DEPUTADO ITALIANO, ANGELO BONELLI, INTERPELOU MELONI PARA INVESTIGAR PASSAPORTES DO CLÃ BOLSONARO
Após Flávio Bolsonaro fugir do Brasil usando passaporte italiano, Angelo Bonelli acionou dois ministérios do governo da Itália para apurar possível favorecimento na concessão de cidadania aos filhos de Jair Bolsonaro
De BERLIM | O deputado italiano Angelo Bonelli, da Aliança dos Verdes e da Esquerda (AVS), protocolou nesta quarta-feira (28) uma interpelação parlamentar ao governo da primeira-ministra Giorgia Meloni para exigir explicações e uma investigação sobre a concessão da cidadania italiana a Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro. A iniciativa ocorre após a fuga de Flávio Bolsonaro (PL), que deixou o Brasil utilizando seu passaporte italiano, apesar de uma determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para entregar seus documentos de viagem.
O documento, protocolado às 13h35 na Câmara dos Deputados da Itália, é dirigido aos ministérios das Relações Exteriores e do Interior e cobra esclarecimentos sobre um possível tratamento privilegiado aos três filhos de Jair Bolsonaro, enquanto milhares de brasileiros descendentes de italianos enfrentam filas que ultrapassam dez anos para obter a cidadania.
“Enviei uma pergunta aos Ministros das Relações Exteriores e do Interior para apurar se Flavio, Eduardo e Carlos Bolsonaro receberam tratamento prioritário para obter a cidadania italiana, enquanto centenas de milhares de descendentes de italianos no Brasil aguardam há mais de dez anos”, afirmou Bonelli em declaração enviada à Fórum nesta quarta-feira.
Cidadania dos Bolsonaro levanta suspeitas de favorecimento
Os questionamentos do deputado se baseiam em informações fornecidas pelo próprio governo italiano. Em 2020, Flávio e Eduardo solicitaram inclusão na lista de espera da Embaixada da Itália em Brasília. Em 8 de novembro de 2022, apenas nove dias após a derrota eleitoral de Jair Bolsonaro para Lula, os dois compareceram pessoalmente à embaixada para cobrar o andamento dos processos.
Segundo resposta oficial apresentada pelo governo italiano em junho de 2025, Flávio e Eduardo obtiveram a cidadania em 2023, enquanto Carlos concluiu o procedimento em 2024. A data de inscrição deste último na fila nunca foi divulgada.
A rapidez dos processos contrasta com a situação de milhares de requerentes. A Embaixada da Itália em Brasília havia suspendido as convocações em agosto de 2018 e, em novembro de 2022, ainda atendia pessoas inscritas naquele ano. Em 2018, mais de 112 mil solicitações de cidadania estavam pendentes no Brasil.
Bonelli quer saber se os Bolsonaro foram convocados respeitando a ordem cronológica ou se receberam tratamento excepcional. O deputado também critica as restrições à cidadania por descendência impostas pelo governo Meloni em março de 2025, que atingiram brasileiros que aguardavam havia anos.
“Há, então, uma hipocrisia insuportável”, afirmou. “Para seus amigos políticos na Liga, no entanto, tudo correu bem”, acrescentou, em referência ao partido de direita que integra a coalizão governista italiana.
Fuga de Flávio com passaporte italiano
A interpelação ocorre dois dias após Alexandre de Moraes determinar a entrega dos passaportes de Flávio Bolsonaro, derrotado por Lula no segundo turno da eleição presidencial de domingo (25). O senador não cumpriu a ordem e, na terça-feira (27), a Polícia Federal cancelou seus passaportes brasileiros, comum e diplomático. O documento italiano, entretanto, não poderia ser cancelado pelas autoridades brasileiras.
Na noite de terça-feira, Flávio atravessou a fronteira e entrou na Argentina, acompanhado da mulher e das duas filhas. Conforme revelou a Fórum, uma declaração de voo divulgada pelo jornalista argentino Pablo Duggan registrou o senador e sua família no jatinho da Baires Fly que deixou o país na madrugada desta quarta-feira.
No documento, Flávio aparece identificado como “NANTES BOLSONARO FLAVIO”, com nacionalidade “ITA”, correspondente à Itália, e os dados de seu passaporte italiano. A aeronave seguiu para Guayaquil, no Equador, e posteriormente para Miami, nos Estados Unidos.
Na interpelação, Bonelli menciona duas investigações envolvendo Flávio no STF. Uma delas, sob relatoria de Moraes, apura suspeitas de lavagem de dinheiro relacionadas a empresas de apostas e movimentações financeiras envolvendo o advogado Willer Tomaz. A outra, sob relatoria de André Mendonça, investiga o financiamento do filme Dark Horse pelo banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, envolvendo suspeitas de evasão de divisas, organização criminosa, lavagem de dinheiro e corrupção.
O deputado também recorda as antigas acusações contra Flávio no caso das “rachadinhas”, cujo processo não avançou após a anulação de provas pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), sem julgamento do mérito.
Bonelli também revelou paradeiro de Carla Zambelli na Itália
Angelo Bonelli é o mesmo parlamentar que, em julho de 2025, revelou às autoridades italianas o paradeiro de Carla Zambelli, então foragida da Justiça brasileira. O deputado informou à polícia o endereço do apartamento em Roma onde a bolsonarista estava escondida. Ela foi presa em 29 de julho daquele ano.
Zambelli, que também possui cidadania italiana, havia fugido do Brasil após ser condenada pelo STF. Libertada pela Justiça italiana em maio de 2026, permanece no país enquanto tramita outro pedido de extradição, relacionado à condenação pela perseguição armada a um jornalista em São Paulo.
“Vimos com Carla Zambelli o que isso significa: uma criminosa condenada chega à Itália declarando-se intocável graças ao seu passaporte italiano. A Itália não pode se tornar um refúgio para aqueles que devem responder à justiça de seu próprio país”, declarou Bonelli.
Na interpelação desta quarta-feira, o deputado exige que o governo Meloni esclareça as datas de inscrição, convocação e conclusão dos processos dos três filhos de Bolsonaro, quantas pessoas aguardavam atendimento antes deles e se houve alguma autorização excepcional para acelerar os procedimentos.
Bonelli também solicita uma investigação formal, com participação de parlamentares da oposição, para verificar a regularidade das concessões.
“A lei deve ser igual para todos: para os pobres coitados que esperam há dez anos e para os filhos dos poderosos”, concluiu.