RONNIE LESSA DEU A PRIMEIRA ENTREVISTA DA PRISÃO E DETALHOU O ASSASSINATO DE MARIELLE FRANCO
afinsophia 31/08/2026 0
Ex-policial receberia R$ 25 milhões pelo crime; ao longo de 20 anos de atuação, ele estima ter executado mais de mil pessoas

Preso no Complexo da Papuda, em Brasília, o ex-policial do Bope Ronnie Lessa concedeu a primeira entrevista desde que confessou ter assassinado a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes, em março de 2018. No depoimento, ele reconstitui a execução, fala sobre sua trajetória como matador dentro e fora da polícia e nega ter sido contratado como assassino de aluguel para matar Marielle.
Lessa relatou que passou cerca de sete meses monitorando a rotina da vereadora antes do crime. Segundo ele, convidou o ex-PM Elcio de Queiroz para participar da ação sem revelar de início quem seria o alvo, informação que só teria compartilhado no dia da execução.
De acordo com o relato, no momento do ataque ele estava armado com uma submetralhadora e orientou Elcio a emparelhar o veículo com o carro em que Marielle seguia ao lado da assessora Fernanda Chaves e do motorista Anderson Gomes. Lessa afirmou ter efetuado um primeiro disparo e, na sequência, uma rajada de treze tiros contra a janela traseira do automóvel. Ele disse ter percebido que Anderson reagiu à dor e sentiu o corpo de Marielle tombar sobre ele dentro do carro.
“Não fui contratado como assassino de aluguel”
Apesar de admitir a autoria do crime, Lessa rejeitou a tese de que teria sido pago como pistoleiro profissional para matar Marielle, atribuindo o assassinato a uma articulação mais ampla ligada a uma milícia.
O ex-policial também afirmou que, ao contrário do que dizem investigadores, nunca havia matado inocentes ao longo de sua carreira antes do episódio, classificando Marielle e Anderson como as únicas vítimas nessa condição. Mas, ao longo de 20 anos de atuação, estimou ter executado mais de mil pessoas.
Ligações com o Jogo do Bicho
Lessa contou que ingressou na Polícia Militar aos 19 anos motivado pelo desejo de seguir carreira e por influência do contato do pai com o meio policial, mas relatou ter se decepcionado rapidamente com a corporação, alegando que a instituição empurrava os agentes para a ilegalidade.
Ele confirmou ter atuado no Bope e, posteriormente, em batalhões na Zona Norte do Rio, período em que teria participado de dezenas de operações letais Lessa também admitiu ter possuído carteira de sócio da Escuderie Lecoque, associação ligada a agentes conhecidos por integrar o chamado Esquadrão da Morte.
Questionado sobre sua relação com o contraventor Rogério de Andrade, herdeiro dos negócios de Castor de Andrade no Jogo do Bicho, Lessa afirmou prestar serviços de segurança ao grupo, negando vínculo empregatício direto com bicheiros. Ele relacionou a aproximação com Rogério a um atentado a bomba que os dois teriam sofrido separadamente, um deles fatal para o filho do contraventor.
Lessa também reconheceu ter recebido pagamentos vinculados a Bernardo Belo, outro nome de destaque do Jogo do Bicho, incluindo uma quantia mensal repassada por um comparsa. Ele admitiu ter aceitado, a pedido de Belo, a encomenda da morte da então presidente de escola de samba Regina Celi, mas disse ter propositalmente adiado a execução até ela nunca se concretizar, afirmando ter enganado o contratante.
Rivalidade Adriano da Nóbrega
Sobre sua relação com o capitão Adriano da Nóbrega, apontado como líder do Escritório do Crime, Lessa negou qualquer vínculo de subordinação, descrevendo os dois como antigos aliados que se tornaram rivais após uma divergência relacionada à morte de um amigo em comum. Ele chegou a declarar que teria matado Adriano caso tivesse conseguido localizá-lo, dada a hostilidade que existia entre ambos.
Lessa e Elcio de Queiroz foram presos um ano após o crime. Seis anos depois, Lessa fechou acordo de delação premiada, no qual detalhou o planejamento da execução. Segundo promotores ouvidos na reportagem, seu comportamento após a prisão seria compatível com traços psicopáticos, caracterizados pela ausência de empatia e pelo arrependimento voltado não ao crime em si, mas ao fato de ter sido descoberto.