O MIMIMI DA GLOBO: EMPRESA PROTESTA POR NÃO TER CONSEGUIDO FAZER LULA CAIR EM SUA ARMADILHA
Editorial do jornal O Globo transforma cancelamento do debate em defesa da emissora e critica ausência do presidente, que fez a coisa certa
O palco vazio da GloboCRÉDITO: REPRODUÇÃO
247 – O jornal O Globo publicou nesta sexta-feira (2) um editorial em defesa da decisão da TV Globo de cancelar o último debate presidencial antes do primeiro turno e criticou a ausência do presidente Lula. A argumentação apresentada pelo jornal sustenta que intervenções judiciais de última hora teriam comprometido a liberdade da emissora para organizar o encontro.
Em sua manifestação pública na noite de quinta-feira, a Globo afirmou que a ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), proibiu a manutenção do púlpito vazio identificado com o nome de Lula e a formulação de perguntas ao candidato ausente. Outra decisão, do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a participação de Renan Santos, do Missão. Romeu Zema também havia conquistado judicialmente o direito de participar.
O púlpito vazio como espetáculo
É justamente o episódio do púlpito que expõe a fragilidade do discurso da Globo. Se o propósito central de um debate eleitoral é, como sustenta a própria emissora, permitir a discussão de ideias e a comparação de projetos, qual seria a contribuição democrática de manter durante todo o programa um púlpito vazio identificado com o nome de Lula?
Mais ainda: por que permitir que candidatos presentes fizessem perguntas a alguém que sabidamente não estava ali para respondê-las?
As regras acertadas previamente realmente previam esse mecanismo. Esse é um fato. A Globo afirma que todos os partidos, inclusive o PT, haviam concordado com elas. Mas regras de um programa televisivo não estão acima do controle da Justiça Eleitoral. A existência de um acordo anterior não elimina o direito de uma campanha questioná-lo judicialmente nem impede que um magistrado determine sua alteração.
O editorial de O Globo apresenta essa intervenção como ameaça à liberdade de imprensa. É uma interpretação possível, defendida também por entidades representativas de empresas jornalísticas. Mas existe outra leitura: impedir que um candidato ausente seja transformado em personagem passivo de ataques sem direito de resposta também pode ser entendido como uma questão de equilíbrio eleitoral.
Lula escolheu outro palco
Há ainda algo que o protesto da Globo parece ter dificuldade em assimilar: nenhum candidato é obrigado a aceitar que uma emissora privada determine o palco em que deve se comunicar com a sociedade.
Lula recusou o convite e escolheu o Flow Podcast. A decisão foi anunciada antes do debate.
Isso diz muito sobre a transformação profunda pela qual passa a comunicação brasileira.
Durante décadas, participar do debate final da Globo parecia uma espécie de rito obrigatório de passagem para qualquer candidato competitivo à Presidência. A emissora concentrava audiência suficiente para transformar seu estúdio no centro incontornável da eleição.
Esse mundo acabou.
Não porque a Globo tenha deixado de ser importante. Continua sendo um dos maiores grupos de comunicação do País. Mas deixou de deter o monopólio da conversa nacional.
Podcasts, canais digitais, redes sociais e veículos independentes construíram audiências próprias. Um presidente da República pode hoje conversar longamente com milhões de brasileiros sem atravessar a porta dos estúdios da Globo.
Debate ou arena de lacração?
Há também uma discussão necessária sobre o próprio formato dos debates eleitorais.
Em tese, debates deveriam servir para que candidatos apresentassem projetos, confrontassem diagnósticos e explicassem propostas. Na prática, a dinâmica televisiva contemporânea frequentemente estimula frases de efeito, provocações, interrupções e momentos concebidos para viralizar posteriormente nas redes sociais.
Para um presidente em exercício que lidera uma candidatura à reeleição, participar ou não desse ambiente é uma decisão política e eleitoral. Lula optou por não fazê-lo. Flávio Bolsonaro, que estava confirmado, também desistiu na última hora.
Curiosamente, o editorial concentra sua reprovação na ausência de Lula.
A pergunta que merece ser feita é simples: se a preocupação essencial era oferecer aos brasileiros a oportunidade de conhecer propostas, por que o programa não foi realizado com os candidatos que estavam disponíveis?
O fim de uma era
A irritação manifestada pela Globo talvez revele uma realidade mais profunda do que a controvérsia jurídica desta quinta-feira.
A emissora organizou o palco. Estabeleceu suas regras. Preparou o cenário. Mas o principal candidato decidiu falar em outro lugar. O segundo colocado também desistiu. A Justiça alterou aspectos do formato e da composição. E o debate simplesmente deixou de existir.
O episódio simboliza uma redistribuição do poder na comunicação brasileira.
Durante muito tempo, grandes conglomerados midiáticos possuíram capacidade extraordinária de estabelecer a agenda política nacional. Hoje precisam disputar atenção com centenas de outros produtores de informação e conteúdo.
É saudável que seja assim.
A liberdade de imprensa não pertence à Globo, ao Globo, ao Brasil 247 ou a qualquer empresa específica. Ela existe justamente para permitir a pluralidade de vozes.
Por isso, o editorial desta sexta-feira soa menos como uma defesa abstrata da democracia e mais como o protesto de um grupo de comunicação diante da perda de uma prerrogativa que durante décadas pareceu natural: a de estabelecer o palco obrigatório da política brasileira.
Lula simplesmente decidiu que não precisava estar ali.
E talvez seja exatamente isso que a Globo ainda não tenha conseguido aceitar.