LUIS NASSIF: O JORNALISMO E OS INFLUENCIADORES

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Em cada tema, busca-se o enfoque mais emocional, a frase de maior impacto, mesmo que fuja de critérios básicos de objetividade jornalística.

Reprodução

O uso do cachimbo entorta a boca. É curioso o fenômeno que está acontecendo com jornalistas opinadores. 

Vamos por partes.

Em outros tempos, em que os tempos eram mais lentos, havia os jornais diários, as revistas semanais e os livros. O ritmo menor de tempo não apenas permitia uma absorção melhor do conteúdo como permitia ao jornalista exercitar sua função mais nobre: analisar os fatos sem parti pris.

Governos não são entidades monobloco. Dentro do governo há conflitos entre linhas de pensamento, interesses, alianças. Com exceção do pavoroso governo Bolsonaro, era possível encontrar bons momentos em áreas ligadas a tecnologia, educação, e maus momentos em áreas mais sensíveis a lobbies.

Não era uma prática usual, mas havia jornalistas que criticavam fatos negativos, elogiavam fatos positivos sem serem acusados de incoerência. Isso porque o tempo, mais lento, permitia o hábito da leitura continuada. Lendo diariamente a coluna, os leitores entendiam a lógica de cada um, da opinião única à opinião mais sofisticada.

Com a Internet, esse modelo se esboroou. Cada notícia é um ente isolado, que circula pelos grupos de WhatsApp. Se hoje elogio Lula, sou acusado de chapa-branca. Se amanhã critico, torno-me quinta-coluna. 

As duas maiores pressões sobre o jornalismo são: 1. Dos patrocinadores. 2. Dos leitores. E, aí, entra-se em uma quadra complicada: quando os veículos começam a se orientar estaticamente pela opinião do leitor.

Por exemplo, depois de uma entrada vigorosa da CNN, a Globonews reagiu e conseguiu razoável diversidade no seu corpo de especialistas. Por pouco tempo, pareceu uma volta aos anos 90, quando os grupos jornalísticos buscavam uma certa diversidade de opinião para conquistar leitores de todas as tendências.

De repente, demitiu uma de suas estrelas. Ela saiu, investiu mais nas redes sociais e, mesmo em dois veículos de menor alcance, conseguiu uma visibilidade maior do que no período anterior.

Esse episódio provocou dois efeitos no grupo. De um lado, a constatação de quão frágeis são os laços de confiança entre veículo e jornalista; de outro, a importância de ganharem seu próprio público através das redes sociais. E, para isso, vale tudo, micagens, frases de efeito.

Quando se busca contentar indistintamente público, dá-se adeus ao jornalismo. Em cada tema, busca-se o enfoque mais emocional, a frase de maior impacto, a gracinha mais explícita, mesmo que fuja de critérios básicos de objetividade jornalística.

A única maneira de preservar o jornalismo seria a criação de condições econômicas para o exercício do jornalismo. Há algumas exceções no mundo desenvolvido, do conservadorismo de um The Economist, ao progressista do The Guardian, ao clássico The New York Times. Mas, nesses tristes trópicos, há poucos navios à vista no horizonte.

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