MARCELINO FREIRE: “FALAMOS O BRASILEIRO, LÍNGUA DO FOGO, COMPOSTA POR MUITAS OUTRAS LÍNGUAS”

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FALA BRASILEIRA

Escritor e poeta entende o idioma falado no Brasil em movimento permanente de construção 

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Marcelino Freire, poeta e escritor, é o entrevistado do Conversa Bem Viver no Dia Mundial da Língua Portuguesa | Crédito: © Foto/Instagram: marcelino_freire_escritor

Dia 5 de maio é celebrado mundialmente como Dia da Língua Portuguesa. Para marcar a data, o programa Conversa Bem Viver, da Rádio Brasil de Fato, convidou Marcelino Freire, escritor e poeta, autor de livros como “Escalavra” (Editora Amarcord) e “Contos Negreiros” (Editora Record), este segundo premiado no Jabuti na categoria de Contos e Crônicas no ano de 2006.

Marcelino entende a língua falada no Brasil como uma mistura de várias línguas e não um português simplesmente. Para ele, é importante prestar atenção nas línguas que são iletradas, nos ruídos e sons que o mundo pratica. “Eu sou falador sertanejo,muita ladainha, muita reza, volto a dizer, a língua é um fogo antigo. Imagine os ruídos que vão formando a nossa fala. A gente chega, no momento que os portugueses chegaram aqui, mas as línguas estavam sendo faladas antes, as línguas indígenas, línguas tão antigas. Tudo isso vai nos formando”.

O escritor fala também do processo contínuo de desenvolvimento da linguagem. Para ele, que é curador, juntamente com Roberta Estrela D’Alva, da sala permanente Falares, no Museu da Língua Portuguesa, o nosso idioma segue em construção. “Eu gosto da ideia que se chame língua brasileira ou línguas múltiplas, sei lá, mas de alguma maneira, o museu tenta — e eu acho que é uma uma tentativa muito válida — compor-se dessas línguas todas. E tenta pensar o mundo também atual. O pajubá, a língua das travestis, tantas as coisas ali misturadas, mescladas e que formam uma língua tão múltipla e em permanente movimento”, diz.

Leia a entrevista completa 

Brasil de Fato: Você consideraria a língua portuguesa uma mãe? 

Marcelino Freire: A Língua sertaneja, a ladainha, a reza. Tem falas muito antigas dentro de uma língua, muito entre aspas, portuguesa. Eu nasci no sertão de Pernambuco, então imagine os ruídos característicos daquele lugar. Os sons iletrados dos abismos também nos complementam e nos completam. Quem fala isso é o Pedro Lemebel, escritor latino e chileno. A gente também tem que prestar atenção nas línguas iletradas dos abismos, os ventos, os ruídos, os passarinhos. Tudo isso é língua portuguesa, brasileira, sertaneja, mundial. Língua réptil, língua pedregosa, é tudo língua.

Muito bonito você trazer essa provocação de contestar essa língua portuguesa, que era justamente a minha segunda pergunta. Nossa língua portuguesa é repleta de influências que vêm de todas as partes, inclusive de outros continentes. Língua bantu, por exemplo, e também a língua tupi, natural daqui. Uma composição que Lélia González nomeia como pretuguês. O senhor se considera um falante do pretuguês? 

Eu sou falador sertanejo, muita ladainha, muita reza, volto a dizer, a língua é um fogo antigo. Então, imagine os ruídos que vão formando a nossa fala. A gente chega, no momento que os portugueses chegaram aqui, mas as línguas estavam sendo faladas antes, as línguas indígenas, línguas tão antigas. Tudo isso vai nos formando.

Quando eu escrevo, eu penso muito nas ladainhas da minha mãe, nas rezas e queixas. Minha mãe dava muito vexame. Então, imagine, quando eu falo dessa língua da minha mãe, a minha mãe trazia consigo línguas muito antigas, muitas mulheres estavam ali com minha mãe. É isso que vem de raízes indígenas, de raízes muito profundas que a gente nem sabe enumerar.

Eu vi uma entrevista agora há pouco do nosso querido parceiro, ator e artista Gero Camilo, em que ele reivindica a língua brasileira. Nós estamos falando aí uma língua brasileira, aí dizendo um pouco dessa formação ou dessa língua que já estava sendo falada aqui, que nem Brasil se chamava ainda esse território.

Te parece que é um caminho necessário que o Brasil encampe uma luta de reivindicar que aqui falamos o brasileiro, não o português?

Os próprios portugueses dizem, de forma preconceituosa: “Ah, eles não falam português, eles falam brasileiro”. Nós falamos brasileiro, então, muito bem, nós falamos brasileiro e esse brasileiro aí é composto de tantas línguas.

E eu estou falando brasileiro, desse Brasil que foi chamado assim, mas essa região aqui tem outros nomes e a gente sabe muito bem. Quando a gente se depara com palavras indígenas como Itaquera, tudo isso aí é muito antigo, isso aí vem vindo há muito tempo. Esse fogo é muito antigo. Falamos a língua do fogo.

