FILÓSOFO JOSÉ ALCIMAR*: A SACRALIDADE DO TETO DE GASTOS DA AUTOCRACIA BURGUESA E A MANAUS SEM TETO, PÃO E SEPULTURA
José Alcimar de Oliveira *
01. O canto épico (prefiro esta classificação à de poema dramático)
de João Cabral de Melo Neto nos dá a medida da vida severina dos
empobrecidos dessa terra, de Álvares Cabral a Cabral Filho. Por que
garantir aos mortos a terra que em vida já lhes foi expropriada?
02. Em pouco menos de sete meses, nesse janeiro de 2021, a Manaus
severina, indígena, cabocla, quilombola, de mil-e-tantas-misérias, volta ao
centro da tragédia social e sanitária há muito presidida pelo Plano Diretor
da Administração Capitalista. O poder político-administrativo da Manaus
do arrivismo pós-moderno preservará sua burguesia contente dessa visão
escatológica e carente de teleologia. A sociedade de classes persiste após a
morte. Pobre não tem direito à lápide nem epitáfio.
03. Os mortos sem sepultura de Manaus, agora por falta de terra
enterrados em posição vertical, seguramente estarão excluídos da
importância e do estatuto literário do teatro sartreano. Seguirão no pós-
morte como viveram sem vida antes da morte: sem nome, sem ou em
apertada sepultura. Se voltasse à Manaus de 2021, depois de aqui chegar
em 1960, estou certo de que Sartre escreveria um posfácio à sua Mortos
sem sepultura, guardadas as diferenças de contexto da Paris dos Trópicos e
da Paris sob ocupação alemã.
04. A despeito da pandemia e das pressões surdas e sociais da
Manaus-senzala não devemos desconhecer o zelo da burguesia em
resguardar a sacralidade do teto de gastos. Responsabilidade fiscal tem
força de dogma quando o capitalismo se positiva como religião. Como
teólogo heterodoxo, estou convicto de que a cada vez mais próspera
Teologia da Prosperidade não se furtará em conferir santidade a essas
medidas salvíficas requeridas pela Gramática do Capital na Capital do
Capital de máxima rotatividade.
05. Afinal, abrir covas podem configurar crime de responsabilidade.
Nem mesmo àquelas de palmos medida têm direito os pobres num país sob
a insanidade metódica da necrocracia. A sacralidade em cumprir com os
serviços da dívida não admite a heresia de gastos com vidas desgastadas,
menos ainda com uma pandemia ainda não reconhecida pela Nova Ciência
Estatal.
06. Cabe à Nova Ciência Estatal demolir os discursos conspiratórios,
a maioria com origem no marxismo cultural, que insistem em classificar
como criminosa a Emenda Constitucional 95/2016 (a do Teto de Gastos),
que estabeleceu o Novo Regime Fiscal. Numa paráfrase sem estatuto
bachelardiano, o novo sempre encontrará diante de si obstáculos
epistemológicos de base.
07. Os que conspiram contra o Novo Regime Fiscal insistem na
aleivosia de que o Teto estrangula os já contidos investimentos sociais,
quando na verdade – atesta a Nova Ciência – ele apenas garante um ceu de
cobertura para a ganância financeira da autocracia parasitária e impõe mais
agrura à vida sufocada da classe trabalhadora, empregada, subempregada e
na informalidade, de quem a classe ociosa vampiriza o sangue, do
nascimento à cova de mesquinha medida.
* José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do
Amazonas, teólogo sem cátedra e filho do cruzamento dos rios Solimões e Jaguaribe. Em Manaus –
AM, aos dez dias de janeiro do ano (ainda) coronavirano de 2021.