COAF DESMENTIU FLÁVIO BOLSONARO: VORCARO FEZ NOVO REPASSE MILIONÁRIO PARA DARK HORSE APÓS SENADOR DIZER QUE RELAÇÃO HAVIA ACABADO
Novo repasse de US$ 1,66 milhão ocorreu após escândalo Master vir à tona e contradiz versão de Flávio Bolsonaro sobre fim dos pagamentos
Osenador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou publicamente que Daniel Vorcaro havia encerrado os repasses destinados à cinebiografia Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro, em maio de 2025. Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), porém, registra um novo envio de US$ 1,66 milhão feito pelo banqueiro em setembro do mesmo ano — quatro meses depois da data indicada pelo senador.
A revelação contradiz a versão apresentada por Flávio e ganha relevância porque o novo repasse ocorreu depois que as suspeitas envolvendo o Banco Master já haviam vindo a público. Além disso, mensagens obtidas pela Revista Piauí mostram que o senador voltou a procurar Vorcaro para cobrar parcelas atrasadas do projeto no período.
Segundo o relatório do Coaf acessado pela Revista Piauí, a transferência foi realizada em 16 de setembro de 2025 para o Havengate Development Fund, fundo estadunidense controlado por Eduardo Bolsonaro que supostamente administrava recursos relacionados ao projeto.
Com esse novo envio, o total reconhecido de valores repassados por Vorcaro ao fundo chegou a US$ 12,3 milhões, ante os US$ 10,6 milhões identificados anteriormente — montante equivalente a mais de R$ 65 milhões na cotação da época.
Coaf contradiz versão apresentada por Flávio Bolsonaro
Em entrevista à GloboNews quando sua relação com Vorcaro veio à tona, Flávio Bolsonaro afirmou que a participação financeira do banqueiro no projeto havia terminado meses antes.
“Olha só. O último pagamento que ele fez […] foi em maio de 2025”, declarou o senador.
O relatório do Coaf, contudo, registra uma operação posterior, com a transferência de US$ 1.666.667 ao fundo responsável pela administração dos recursos da produção.
Procurada pela Revista Piauí para explicar a diferença entre a declaração do senador e o documento do Coaf, a assessoria de Flávio Bolsonaro afirmou que a revista deveria procurar a produtora do filme e declarou que “isso não é com a gente”.
A resposta contrasta com o papel atribuído ao senador nas próprias mensagens que vieram a público durante as investigações. Flávio aparece como interlocutor direto de Vorcaro e como responsável por cobranças relacionadas aos atrasos dos repasses.
A nova informação do Coaf indica que a relação financeira entre as partes continuou depois do período apontado publicamente pelo senador.
Flávio procurou Vorcaro após escândalo Master vir à tona
O momento do novo repasse é um dos pontos centrais da revelação.
A transferência registrada pelo Coaf ocorreu oito dias depois de Flávio Bolsonaro enviar uma mensagem a Daniel Vorcaro cobrando parcelas atrasadas relacionadas ao projeto.
A sequência das mensagens indica que o senador procurou o banqueiro para tratar de novos valores e, posteriormente, houve o envio dos recursos ao fundo que administrava o dinheiro do projeto.
O episódio ocorreu em um contexto diferente daquele apresentado por Flávio Bolsonaro em suas declarações públicas: o escândalo envolvendo o Banco Master já havia vindo a público e colocado sob escrutínio a relação financeira envolvendo Vorcaro.
Além do repasse confirmado pelo Coaf, há indícios de que novos valores possam ter sido enviados posteriormente.
A Revista Piauí teve acesso a mensagens de WhatsApp trocadas em 22 de outubro de 2025 entre Vorcaro e o publicitário Thiago Miranda, que ajudou na captação de recursos para o projeto.
Na conversa, Miranda pergunta se Vorcaro conseguiria “liberar as parcelas do filme” e afirma que, caso contrário, “vai parar tudo por lá”.
Segundo o diálogo, Vorcaro responde: “Sim. Liberei mais uma hoje.”
Miranda afirma que comunicaria os envolvidos e acrescenta que Flávio “disse que iria te ligar tb”. Vorcaro, então, pede que o publicitário transmita suas desculpas ao senador pelos “atrasos” nas parcelas.
Caso esse pagamento mencionado na conversa tenha sido efetivado, o total enviado por Vorcaro ao projeto chegaria a US$ 14 milhões, cerca de R$ 72 milhões.
Investigação apura destino dos recursos
O acordo inicialmente conhecido entre as partes previa um total de US$ 24 milhões para o projeto.
Com o repasse confirmado pelo Coaf em setembro, sete parcelas foram reconhecidas. O possível envio mencionado nas mensagens de outubro representaria a oitava.
As investigações buscam esclarecer não apenas os valores envolvidos, mas também o caminho percorrido pelos recursos.
Segundo os documentos citados na apuração, o dinheiro não saía diretamente das empresas de Vorcaro nem chegava diretamente à Go Up Entertainment LLC, produtora oficial do filme nos Estados Unidos. O trajeto passava pelo doleiro Antonio Freixo Junior, conhecido como Mineiro, e seguia para o Havengate Development Fund, fundo sediado no Texas e administrado pelo advogado de Eduardo Bolsonaro, Paulo Calixto.
Os investigadores procuram esclarecer se todos os valores enviados ao Havengate foram efetivamente destinados à produção do filme e qual era o papel de Eduardo Bolsonaro na gestão dos recursos. Documentos norte-americanos do projeto o classificam, em diferentes momentos, como “produtor executivo” e “financiador”.
Enquanto a apuração avança, o novo relatório do Coaf coloca em xeque a versão apresentada por Flávio Bolsonaro sobre o fim dos repasses de Daniel Vorcaro para o projeto.