INFLAÇÃO ABAIXO DO PREVISTO INDICA QUE BRASIL PODE CRESCER MANTENDO PREÇOS ESTÁVEIS, AVALIAM ECONOMISTAS

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ECONOMIA

Desaceleração do IPCA valida criação de empregos sem pressão automática no custo de vida, mas é preciso cautela

Preço dos alimentos recuou em junho | Crédito: Luiz Costa/SMCS/Fotos Públicas

A inflação oficial do Brasil, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), registrou alta de 0,16% em junho. O resultado, divulgado nesta sexta-feira (10), ficou abaixo das expectativas do mercado financeiro, que previa 0,32%, e interrompeu a sequência de altas observadas em abril (0,67%) e maio (0,58%).

O cenário revela uma dinâmica que desafia análises conservadoras: segundo economistas ouvidos pelo Brasil de Fato ele fortalece a possibilidade de o país sustentar o crescimento do mercado de trabalho e a recuperação da renda sem gerar uma espiral inflacionária.

A economista Karina Fernandes, mestre em Economia pela Univsersidade de São Paulo (USP), destaca que economia brasileira tem conseguido combinar geração de empregos e recuperação da renda sem uma aceleração proporcional da inflação, contrariando previsões recorrentes de que a melhora das condições do mercado de trabalho necessariamente produziria forte pressão inflacionária.”

Para ela, esse comportamento indica uma mudança na lógica de crescimento do país, provando que é possível expandir a economia real, medida pelo Produto Interno Bruto (PIB), sem que o custo de vida saia de controle de forma automática.

Já Victor Leonardo, professor de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF), aponta que a sustentabilidade deste quadro depende de políticas de proteção externa. “O governo brasileiro tem se mostrado exitoso em conseguir isolar, mais ou menos, a economia brasileira dos efeitos da guerra dos Estados Unidos contra o Irã e do aumento extraordinariamente exorbitante do preço do petróleo”.

Ele explica que a atual gestão “abrasileirou” os preços dos combustíveis. A Petrobras abandonou a antiga Política de Paridade de Importação (PPI), que espelhava a cotação internacional, adotando uma nova metodologia que reduz as oscilações no mercado interno.

Otimismo, mas com cautela

Apesar do dado positivo, a análise de Fernandes convida ao equilíbrio. Ela alerta que, embora o resultado de junho, fortemente influenciado pelo recuo no preço dos alimentos, traga um alívio momentâneo, ainda é prematuro declarar que o país entrou em uma trajetória de desinflação consolidada e duradoura.

“Um único mês não é suficiente para caracterizar uma tendência estrutural, sobretudo em um cenário internacional marcado por elevada incerteza”, pondera. Um dos pontos de atenção levantados pela economista é a forte influência de variáveis que o Brasil não controla.

Em que pese o desempenho mensal, o IPCA acumula 4,64% em 12 meses. Como comenta o professor Victor Leonardo, esse índice revela uma situação curiosa: “uma inflação [no mês] baixa, porém acima da meta de inflação [em 12 meses]”. Esse descompasso, aponta, mantém o Comitê de Política Monetária (Copom) em um estado de vigilância, sendo “receoso, reticente e hesitante em reduzir a taxa básica de juros”. A busca por atingir a meta de 3% ao ano com 1,5 ponto percentual de margem é apontada como justificativa para o atual patamar da Selic, em 14,25%.

A inflação do supermercado

Ao olhar para o impacto no bolso do trabalhador, a economista Karina Fernandes pontua que há um descompasso entre o índice agregado e a vivência das famílias. Mesmo com a inflação média dos alimentos no terceiro governo Lula correspondendo à metade da registrada durante a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro, a percepção de custo de vida permanece elevada.

O professor Leonardo enfatiza que a cotação do dólar é peça-chave aqui: “A gente conseguiu estabilizar a taxa de câmbio em torno de R$ 5 e R$ 5,10”, afirma. Para ele, a estabilidade cambial é “absolutamente crucial” para que a população não sinta que a economia está “sem comando”.

Já Fernandes explica que “a inflação não é vivida da mesma forma por todos. Famílias de baixa e média renda destinam uma parcela muito maior de seus rendimentos para itens essenciais, especialmente alimentação. Quando os alimentos sobem, o impacto sobre essas famílias é significativamente maior”.

Segundo a especialista, a percepção econômica do eleitorado é construída, na prática, pela inflação dos itens básicos. “O que pesa eleitoralmente é a tradução desses números em experiências concretas: o arroz, a carne, o café, os ovos e os produtos do dia a dia. Quando o crescimento da renda e a proteção social conseguem acompanhar o custo de vida, os indicadores estatísticos deixam de ser números e passam a ser percepção social de segurança e qualidade de vida”, conclui.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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