que o próprio capitalismo seja também
pensado”.

 

06. Não é possível prescindir da contribuição de Hegel para pensar a
dialética como um sistema de objetivação racional da realidade. Mas é
preciso dizer que em Hegel esse processo de objetivação é pensado no
plano de uma razão idealizada, abstrata, sem considerar as contradições
reais que materialmente condicionam o pensamento. Conforme o Mouro de
Trier, “o ideal não é senão o material traduzido e transposto na mente do
homem”. É preciso levar Hegel ao chão da fábrica ou colocar em suas
mãos o tijolo materializado de dialética e de história da Pedagogia do
oprimido de Paulo Freire. Pelo tijolo dialético de Paulo Freire a teoria pode
se converter em força material ao ser apropriada pelo oprimido.

 

07. Para a dialética materialista e histórica, que pensa o real como
totalidade em que as partes não conformam mecanicamente o todo, antes se
relacionam de forma orgânica, é possível ir da mercadoria (a parte), desde a
análise do seu fetiche, até chegar à objetivação do regime de produção
capitalista (o todo). Em conclusão: 1) Com Marx: “assim como a filosofia
encontra as armas materiais no proletariado, assim o proletariado tem suas
armas intelectuais na filosofia”. 2) Com Paulo Freire: “a prática de pensar a
prática é a melhor maneira de pensar corretamente”. 3) Com Ianni: “é na
análise de Marx que o capitalismo se torna transparente, desde as
figurações da mercadoria às relações entre as pessoas, desde os
encadeamentos entre a sociedade e o Estado às contradições de classes”.
Por fim: com a Pedagogia (dialógica) do oprimido é possível objetivar
desde o tijolo as relações sociais de opressão que sustentam o edifício
capitalista.

 

* José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do
Amazonas, teólogo sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA-Seção Sindical e filho do
cruzamento dos rios Solimões e Jaguaribe. Em Manaus, AM, no dia 02 de maio do ano (ainda) coronavirano de 2021.

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