LUIS NASSIF: NA SOMBRA DA MALDADE DA LAVA JATO

0
claudio-tozzi-multidao-768x458

E há uma incapacidade generalizada de pensar o país, de clarear corações e mentes para a importância de um grande pacto nacional.

Cláudio Tozzi – Multidão

São inúmeros os exemplos históricos da chamada psicologia de massa do fascismo, tema que Sigmund Freud estudou nos anos 1920.

Os mecanismos centrais descritos por Freud são conhecidos: a regressão do indivíduo a um funcionamento mais primitivo dentro da multidão; a substituição do superego individual pelo ideal do líder — ou de uma ideia-líder; e os laços libidinais verticais e horizontais entre os membros do grupo. Em outras palavras, vínculos afetivos dirigidos ao chefe, à causa ou aos próprios integrantes da massa, capazes de manter a coesão do grupo.

É nesses movimentos que explode o imbecil coletivo, expressão que Ortega y Gasset usava para classificar os primeiros movimentos de manada na era da comunicação.

A história está coalhada desses surtos: da Queda da Bastilha à ascensão do nazismo, dos movimentos de 1968 na França ao macartismo nos Estados Unidos, do golpe de 1964 no Brasil à campanha do impeachment de Fernando Collor — apesar de todos os vícios e defeitos do ex-presidente.

No Brasil, houve três fenômenos de grande proporção: a campanha contra Vargas, o golpe de 1964 e a Operação Lava Jato. Todos tiveram como mote a suposta luta contra a corrupção e contra o comunismo — seja lá o que seus protagonistas entendessem por comunismo.

O grau de maldade dos procuradores, da juíza e da delegada que levaram à morte do reitor Cancellier é fenômeno típico dessa psicologia de massa e da abolição de qualquer restrição ética nos movimentos de linchamento.

Mas não são eles que mais me impressionam. Eichmann está aí para ilustrar a transformação do funcionário público em monstro de crueldade.

A psicologia chama esse movimento de deindividuação: processo pelo qual uma pessoa, inserida em um grupo, perde temporariamente a noção de identidade individual e de responsabilidade pessoal, passando a agir de forma como jamais agiria sozinha. Fora daquele contexto — sem a multidão, sem a pressão situacional —, a pessoa “volta ao normal”, muitas vezes sem conseguir explicar inteiramente o próprio comportamento.

Não me refiro aos anônimos bestificados, mas a pessoas que assumiram a linha de frente desse linchamento continuado: jornalistas de nível, como Miriam Leitão e Reinaldo Azevedo; ministros do Supremo que hoje atuam como âncoras da estabilidade democrática, como Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes.

Qual era a pomba-gira condutora dessa irracionalidade? Dê-se a eles o benefício da ignorância: talvez não pudessem supor que, no fim da linha, apareceria um Bolsonaro. Mas se no fim da linha tivesse um Aécio, melhoraria o quadro? É evidente que não.

Ajudaram a destruir um arcabouço institucional duramente criado pela Constituinte e preservado nas décadas seguintes. E não pelo desfecho Bolsonaro, mas pelo método empregado.

Hoje, o país está ameaçado por fora — pelo novo padrão do imperialismo norte-americano — e por dentro — pelos quintas-colunas, pelo chamado mercado e pela invasão do crime organizado. Ao mesmo tempo, há uma incapacidade generalizada de pensar o país, de clarear corações e mentes para a importância de um grande pacto nacional.

Sem isso, torna-se inócuo até o trabalho meritório atual dos convertidos, de defesa da democracia e da grande Nação Brasil.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.