TORCIDAS CONTRARIAM CLUBES E SE POSICIONAM CONTRA BETS: ‘FUTEBOL É DO POVO !’
afinsophia 18/09/2026 0
COMBATENDO O VÍCIO
Coletivos de torcedores de diversos clubes brasileiros repudiam manifesto de cartolas e pedem veto a casas de apostas
- SÃO PAULO (SP)
- KAIQUE DALAPOLA
A publicação de um manifesto conjunto assinado por clubes e federações de futebol em defesa das casas de apostas virtuais (bets) provocou reação imediata de coletivos de torcedores e grupos antifascistas de diversas equipes brasileiras.
Em notas divulgadas entre quinta-feira (17) e sexta-feira (18), lideranças de torcidas, entidades de torcidas organizadas e outras associações ligadas a times como Vasco da Gama, Flamengo, Palmeiras, Santos, Botafogo, Remo e Sport repudiaram o tom alarmista das diretorias e defenderam o fim das apostas no esporte.
“Precisamos colocar o torcedor no centro desse debate. Estamos falando de famílias, de trabalhadores e de pessoas que muitas vezes comprometem renda, patrimônio e até relações familiares por causa de apostas. Não podemos tratar isso apenas como uma questão de patrocínio ou de receita para os clubes”, disse a torcedora do Botafogo Hericão Amaral, presidente da Torcida Fogoró. Para ela, o futebol “não pode se tornar dependente de uma atividade que tem como consequência a perda financeira de milhões de pessoas”.
Na quinta-feira, cartolas e entidades como as federações paulista (FPF), carioca (Ferj) e baiana (FBF), junto a clubes das séries A e B do Campeonato Brasileiro, divulgaram o manifesto intitulado “o fim do futebol brasileiro”. O texto criticou propostas em discussão no governo federal e no Congresso para restringir a atuação e a publicidade das bets, alegando risco de “insolvência” financeira e perdas de até R$ 1 bilhão em patrocínios.
Em contrapartida, levantamento do perfil estatístico Portal 91 apontou que 88% das manifestações de torcedores nas redes sociais criticaram a posição dos clubes. “O torcedor também começa a enxergar uma contradição: de um lado, os clubes dizem precisar cada vez mais do dinheiro das apostas; do outro, existe um modelo de negócio baseado justamente na perda financeira do apostador. E quem é esse apostador? O próprio torcedor”, disse a líder da torcida botafoguense.
O coletivo Vascomunistas, do Vasco da Gama, repudiou o posicionamento da diretoria vascaína. O grupo citou dados do Banco Central, mostrando que as apostas movimentaram entre R$ 18 bilhões e R$ 20,8 bilhões por mês via Pix no país, com R$ 3 bilhões oriundos de beneficiários do Bolsa Família apenas em agosto de 2024.
“A dependência é estrutural. Nos últimos anos, o futebol brasileiro trocou patrocínios industriais e de bancos por contratos com bets. Ao fazer isso, os clubes se tornaram reféns financeiros do setor e hoje atuam como lobby dele”, afirmou a nota. “Vasco não é bet. Vasco é povo. Fora, bets”, disse a publicação do grupo vascaíno.
Integrantes da Torcida Jovem do Flamengo e do “Bonde do Mao” classificaram a tese de que o controle das apostas causaria o “fim do futebol” como “ridícula e lamentável”. A nota destacou o impacto financeiro das bets sobre as famílias trabalhadoras, que perderam cerca de R$ 62,5 bilhões em 2025, o aumento do endividamento e os riscos de contaminação e manipulação de resultados.
“As apostas esportivas são um câncer no futebol, e não parte dele. Os dirigentes não defendem o futebol, que é coisa do povo. Defendem o próprio bolso”, registrou o coletivo rubro-negro nas redes sociais.
Entre os palmeirenses, o coletivo Palmeiras Antifascistas (P16) rebateu a alegação de colapso do esporte ao lembrar que o futebol existe há mais de um século sem o capital das casas de apostas.
O grupo apresentou dados do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) indicando que os danos sociais associados ao jogo somam R$ 38,8 bilhões anuais, além do prejuízo de R$ 143 bilhões calculado pela Confederação Nacional do Comércio (CNC) sobre o setor comercial. “O futebol não vai acabar. O que precisa acabar é a exploração da paixão daqueles que amam e vivem o futebol”, pontuou o manifesto do P16.
O coletivo Santos Antifascista adjetivou o manifesto dos clubes de “vexatório” e disse que a proliferação das apostas amplia os riscos de manipulação de jogos e destruição de orçamentos familiares, definindo a proibição definitiva como tarefa urgente para o país.
Posição semelhante à dos santistas foi adotada pelo Botafogo Antifascista, que enquadrou as plataformas de apostas como mecanismos de extração de renda da classe trabalhadora.
A contestação alcançou também equipes de fora do eixo Rio-SP, como a Bancada Alviceleste, de torcedores do Londrina Esporte Clube, que classificou a defesa das bets pelas diretorias como uma declaração de “falência moral e incapacidade administrativa”, a recifense SportAntifascista e a RemoAntifa, de Belém, que publicaram stories no Instagram se posicionando pelo fim das bets.
A Anatorg se posicionou no debate sobre as apostas esportivas, avaliando que o posicionamento assumido pelas diretorias dos clubes prioriza interesses financeiros individuais em detrimento da integridade do futebol brasileiro. O presidente da entidade, Claudinho do Espírito Santo, cobrou fiscalização rigorosa, prevenção e responsabilização de agentes envolvidos em esquemas de manipulação de resultados.
“O posicionamento dos clubes, em muitos momentos, parece estar direcionado prioritariamente aos seus próprios interesses. O que precisamos discutir, de forma séria e responsável, é o interesse coletivo e a preservação da integridade do esporte. Mesmo diante de toda a regulamentação existente, ainda presenciamos situações e resultados que levantam suspeitas e exigem atenção permanente dos órgãos responsáveis. Não basta criar regras: é necessário fiscalizar, prevenir, investigar e responsabilizar aqueles que eventualmente tentem manipular competições esportivas”, declarou Claudinho do Espírito Santo.
Diante do cenário, a Anatorg defendeu que a construção de soluções passe por projetos educativos, sociais e esportivos voltados às arquibancadas e às categorias de base, envolvendo torcedores, clubes e a comunidade do futebol. A representação nacional das organizadas informou que possui propostas para proteger os apostadores e estabelecer responsabilidade social em torno do setor, colocando-se à disposição para dialogar com autoridades do governo, órgãos de fiscalização e entidades esportivas.