Não é só as palavras, mas a pronúncia, o soar. Esses dias eu fiz duas entrevistas com portugueses, e tive muita dificuldade de entender, embora as palavras fossem as mesmas, mas uma pronúncia completamente diferente. De fato é um outro idioma, não é, Marcelino? 

É um outro idioma. Quando perguntam de onde vem a minha escrita, as pessoas acham que a escrita de um autor vem da biblioteca, dos livros que ele leu ou de quando acontece o letramento. Mas a poesia já existia na minha minha casa há muito tempo.

Essa poesia é feita de ruídos, de falas, de palavras que eu nem julgava e nem sabia o que significavam, mas já eram ruídos do meu juízo. Então, tudo que eu escrevo tem muito essa linguagem múltipla, já tão poliglota.

Aliás, uma curiosidade. Eu sou um dos curadores de uma sala permanente no Museu da Língua Portuguesa. Eu e a Roberta Estrela D’Alva somos curadores de uma sala chamada Falares. Falares é uma tentativa de registrar essas falas múltiplas diversas pelo Brasil afora.

O grande Museu da Língua Portuguesa, localizado no centro histórico de São Paulo, que já pegou fogo, na Língua do Fogo, e ressurgiu como a Fênix, foi reconstruído e vale a visita. É um lugar especial para mergulhar, esse Museu da Língua Portuguesa, que daqui há pouco a gente tem que reivindicar como Museu da Língua Brasileira. Talvez seja o primeiro passo, mudar o nome do Museu. O que você acha, Marcelino? 

Eita, vamos juntar todos esses povos que falam essas línguas todas que nos comunicam. Você estava falando agora há pouco da comunicação de uma língua em relação a outra. Eu lembro de palavras que minha mãe falava, que eu dizia: “o que é que ela está falando?” Ela dizia assim: “Eu acordei com o ‘farnizim’”. Eu procurei durante muito tempo essa palavra ‘farnizim’, de onde é que vem essa palavra ‘farnizim’. E cheguei, na verdade, à origem da palavra, que é frenesi. E essa palavra é francesa. Isso está vindo e já se transformando numa língua bem brasileira.

Eu gosto da ideia que se chame língua brasileira ou línguas múltiplas, sei lá, mas de alguma maneira, o museu  tenta — e eu acho que é uma uma tentativa muito válida —  compor-se dessas línguas todas. E tenta pensar o mundo também atual. O pajubá, a língua das travestis, tantas as coisas ali misturadas, mescladas e que formam uma língua tão múltipla e em permanente movimento.

É impressionante como até hoje, de maneiras às vezes diretas, mas às vezes indiretas, sempre se tenta colocar como periférico, como fora do centro, fora do respeito aquela pessoa que coloca um “r” onde no dicionário Aurélio se fala com “i”. Essa é uma luta da qual a gente não pode desistir, contra o preconceito linguístico?

Tem muito preconceito linguístico. Isso é correto, isso é certo, se fala dessa maneira, olha como fulano fala. Eu me lembro do João Cabral de Melo Neto, poeta pernambucano, ele dizia assim: “olha, eu não gosto de música, compreende? Porque a poesia, compreende? A poesia tem os seus próprios ritmos, compreende? Então, a música, compreende? Compreende? Compreende?”. E ele falava “compreende” a cada segundo das frases que ele pronunciava. O “compreende” do João Cabral é o “tá ligado” dos nossos amigos e amigas. O João Cabral pode falar “compreende” e o outro rapaz não pode falar o “tá ligado”? É a mesmíssima coisa. Eu lembro também do nosso poeta querido Marco Pezão, um dos criadores do Sarau da Cooperifa, quando ele dizia: “Nós é ponte e atravessa qualquer rio. Nós é ponte e atravessa qualquer rio”. Isso em uma sala toda lotada no bar do Zé Batidão e todo mundo gritando e dizendo esse verso: “Nós é ponte e atravessa qualquer rio”. Aí um professor de português chegou e disse: “Marco, está errado ‘nós é ponte atravessa qualquer rio’, o certo é ‘nós somos pontes e atravessamos qualquer rio’”. E o Marco Pezão respondeu: “Desse jeito, ninguém atravessa.”

‘Nós é ponte e atravessa qualquer rio’, você vê que a própria frase já vai atravessando, há muita urgência nisso. “Nós somos pontes e atravessamos qualquer rio”, o português vai atrasar essa retomada de território, essa travessia.

Aproveitando que você citou uma bela poesia, construída sobre o concreto paulistano, eu queria trazer um texto, no caso um texto seu, essa sua poesia da paz, que o Emicida está celebrando os 20 anos dela na sua nova turnê, ‘Mesmas cores e mesmos valores’, que também é uma referência aos Racionais MCs. 

