GUSTAVO TAPIOCA: O EVANGELHO DO GOLPE, DA TORTURA E DO ENTREGUISMO

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Maldita e Desejada (2012) – Obra de Jaider Esbell – Divulgação

A eleição de 2026 não opõe apenas candidaturas. Ela confronta dois projetos de país: o de Lula, que recoloca os pobres e os direitos sociais no centro da política, e o da extrema direita bolsonarista, que funde mercado, autoritarismo e fundamentalismo religioso numa máquina de poder que vai dos púlpitos ao Congresso Nacional. 

por Gustavo Tapioca

A eleição presidencial de outubro de 2026 será mais do que uma disputa entre nomes. O Brasil está diante de um confronto entre dois projetos históricos e antagônicos. De um lado, Lula, que representa a reeleição de um campo progressista comprometido com a democracia, a proteção social e a centralidade dos mais pobres na vida nacional. 

De outro, o bolsonarismo, agora reorganizado em torno de Flávio Bolsonaro, herdeiro político de um movimento que combina ultraconservadorismo moral, fanatismo de mercado e agressividade antidemocrática. 

Essa disputa não surgiu de repente. Foi preparada durante décadas, num lento deslocamento do eixo religioso-popular do Brasil. O país que conheceu a força das Comunidades Eclesiais de Base, da Teologia da Libertação e da opção preferencial pelos pobres foi sendo transformado por outra pedagogia: a da prosperidade individual, da guerra espiritual, do empreendedorismo de si mesmo e da demonização das pautas progressistas. 

Quando a fé dos pobres assustou o poder 

Nos anos 1960 e 1970, a Teologia da Libertação se tornou uma força real na América Latina. Sua potência vinha justamente daquilo que hoje ainda assusta as elites: a capacidade de ligar fé, consciência social, leitura crítica da realidade e organização popular. A religião, nesse contexto, deixava de ser consolo passivo e passava a funcionar como fermento de transformação histórica. 

Foi isso que alarmou os centros de poder. Em plena Guerra Fria, a emergência de um cristianismo comprometido com a justiça social e a emancipação popular passou a ser vista como um problema estratégico. Não era apenas uma divergência doutrinária. Era a percepção de que a Igreja, em seus setores de base, podia se converter em território de resistência ao autoritarismo, à miséria e à dependência latino-americana. 

Da comunidade ao mercado 

O neopentecostalismo cresceu no vácuo deixado por esse enfraquecimento, mas não apenas por isso. Soube responder, à sua maneira, às angústias de uma sociedade marcada por urbanização caótica, precarização do trabalho, retração do Estado e brutalização da vida cotidiana.  

Essa mudança foi decisiva. A teologia da prosperidade não é apenas uma doutrina religiosa. É uma gramática moral perfeitamente ajustada ao neoliberalismo. Ensina que o sucesso é prova de fé, que o fracasso é responsabilidade do indivíduo e que a superação da pobreza depende menos de direitos do que de postura espiritual. Desse modo, a desigualdade deixa de ser problema político e se converte em drama privado. 

A guerra espiritual cumpre papel semelhante. Ao substituir o conflito social pelo combate entre Deus e o demônio, ela despolitiza o sofrimento e dissolve suas causas históricas. O desemprego, a violência, o colapso familiar e a frustração material deixam de ser lidos como produtos de uma ordem excludente e passam a ser tratados como ataque maligno, fraqueza moral ou desvio de conduta. 

O berço moral do bolsonarismo 

Foi nesse terreno que o bolsonarismo encontrou sua base mais sólida. A extrema direita brasileira não cresceu só pela internet, nem apenas pela ação de militares, empresários ou setores do agronegócio.  

Cresceu porque encontrou, em parcelas importantes do mundo evangélico conservador e neopentecostal, uma infraestrutura moral pronta para acolhê-la e legitimá-la. 

A pauta dos costumes virou cimento ideológico. A defesa abstrata da família, o pânico moral em torno da chamada “ideologia de gênero”, a demonização das esquerdas e a transformação de adversários políticos em inimigos da fé ajudaram a construir uma identidade emocional poderosíssima. Já não se tratava de disputar programas de governo, mas de salvar o país de uma ameaça moral imaginada como total. 

