“SE VOCÊ É DE DIREITA, VOCÊ NÃO É UM MC”, AFIRMOU THIAGO ELNIÑO QUE LANÇA SEU NOVO EP ‘CANJERÊ’
afinsophia 22/04/2026 0
HIP-HOP
Novo álbum do artista reúne diferentes gerações do rap nacional trazendo referências das religiões de matriz africana
O rapper Thiago Elniño lança o álbum ‘Canjerê’, no qual resgata sua trajetória no rap. O quarto disco da sua carreira conta com diversas participações como Glória Bomfim, Sapopemba, Sérgio Pererê, Lazzo Matumbi, Daúde, Bixarte, Sued Nunes, Felipe Cordeiro, Tássia Reis e Rashid.
Durante o papo, o rapper, que também é pedagogo e educador popular, falou sobre a sua atuação dentro das escolas. Para ele, o trabalho de educador se mistura com seu trabalho artístico.
‘Eu falo que para mim o palco é uma sala de aula e a sala de aula é um palco. Eu entro para a sala de aula e eu falo: “Eu vou fazer um espetáculo aqui, cara”. E eu entro no palco pensando: “Cara, eu vou transmitir um conhecimento aqui”. Isso tudo misturado e amalgamado o tempo todo. É uma performance’, disse Thiago. Leia a entrevista na íntegra:
Brasil de Fato: Thiago, você convidou uma galera pesada, entre eles Rashid, Tasha Reis, Felipe Cordeiro, diretamente do Pará, Bixarte, entre outros. E me parece, que além de realizar parcerias, que é de costume do Rap, você resolveu, fazer composições coletivas, de uma certa forma, é isso mesmo?
Thiago Elniño: Durante o meu processo, minha carreira, nem sempre as coisas foram muito fáceis. E você nem sempre sabe quando vai ter condição de fazer um outro disco, quantas coisas vão estar propícias a fazer outro disco. Então, quando eu comecei a fazer esse, tratei ele realmente como se fosse meu último. Não com a intenção de que ele seja o último, mas eu falei: “Cara, eu vou realizar o sonho de fazer músicas com as pessoas que eu gosto e que eu ainda não fiz e que façam sentido para o conceito que eu tenho agora para essa obra”. O canjerê é uma palavra que significa o encontro de quem faz magia, o encontro de quem faz feitiço. E eu quis reunir pessoas que eu me sinto enfeitiçado pela música que eles fazem.
Quando eu pensei nesse encontro, nesse atravessamento de pessoas que fazem magia com a música, eu pensei também que no rap, quando você chega aos 30 anos, para uma galera você já tá velho. Então, tem uma coisa muito maluca sobre etarismo no rap, sobre o rap não se relacionar muito com os mais velhos e essa essa relação se dá muito através do sample. Mas o sample para mim não era o suficiente. Eu queria realmente estar fazendo música com essas pessoas de gerações anteriores e de pessoas com gerações posteriores à minha, que eu sinto na presença delas, que elas são mais velhas às vezes do que essas pessoas que literalmente tem mais idade, mas que são super joviais.
Então um canjerê, onde eu vou fazer esse encontro geracional de pessoas que eu acho que fazem magia com a música.
Por exemplo, o Marco Ribas no disco, que é um mais velho que já não está mais com a gente em carne. Mas é alguém que eu tive um breve contato em vida e que era muito jovial, e ao mesmo tempo era um orixá, um mais velho de uma sabedoria muito bonita.
Sobre essa divisão etária a partir da tua fala, eu fiquei refletindo que o rap tem essa proposição de realmente sempre se renovar. Essa é a origem dele, mas há a importância de fazer referência a quem veio antes.
Completamente, não se dar por satisfeito com o discurso, que eu acho muito válido, de que a gente revive carreiras, que a gente traz à tona carreiras que estavam, talvez, silenciadas por causa do processo do tempo, da relação com o mercado de de dar mais atenção ao que é jovem, ao que é fresco.
