Isso serve como um alerta sobre os riscos inerentes à “transferência de credibilidade” de empresas de capital aberto para holdings privadas.

Aumento de Capital Fantasma: R$ 70 milhões não estão em lugar nenhum.
A trajetória financeira da FICT3 tomou um rumo suspeito em 22 de setembro de 2025, quando a empresa homologou um aumento maciço de capital privado de R$ 70.000.001,40. Embora nominalmente destinada a financiar a aquisição da unidade UPI Mellore e reforçar o capital de giro, a medida apertou significativamente o controle da Fictor Holding S.A., aumentando sua participação de 45,9% para uma posição dominante de 70,6%.
Um despacho da Polícia Federal destaca a gravidade desta suspeita de violação de dever fiduciário: “A empresa citada teria realizado um aumento de capital meramente formal, ilusório ou simulado, no montante de R$ 70.000.000,00, divulgado ao mercado como reforço patrimonial, mas que pode ter servido para enganar acionistas minoritários, investidores e o próprio mercado quanto à real situação financeira de seu controlador e do grupo econômico relacionado.”
A reviravolta de 23 dias: da “autonomia” à “insolvência”
A integridade do mercado depende da inviolabilidade dos “Fatos Relevantes” (Fatos Relevantes).
2 de fevereiro de 2026 A FICT3 emitiu um comunicado definitivo assegurando ao mercado que não faria parte do processo de recuperação judicial (RJ) da Holding, alegando que suas operações eram saudáveis e autônomas.
Essa “narrativa da solvência” se desintegrou em 25 de fevereiro de 2026. Em uma reunião remota do conselho de administração, na qual o único participante era o CEO Rafael de Góis, a empresa aprovou sua própria inclusão no processo de recuperação judicial da Holding. Essa rápida reviravolta é vista pelos críticos como um clássico “Abuso de Estrutura”, em que a empresa listada foi “arrastada” para o processo de recuperação para proteger os interesses do controlador em detrimento dos acionistas minoritários.
A inconsistência é gritante: como uma empresa que absorveu R$ 70 milhões em novo capital em setembro se encontra efetivamente insolvente cinco meses depois?
Operação Fallax: Quando a Polícia Bate à Porta do CEO
A crise escalou para uma dimensão criminal em 25 de março de 2026, quando a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão na residência de Rafael Ribeiro Leite de Góis. Embora Góis ocupe os cargos de Presidente do Conselho e CEO interino, ele também atuou como Diretor Interino de Relações com Investidores (DRI), monopolizando efetivamente a voz oficial da empresa perante o mercado.
É essencial distinguir esta investigação da Operação Fallax, que envolve armas ilegais no Rio. Esta investigação específica, iniciada pela DPF/PCA/SP (Piracicaba) e mais tarde mudou-se para o COR/SR/PF/SP (São Paulo), tem como alvo uma organização criminosa especializada em fraudes contra instituições financeiras. A operação confirmou a apreensão de provas de alto nível, conforme observado no comunicado da empresa:
“Além disso, a empresa informa que não teve acesso ao conteúdo do procedimento investigativo, tendo sido confirmada até o momento apenas a apreensão do telefone celular do referido executivo.”
A Miragem “Mellore”: Uma Operação Comercial Sem Sede Legal
A principal justificativa para o aumento de capital de R$ 70 milhões foi a aquisição da unidade **UPI Mellore** em Betim, MG, por R$ 30,4 milhões. Este plano de negócios, no entanto, parece ter sido uma “fachada narrativa”. Em 4 de dezembro de 2025, a empresa atingiu o auge da dissonância institucional: enquanto a vara de falências de Minas Gerais (o tribunal de falências de Mellore) estava emitindo um alerta severo de que explorar a unidade sem autorização judicial constituiria um crime de falência. Simultaneamente, a Fictor publicava vídeos comemorativos do seu “início de operações”.
Essa unidade teria sido usada como pretexto para justificar o rápido consumo dos R$ 70 milhões desaparecidos. Quando a aquisição foi oficialmente cancelada em 12 de março de 2026, o capital já havia sumido e o “Mellore Mirage” havia cumprido seu propósito como um depósito temporário de fundos desviados.
A Rebelião dos Acionistas Minoritários
Recusando-se a ser vítimas passivas, o acionista minoritário Victor Kozoski lançou uma ofensiva legal agressiva em múltiplas frentes através do CVM, B3/BSM e Ministério Público (MPSP/MPF). Seu formal Notícia de Fato moveu-se com uma velocidade sem precedentes, sendo convertido pela Polícia Federal em um“Notícia Crime em Verificação (NCV)” em apenas três dias (de 22 a 25 de maio de 2026).
Kozoski exigiu um rigoroso“Rastreamento de Dinheiro”auditoria por empresas como Kroll ou PwC Rastrear os R$ 70 milhões pelo labirinto da “Caixa Único”. Suas demandas incluem:
- A destituição do executivo de seus cargos de CEO e DRI interino visa impedir a destruição de evidências digitais e garantir uma comunicação independente com o mercado.
- Conceder aos auditores acesso irrestrito aos sistemas ERP, e-mails corporativos e registros para identificar transferências entre empresas e AFACs (Acordos Financeiros e de Crédito Antecipado) usados para drenar o caixa da FICT3 (Financial Investment and Tax and Charges).
- É necessária uma mudança imediata do nome da empresa listada na bolsa para estancar o “contágio reputacional” da marca Fictor, que se tornou sinônimo de suspeita de fraude financeira.
Conclusão: O Custo de um Nome
O desfecho para a Fictor Alimentos depende da “reconstituição do tesouro da FICT3”. Se os R$ 70 milhões foram de fato desviados para sustentar um império privado falido, o caminho para a restituição dos 5.000 acionistas minoritários será uma árdua batalha judicial pelo labirinto do direito societário brasileiro.
Este escândalo serve como um alerta preocupante sobre os riscos inerentes à “transferência de credibilidade” de empresas de capital aberto para holdings privadas. Quando o único ativo real de uma empresa é o prestígio do seu código de ações, o que acontece com os investidores quando o próprio nome se torna um passivo? O caso Fictor sugere que, no mundo da contabilidade forense, nomes são facilmente alterados, mas o rastro de R$ 70 milhões desaparecidos é muito mais difícil de apagar.
O outro lado
Questionada expressamente pelo GGN sobre o destino dos R$ 70 milhões do aumento de capital, a legalidade das operações com a UPI Mellore e as acusações de “simulação contábil” apontadas pela Polícia Federal, a Fictor Alimentos S.A. não retornou aos nossos pedidos de esclarecimento até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto para as manifestações da empresa e de seus representantes legais.