ACREDITAM EM TUDO: COMO SURGIU BOATO DE QUE BOLSONARO SERÁ SOLTO E DISPUTARÁ ELEIÇÃO
A exemplo das maluquices bizarras de 2022, como a “decretação de estado de sítio” e a “prisão de Moraes”, bolsonaristas passaram a espalhar mentira sobre reabilitação total do ex-presidente condenado
Amáquina de desinformação bolsonarista voltou a operar por esses dias em rotação máxima nas redes sociais, resgatando o mesmo modus operandi de teorias conspiratórias passadas. A nova fantasia do ecossistema de fake news da extrema direita flerta abertamente com o absurdo: a tese de que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) seria integralmente reabilitado pela Justiça, solto em tempo recorde e lançado diretamente na disputa eleitoral.
A onda de boatos ganhou tração após declarações ambíguas do presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto. Durante um evento com empresários e parlamentares, o cacique partidário inflou expectativas sobre um novo recurso criminal protocolado pela defesa de Bolsonaro, disparando que “muita coisa vai acontecer no Brasil nestes 20 dias”. Foi o estopim necessário para que grupos de aplicativos de mensagem e perfis de extremistas distorcessem a realidade, vendendo uma ilusão jurídica sem qualquer base factual.
Abismo técnico e a farsa dos prazos
O que a militância vende como “liberdade e palanque iminentes” esbarra na realidade processual. O recurso protocolado pela defesa é uma revisão criminal. Na melhor das hipóteses teóricas, esse mecanismo serve apenas para reavaliar a dosimetria (o cálculo) da pena com base em mudanças legislativas recentes, o que poderia, eventualmente, abrandar o regime de cumprimento para o semiaberto ou aberto no futuro.
Porém, o prazo estipulado pelos boatos das redes é uma impossibilidade física e jurídica. Uma revisão criminal exige meses de tramitação, no mínimo 90 dias, para que seja minimamente analisada pelos tribunais. A urgência fabricada pelos contos virtuais serve apenas a um propósito político: alimentar uma militância que parece disposta a acreditar em qualquer milagre digital, uma marca da ignorância bruta do movimento bolsonarista.
Falsa equivalência com o caso Lula
Para tentar dar verniz de seriedade ao boato, os propagadores de fake news tentam traçar um paralelo jurídico inexistente entre a situação de Bolsonaro e a anulação dos processos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na esteira da Operação Lava-Jato. A comparação é tecnicamente desonesta e cretina.
No caso de Lula, o Supremo Tribunal Federal reconheceu a suspeição e a parcialidade do juiz de primeira instância na origem das investigações, o que anulou o processo desde o nascimento por vício de competência. Já as condenações de Jair Bolsonaro e os processos decorrentes dos atos de 8 de Janeiro foram validados, discutidos e decididos diretamente pelo plenário da Suprema Corte.
Todas as controvérsias, desde a relatoria de Alexandre de Moraes até a validade de delações premiadas, já foram amplamente julgadas e sepultadas pelo colegiado de ministros. Não há fato novo, erro crasso ou reviravolta jurídica capaz de sustentar a tese de uma “descondenação”.
Estratégia da frustração calculada
A insistência em espalhar uma mentira com prazo de validade tão curto repete a tática manjada do bolsonarismo: a criação de uma narrativa de perseguição programada.
Ao inflar a base com a promessa de que Bolsonaro subirá nos palanques nos próximos dias ao lado de Flávio Bolsonaro, a liderança do movimento pavimenta o caminho para a frustração. Quando o prazo inventado expirar e nada acontecer, porque a lei assim determina, o ecossistema ativará a segunda fase do plano: culpar as instituições e o sistema por um impedimento que, na verdade, sempre foi a única realidade legal.