FLÁVIO BOLSONARO VÊ NOVA ONDA DE REPÚDIO APÓS DEFENDER CARTÕES DE CRÉDITO DOS EUA

0
33488541-high-scaled-e1781287609326-768x433

Em atitude inacreditável, o senador pré-candidato à Presidência propôs a Trump caminho para fazer as bilionárias bandeiras Visa e MasterCard lucrarem mais, enquanto limita expansão do PIX

Por: Henrique Rodrigues: 03/07/2026 – 
O senador Flávio Bolsonaro – Foto: Reuters/Folhapress
09:26

Ovazamento da íntegra de um calhamaço de 86 páginas enviado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) disparou um violento revés sobre a pré-candidatura do extremista, que agora enfrenta a pior tempestade de sua trajetória pública. No documento oficial, que ostenta o timbre do Senado Federal, o filho 01 do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) assumiu uma postura classificada pela maior parte dos cidadãos e por analistas como de explícita vassalagem internacional: postou-se como ferrenho defensor dos interesses comerciais de bilionárias bandeiras norte-americanas de cartão de crédito, como Visa e MasterCard, propondo em contrapartida o cerceamento da expansão global do PIX, a bem-sucedida e gratuita ferramenta de pagamentos instantâneos desenvolvida pelo Banco Central do Brasil.

A reação nas redes sociais foi imediata e violenta. Rótulos como “traidor da pátria”, “Judas” e “traíra” espalharam-se de forma viral pelas pelas plataformas digitais, unindo diferentes setores da sociedade civil indignados com o uso de um fórum estrangeiro para desidratar um patrimônio tecnológico e financeiro nacional. Encurralado pelo bombardeio, Flávio Bolsonaro deu sinais públicos de desespero, cancelando compromissos em agendas tradicionais no Nordeste para anunciar uma viagem intempestiva a Washington, sob a alegação de estar “cansado e estressado” com o “nível de cobrança” do eleitorado brasileiro, quando na verdade seus concidadãos apenas exigem que ele se comporte como um brasileiro. O episódio desencadeou o que analistas já apontam como o pior inferno astral de sua pré-candidatura à Presidência da República, expondo uma profunda desconexão com a realidade econômica do país e as aspirações de soberania nacional.

PIX como moeda de troca: A lógica do lucro estrangeiro

O cerne do documento protocolado por Flávio Bolsonaro junto ao USTR na última quarta-feira (1º) revela uma inversão de prioridades que chocou o mercado e a opinião pública. Atendendo a uma investigação abraçada pelo governo norte-americano (sob a chamada Section 301), que classifica o avanço do PIX como uma “competição prejudicial” às empresas dos EUA, o senador brasileiro apressou-se em oferecer garantias políticas a Washington. O parlamentar argumentou textualmente que o PIX, por ser uma infraestrutura pública e gratuita, não funciona como uma empresa e, portanto, não gera lucro. Sob essa justificativa, defendeu a necessidade de salvaguardar as margens de lucro das operadoras privadas estrangeiras, que dominam o mercado de cartões de crédito e débito no Brasil.

Para aplacar as preocupações da gestão de Donald Trump e garantir a hegemonia do dólar nas transações comerciais globais, Flávio ofereceu o que chamou de “compromisso legislativo” de remediação: uma trava política para isolar o PIX do sistema financeiro global. A proposta prevê proibir por lei qualquer interconexão do arranjo de pagamentos brasileiro a sistemas transfronteiriços de liquidação considerados “não ocidentais”, uma clara blindagem contra a aproximação de mercados asiáticos, notadamente a China, e uma tentativa de minar os esforços de construção de uma ordem financeira multipolar promovida pelo bloco do BRICS.

Adicionalmente, o pré-candidato defendeu um alívio tributário e regulatório agressivo para as empresas norte-americanas de cartão, alegando que tais mecanismos oferecem serviços que o PIX não seria capaz de suprir, como a contestação de compras e o financiamento de crédito. O argumento ignora os sucessivos avanços promovidos pelo Banco Central do Brasil que já mimetizam essas funções em solo nacional a custos infinitamente menores. A tese de que um presidenciável brasileiro deva priorizar a rentabilidade de multinacionais sediadas em Nova York, em detrimento de uma ferramenta pública essencial para pequenos comerciantes, trabalhadores informais e milhões de cidadãos, consolidou a narrativa de submissão que agora asfixia sua imagem pública.

O cálculo eleitoral do adiamento e a contradição tarifária

O pânico eleitoral é o fio condutor que costura as dezenas de páginas da petição enviada por Flávio Bolsonaro. Ao se apresentar formalmente ao USTR como o principal nome da oposição para a disputa presidencial, o senador implorou para que o governo norte-americano adie por 180 dias (com possibilidade de extensão por mais 90) a aplicação da barreira alfandegária de 25% proposta contra as exportações do Brasil. A justificativa apresentada pelo parlamentar a uma potência estrangeira carrega o peso de uma confissão explícita: ele admite que o tarifaço está destruindo suas chances eleitorais e inflando sua rejeição junto ao eleitorado produtivo.