Então a gente não pode ficar nesse lugar de que só porque fez um sample, é, achar que já está se relacionando de uma forma saudável com o que veio antes. Não, esses artistas mais velhos estão aí, é, vamos lá trocar uma ideia, vamos lá conversar, vamos lá aprender um pouquinho, vamos ter essa humildade também.
O Gog, a gente tem um EP anterior, e na parceria, às vezes o Gog me ligava de madrugada pra trocar ideia comigo. Super acordado, cheio de ideias super frescas, enquanto, na nossa relação, eu pareço que sou o mais velho. Se deixar o Gog quer fazer tudo agora, cheio de energia. E eu não sou tão assim, às vezes você tem que me pegar pela mão.
Então tem esse tom de chamamento mesmo. Eu sou educador, sou pedagogo e estou muito dentro das escolas também e eu tenho uma experiência massa que, há alguns dias, eu estava subindo a minha rua e vieram dois meninos e quando passou por mim, um deles falou: “E aí, beleza Elniño, beleza, está tudo legal, está tudo massa?”. Eu olhei para ele e falei: “Está tudo massa”. E o outro perguntou assim: “Quem que é ele?” Aí o menino respondeu: “Esse aí é um coroa que vai lá na escola falar de hip-hop”.
Eu tenho 40 anos, mas, para mim, coroa era quem tinha 50, sabe? Mas só que eu tô sendo chamado de tio no hip-hop desde que eu tenho 30. Existe vida após os 30, a gente ainda tem coisa para dizer. Coisas bem legais, coisas importantes.
E às vezes a gente não está com a gíria conectada ao ao que está na internet, mas a gente está aí, forte e vivo.
E estamos vendo a internet, no final das contas, dividindo as pessoas. Tem essa ilusão de que ela consegue conectar, mas na prática, ela acaba colocando as pessoas em caixinhas e nos impossibilitando, às vezes, de ter diálogos francos com uma pessoa que está muito próxima da gente e da realidade
Exatamente. Penso dessa forma também. Esse trabalho não tem a presunção de apresentar esses mais velhos para as pessoas, mas tem a presunção de se relacionar.
Eu vejo os caras falando: “Pô, eu fiz um disco para você escutar assim, para você escutar assado, coloca um fone de ouvido para perceber os detalhes, ouça inteiro, vai fazer sentido só se você ouvir assim ou assado. E eu estou distante dessa ideia de projetar para as pessoas como deve ser a experiência dela. Mas uma coisa que eu intenciono é que fosse um disco de conforto, um disco simples, um disco que você pudesse escutar arrumando uma casa, um disco que você pudesse estar andando na rua e ouvindo, colocando no teu carro, às vezes ouvindo no metrô e que ele fosse como a vida acontece, fluída. E nessa vida fluída, em algum momento, você vai estar trocando ideia com o mais velho, com o teu avô, com o coroa que mora na tua rua, com o pai de um amigo, com o avô de um amigo que você vai visitar.
Até mesmo porque ele fala desse lugar da fé, do que a gente capta no terreiro, mas depois ele pensa em como a gente vai estar levando o que a gente aprende ali, o que a gente absorve ali para o nosso cotidiano. E o nosso cotidiano está cheio de pessoas da terceira idade, como dizem, da melhor idade.
Às vezes, muitas vezes, você encontra jovens falando muita coisa importante e outros mais jovens falando muita besteira. E a gente encontra muito velho também falando muita besteira. Então, a gente tem que desmistificar também esse lugar do sagrado do velho, não é só porque é mais velho, que é uma pessoa interessante. Mas esse disco tá cheio de gente interessante.
Como que tu diferenciaria a atuação de um professor para um educador popular? Tem diferença?
Eu acho que às vezes um professor pode ser um educador popular, mas nem sempre ele vai ser. E quase sempre o educador popular, tem uma dinâmica de possibilidades que um professor atinge e quando a gente fala de professor, a gente não está falando só do currículo escolar. A gente está falando da possibilidade de transmitir conhecimento, de ter essa intencionalidade. Eu acho que o professor é quem tem a intencionalidade de transmitir algum tipo de saber.
