OEA PEDE NOVAS ELEIÇÕES NA BOLÍVIA E CAMACHO TERÁ DE “ACHAR FÓRMULA” PARA IMPEDIR PARTIDO DE EVO MORALES DE CONCORRER
Da Redação Viomundo.
No discurso em que renunciou ao cargo, o presidente da Bolívia, Evo Morales, disse que integrantes de seu governo foram forçados a se afastar depois que sofreram ataques de gangues de milicianos, organizadas por líderes da oposição.
O principal deles é Luis Fernando Camacho, que comandou a rebelião em nome de Cristo desde Santa Cruz de la Sierra.
Ver o vídeo acima é essencial para entender o caráter do golpe.
Camacho “aprova” medidas futuras diretamente com sua multidão de seguidores, embora não tenha cargo na hierarquia constitucional da Bolívia.
“Aprova” em praça pública um novo plano de carreiras para policiais e militares que dariam o golpe, por exemplo.
O novo cruzado comanda o movimento miliciano-religioso a partir da estátua do Cristo Redentor na capital oligárquica da Bolívia.
Camacho foi ao Palácio Quemado, em La Paz, sob forte escolta policial, entrou, depositou uma Bíblia sobre a bandeira da Bolívia e deixou uma carta de renúncia dirigida a Evo Morales.

O caráter racista da derrubada do presidente indígena fica cristalizada pelo foco dos rebeldes de Santa Cruz em resgatar, em nome de Cristo, os símbolos da Bolívia que precederam a instalação do Estado Plurinacional.
Santa Cruz é a maior cidade da Bolívia, sede histórica da oposição a Evo.
Através de táticas de terror, sob o olhar conivente do Exército, as milícias a serviço de Camacho e do candidato derrotado Carlos Mesa queimaram casas, sequestraram parentes de governistas, cortaram o cabelo e pintaram de vermelho uma prefeita indígena, atacaram sedes de empresas de comunicação e acuaram integrantes do Movimento ao Socialismo, o partido que tem maioria no Congresso boliviano.
O partido divulgou uma nota em que afirma que pretende resistir:
MENSAGEM POLÍTICA A TODOS IRMÃOS MASSISTAS
Hoje, 10 de novembro, os humildes, os trabalhadores, os Aymaras e Quechua, iniciamos O LONGO CAMINHO DA RESISTÊNCIA para defender as conquistas históricas do PRIMEIRO GOVERNO INDÍGENA que termina hoje, com a renúncia forçada de nosso presidente Evo Morales – produto de um golpe cívico policial.
Que fique claro perante A HISTÓRIA nosso compromisso de defender
A NACIONALIZAÇÃO
A INDUSTRIALIZAÇÃO
NOSSAS EMPRESAS PÚBLICAS
AS POLÍTICAS SOCIAIS
E OS SÍMBOLOS DO PAÍS
Hoje, a direita e os golpistas arrastaram a Wiphala e, com ela, a nossa dignidade como indígena.
Não nos ajoelharemos, defenderemos nossos símbolos que estão constitucionalizados.
Os próximos dias serão de caçada a companheiros.
E nossa responsabilidade é nos protegermos como irmãos, reconstruir o tecido social, cuidar e proteger os líderes perseguidos.
Hoje é o momento da solidariedade, amanhã será o momento da reorganização e o passo adiante nessa luta que não termina com esses tristes eventos.
O slogan é RESISTIR, PARA AMANHÃ NOVAMENTE VOLTAR A COMBATER.
Nossa ação é defender as conquistas do maior governo que a Bolívia teve ao longo de sua história.
PÁTRIA OU MORTE!!!
O MAS é HISTÓRIA, a DIREITA é VERGONHA!
Mensagem do Comitê Político do MAS
No Brasil, o procurador-geral da República escolhido por Jair Bolsonaro, Vladimir Aras, retuitou mensagens em que Carlos Mesa pediu às Forças Armadas e à Polícia Nacional para proteger “a cidadania e garantir a integridade física e a vida das pessoas”.

No entanto, tanto o Exército quanto a Polícia se omitiram na defesa dos partidários de Evo Morales, segundo o próprio presidente narrou em seu discurso de renúncia.
Aras também retuitou mensagem em que se diz que o que aconteceu na Bolívia “não foi um golpe”, apesar de o Exército ter “sugerido” a um presidente em exercício de mandato constitucional que renunciasse ao cargo.
Mesmo sem que provas de fraude nas eleições tenham sido apresentadas, Evo Morales convocou um novo pleito por sugestão da Organização dos Estados Americanos (OEA), que observou irregularidades na votação.
A oposição não aceitou o diálogo, enquanto desmontava o governo à custa de violência física, reproduzida nas redes sociais para causar pânico à base política de Evo Morales.
O primeiro ato do golpe, segundo Morales, foi o incêndio dos registros eleitorais de sua vitória sobre Mesa em primeiro turno, por 47,7% a 36,5%, em 20 de outubro passado.
Pela lei, uma vantagem de 10% dos votos daria a Morales seu quarto mandato.
Tudo indica que o grito de fraude foi o estopim para dar início a um golpe longamente planejado.
A Organização dos Estados Americanos (OEA) foi omissa no momento-chave, em que a violência física desmontava o governo.
O secretário-geral Luis Almagro divulgou hoje nota rechaçando qualquer saída “inconstitucional” para a crise e pedindo que a Assembleia Legislativa Plurinacional da Bolívia se reúna para garantir um novo processo eleitoral.
Na nota, Almagro não faz referência às denúncias de violência feitas pelo presidente Evo Morales, mas pede que sejam investigados supostos delitos cometidos nas eleições de 20 de outubro “até as últimas consequências”.
Resta saber se Mesa e Camacho pretendem de fato disputar eleições e o que farão para impedir o partido de Evo Morales de disputá-las.
Camacho já vem se comportando como novo presidente da Bolívia.
Anunciou, por exemplo, “justiça divina” contra líderes governistas, que pretende processar e colocar na cadeia alegando que foram responsáveis pelas mortes nos distúrbios — os quais ele próprio é acusado de promover por partidários de Evo Morales.