Essa postura expõe uma contradição flagrante na retórica do clã Bolsonaro. Durante meses, Flávio e seu irmão, o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), aplaudiram publicamente e incentivaram o endurecimento da política comercial norte-americana contra o Brasil, utilizando as sanções econômicas como arma de desgaste político contra a gestão do presidente Lula (PT). Em episódios anteriores, Eduardo chegou a comemorar nas redes sociais a imposição de sobretaxas ao setor exportador brasileiro, agradecendo nominalmente a Donald Trump e referindo-se ao mandatário estrangeiro com reverência devida a um chefe de Estado próprio.

Agora, diante de pesquisas internas que apontam o colapso de sua popularidade, Flávio recorre ao pragmatismo cosmético. Na carta, ele adverte as autoridades norte-americanas de que a pressão tarifária imediata surtiu o efeito oposto ao desejado, fortalecendo a retórica de soberania nacional do presidente Lula e empurrando a opinião pública brasileira para o apoio ao atual governo. “As tarifas propostas dariam ao atual governo brasileiro exatamente a vitória política que ele vem buscando”, confessa no documento. A solução proposta pelo senador não visa proteger os produtores agrícolas ou a indústria nacional do prejuízo bilionário, mas tão somente empurrar o início do desastre econômico para depois do pleito eleitoral, numa manobra que coloca o interesse de sua facção partidária acima da estabilidade financeira do país.

Dossiê Master: Omissões de R$ 61 milhões e uso político das instituições

Na tentativa de robustecer sua interlocução com Washington e desviar o foco de sua agenda entreguista, Flávio Bolsonaro transformou a petição de comércio internacional em uma peça de acusação política interna. O senador anexou ao documento enviado ao USTR un detalhado dossiê sobre as investigações que cercam o Banco Master, classificando o episódio aos norte-americanos como a “maior fraude bancária da história do Brasil”, apropriando-se, ironicamente, de uma expressão cunhada pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, meses antes.

No texto enviado a Washington, o parlamentar desenhou uma narrativa que vincula o escândalo financeiro à cúpula do governo federal e ao Judiciário brasileiro. Flávio citou nominalmente ex-ministros como Guido Mantega e Ricardo Lewandowski, além do líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), e do próprio presidente Lula, acusando-os de manter uma rede de proximidade com o controlador da instituição financeira. O senador também atacou o Supremo Tribunal Federal, mencionando contratos do escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, com a banca investigada, numa clara tentativa de capitalizar as pautas da extrema direita norte-americana sobre supostos abusos e censura institucional no Brasil.

O que confere ao documento o caráter de profunda dissimulação, no entanto, são as omissões cirúrgicas praticadas pelo senador. Enquanto utilizava uma repartição estrangeira como balcão de queixas partidárias para alvejar o governo e o STF, Flávio Bolsonaro sonegou das autoridades dos EUA suas próprias e profundas conexões financeiras com o pivô do escândalo: o banqueiro Daniel Vorcaro, preso no âmbito da Operação Compliance Zero.

Interceptações telefônicas e documentos revelados pelo veículo The Intercept Brasil provam que o senador articulou diretamente com Vorcaro o repasse de cifras milionárias. Entre fevereiro e maio de 2025, empresas parceiras do banqueiro criminoso transferiram pelo menos R$ 61 milhões, de um montante total negociado de R$ 134 milhões, para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas e gerido por operadores ligados a Eduardo Bolsonaro. O destino do dinheiro era o financiamento do projeto político-midiático Dark Horse, um filme biográfico grotesco destinado a exaltar a figura de Jair Bolsonaro. Em áudios gravados em setembro do ano passado, o próprio Flávio aparece cobrando Vorcaro de forma incisiva por atrasos nos repasses, alegando que a produção estava em “momento muito decisivo” e que “está todo mundo tenso”.

O silêncio do senador sobre os R$ 61 milhões que irrigaram os negócios de sua própria família, somado à ocultação de buscas e apreensões sofridas por aliados íntimos de seu grupo político, como o senador Ciro Nogueira (PP-PI), despiu a carta de qualquer verniz de denúncia legítima. A peça foi convertida, aos olhos da opinião pública nacional, em uma operação de imagem seletiva e desesperada. Ao tentar entregar o patrimônio do PIX em troca de uma trégua eleitoral e usar o Banco Master como cortina de fumaça, Flávio Bolsonaro acabou por carimbar na própria testa a insensatez política, selando o isolamento que agora amarga diante do eleitorado brasileiro.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.