É por isso que o bolsonarismo fala tão bem a esse universo. Seu lema — “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” — não é mero slogan. É a síntese de uma visão de mundo em que autoridade política, nacionalismo agressivo e legitimação religiosa se fundem.  

E esse projeto se torna ainda mais sombrio quando lembramos que Jair Bolsonaro, hoje fora da disputa, foi condenado por participação na trama golpista que chegou a incluir o plano de assassinato de Lula, Geraldo Alckmin e Alexandre de Moraes. 

A questão, portanto, não é apenas eleitoral. É civilizatória. 

O púlpito virou máquina de poder 

O erro mais comum da análise progressista foi imaginar que essa transformação religiosa permaneceria confinada aos templos. Não permaneceu. Avançou sobre a mídia, sobre a cultura de massas, sobre as redes sociais e, de maneira decisiva, sobre o sistema político. 

As grandes igrejas neopentecostais construíram impérios de comunicação, formaram quadros, financiaram candidaturas, produziram linguagem e sedimentaram uma visão de mundo cotidiana, repetida à exaustão em cultos, programas de rádio, televisão e plataformas digitais. Enquanto isso, o campo progressista perdia capilaridade territorial, vocabulário popular e presença contínua na vida concreta das periferias. 

Essa disputa chegou com força total ao Congresso Nacional. Hoje, a relação entre setores evangélicos conservadores e partidos da extrema direita já não é apenas de apoio externo. Trata-se de uma simbiose institucional. Pastores, bispos, missionários, comunicadores religiosos e parlamentares orgânicos desse universo compõem uma engrenagem estável de poder. 

O altar dentro do Estado 

Na Câmara e no Senado, a força evangélica conservadora deixou de ser apenas um agrupamento temático. Passou a operar como bloco ideológico com capacidade de influir sobre costumes, orçamento, comissões, nomeações, legislação e agenda pública.  

O que está em curso não é somente a presença legítima de religiosos na política, algo próprio de qualquer democracia plural. O que se vê é a tentativa de converter convicções confessionais em norma geral e de submeter a esfera pública à lógica permanente da guerra moral. 

Essa é a verdadeira função estratégica da aliança entre neopentecostalismo e extrema direita. O púlpito fornece base social, disciplina simbólica, autoridade e mobilização. O mandato devolve às igrejas acesso ao Estado, proteção institucional e capacidade de ampliar seu poder material e político. A religião oferece massa; a política oferece máquina. Juntas, produzem hegemonia. 

É por isso que essa presença no Congresso precisa ser lida com seriedade. Não estamos diante de uma simples bancada religiosa. Estamos diante de uma coalizão de poder que pretende moldar o país a partir de uma combinação explosiva: neoliberalismo para os pobres, moralismo para as famílias e autoritarismo para a democracia. 

Outubro decidirá mais do que um governo 

A eleição de 2026, portanto, será o momento de definição entre duas concepções de Brasil. De um lado, a tradição que, com todas as contradições do lulismo, ainda preserva algo fundamental: a ideia de que o Estado deve proteger os vulneráveis, reduzir desigualdades e governar para a maioria social.  

Uma ideia que, em chave histórica, dialoga com aquela antiga e poderosa noção das Comunidades Eclesiais de Base: a opção preferencial pelos pobres. De outro lado, a herança bolsonarista, agora recauchutada para sobreviver sem Jair, mas mantendo intacto seu núcleo duro. 

O projeto de Flávio Bolsonaro, herdeiro direto do bolsonarismo condenado pelo golpismo, representa a tentativa de adaptar aos trópicos o modelo da extrema direita contemporânea: mercado sem freios, guerra moral permanente, captura religiosa da política e erosão sistemática da democracia.  

Se esse bloco vencer, o Brasil aprofundará a fusão entre autoritarismo, fundamentalismo e desigualdade, transformando a fé em instrumento de disciplinamento social e o Estado em extensão de interesses privados e sectários. 

A vitória de Lula e das forças democráticas, por isso, não significará apenas a escolha de um governo, mas a recusa de um projeto que usa o nome de Deus para legitimar exclusão, violência política e submissão dos pobres. Em outubro, o país decidirá entre o resgate da dignidade comum e a consolidação de uma ordem em que a religião deixa de ser esperança dos de baixo para se tornar a linguagem de seus algozes. 

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

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