Eu conheci ele no seu começo de carreira, ele vendendo os CDs dele por 2 reais, ele e o irmão dele. Ele ouvia eu dizendo meus textos e inclusive eu cheguei a participar de um disco anterior dele, fazendo “Trabalhadores do Brasil”, eu mesmo dizendo entre uma canção e outra. E essa amizade continua muito estreita, já tinha um tempo que desejava fazer o [poema] “Da Paz”, ele fez, gravou um clipe que já está no ar. Ele, uma vez, leu um texto meu chamado “Homo Erectus”, que abre o livro “Balé Ralé”, ele fez isso em show e é estonteante.

E o “Da Paz”, eu não sabia que ele ia fazer nesse show recente, isso eu não sabia, mas eu sei que ele faz em shows e que ele fez esse clipe, mas nesse show agora eu não sabia. Eu fiquei muito honrado e muito feliz mais uma vez dessa defesa do Emicida, ele que é um grande artista, um grande parceiro, um grande interlocutor. 

E olhe só a coincidência. Ele foi escrito em 2006, publicado em 2008, e a primeira atriz [Naruna Costa] que interpretou o texto, não era livro publicado, era um papel impresso que eu entreguei a ela. E o texto faz parte do espetáculo “Hospital da Gente”, que é um espetáculo do repertório do grupo Clariô de Teatro.

E, infelizmente, 20 anos e continuam matando os garotos, os jovens pelas periferias do Brasil e é isso que o que o texto denuncia.

Olhando para o mundo hoje, é impressionante como ele também dialoga com o que está acontecendo, com a intervenção na Venezuela, a intervenção no Irã, que são invasões sem pé nem cabeça usando como desculpa a paz, mas na prática, provocando mais guerra, porque é isso que move o imperialismo mundial.

Eu acho que é isso, de alguma maneira, o que a interpretação do Emicida revela. Porque ele faz essa ponte das crianças mortas pela guerra e ele faz essa referência imediatamente depois de dizer o “Da Paz” nesse novo show. 

Então, infelizmente, eu acho que um escritor, uma escritora, quando escreve, testemunha isso, coloca o que está acontecendo. E a gente gostaria de ler esse texto e dissessezer “isso aí não acontece mais, mas em algum momento da história da humanidade fizeram isso com nossas crianças, nossos jovens.”

Por isso que o texto é exatamente para essa denúncia, para esse testemunho. Mas o que acontece é que a gente olha o texto e diz: “Continuam matando nossos jovens, nossas crianças”. Ou seja, falhamos como como humanidade, estamos falhando. Espero que não falhemos mais.

Essa paz hipócrita, essa paz em que o [Donald] Trump chega a reivindicar o prêmio Nobel da Paz, ele faz guerra para poder alcançar a paz. Quanta gente morrendo, quantas crianças, quantos jovens, quantas pessoas sofrendo, efeitos de uma guerra desigual.

Queria um rápido comentário seu de balanço de mais uma temporada de “Agropeça”, interpretada pelo Teatro da Vertigem, que esteve durante dois meses em cartaz, talvez na sua própria casa, o Galpão Elza Soares, do MST, no centro de São Paulo. Tem previsão de nova temporada? 

Não tem previsão, é uma produção muito grande, uma produção que precisa de apoio. Então, foi uma luta para ter a retomada dessa temporada. A temporada começou em 2023, depois fez uma temporada, uma pequena temporada em Santiago do Chile e agora voltou, e com um sucesso absurdo, no Espaço Cultural Elza Soares, no Galpão do MST na Barra Funda.

Trezentas e cinquenta pessoas por apresentação e tomadas de muita vontade, de muita indignação, e com esse grupo extraordinário, com a direção do Antônio Araújo e Eli Monteiro, é um elenco espantoso.

Eu amo teatro, eu escrevo pensando em teatro e fiz teatro desde pequeno. Então, toda vez que um grupo, uma atriz, um ator, leva um texto escrito por mim ao palco, é um sonho antigo que volta à cena. E com essa fortaleza de uma palavra que se quer inquieta, se quer combativa.

Eu vou dizer um texto trechinho curtinho do meu livro “Escalavra”, publicado pela Amarcord. É a história de um pai, de um filho e de um silêncio sepulcral entre eles. Esse menino que é analfabeto e o pai também. Os dois fazem trabalhos que ninguém quer fazer, carregar pedra para lugar nenhum. Se passa num sertão. Esse menino encontra uns livros na casa de um professor, uma biblioteca. E os livros são a casa das palavras., Então vamos lá:

“Eram os livros de cera amarela ou preta, tiras finas, caules de folhas vegetais, os livros vivos, animais de osso, argila, lidos de trás para frente nos templos bravios, omoplatas de carneiros, casco cascos, cerâmicas, todas as matemáticas babilônicas, forquilhas, livres tijolos arenosos nas margens do Nilo, papiros, pergaminhos, papel sagrado, os traços severos e rígidos, rugas onde estão os rabiscos da vida, passada e futura, livros são árvores dormindo, parecem pássaros nos ninhos botando ovos. Eita, vamos lá para essa geração de sementes, ovos, plantações de palavras pelo mundo.” 

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