A gente tem muito esse lugar de pensar o educador popular como um educador contra-hegemônico. E é dessa forma que eu assisto alguns professores. Alguns professores estão dentro da escola, entendendo aquele currículo como algo não positivo para a formação daquele cidadão, para a formação daquele indivíduo, para a formação daquele ser humano e ele está ali lutando, tensionando dentro daquela estrutura para incluir coisas que ele entende como edificante, como possibilidades de construção melhores para aquele indivíduo que está transmitindo o conhecimento dele.
Os educadores podem estar em diferentes lugares. Agora, professor é professor. Professor, ele está lá na instituição de ensino. É, isso aqui eu estou te falando tudo construindo agora na minha cabeça, é um freestyle. O educador eu acho ele mais dinâmico.
Eu falo que para mim o palco é uma sala de aula e a sala de aula é um palco. Eu entro para a sala de aula e eu falo: “Eu vou fazer um espetáculo aqui, cara”. E eu entro no palco pensando: “Cara, eu vou transmitir um conhecimento aqui”. Isso tudo misturado e amalgamado o tempo todo. É uma performance.
Porque o MC é esse cara que está incluído dentro da cultura hip-hop, que necessariamente deve ser uma cultura contra a hegemonia. Agora o rapper era o cara que faz rap. O rap é um estilo musical. Qualquer estilo musical pode falar de qualquer coisa.
A galera fica um pouco assustada com rappers de direita e eu não me assusto com rappers de direita, não me assusto com sambistas de direita, não me assusto com nada de direita nesse sentido do estilo do fazer musical. Agora o MC é outra coisa, porque ser MC é muito mais do que fazer rap. MC tem outras funções. E aí a esse não cabe ser um MC de direita, isso não existe. Se você é de direita, você não é um MC. O MC tem essa função de educador também.
Porque você não se assusta com um rapper, um sambista de direita, mas com o MC? Qual é a diferença?
O MC é uma figura que faz parte desse conglomerado de proposta da cultura hip-hop, desses quatro elementos que são o DJ, o grafiteiro, o MC e o B.Boy. O MC faz parte disso, de uma cultura que é contra-hegemônica.
MC troca uma ideia sobre a sua comunidade, ele entende os outros elementos. Ele faz rap também. Já o rapper é um cara que faz rap. O rap é um estilo musical. Sabe? Qualquer pessoa pode fazer rap. Para mim, fazer rap, eu posso começar a rimar aqui e fazer um rap. Agora não é começar a rimar aqui que vai me fazer parte da cultura hip-hop.
É isso, é esse debate que realmente ele se conecta com bastante do que eu tava querendo trazer ali quando a gente falava da educação popular, do movimento popular, porque é a diferença entre o indivíduo e o coletivo, né? Individualmente Sim a gente é capaz de fazer muitas coisas e muitas coisas importantes, mas dificilmente elas vão causar uma mudança estrutural diante dos problemas coletivos. É realmente essa saúde coletiva, essa união, um movimento conciso, né, ideológico que é capaz de realmente enfrentar um sistema ser contra hegemônico.
Eu vou aproveitar para te pedir para se explicar um pouquinho mais dessa canção, Chão do Meu Terreiro, que faz uma linda homenagem a Torto arado, de Itamar Vieira Júnior. A obra fala muito de uma prática de religião muito popular, que vem realmente da cultura do povo, não necessariamente do candomblé, da Umbanda. Chapéu Grande é algo que nasceu do povo, daquela cultura, algo muito natural.
É uma influência muito grande do Toré, das coisas ali daquela região. Torto Arado é daquelas coisas que entrou no hype e muita gente tem preconceito de falar: “Cara, não deve ser tão bom, e que eu tinha esse preconceito também, mas quando eu peguei e li o primeiro capítulo, eu falei: “Nossa, cara, que bom que isso aqui é popular”. Isso aqui é igual Michael Jackson, que é muito grande, tem um alcance enorme e é muito bom. E aquele universo ali me influencia muito, é um dos livros favoritos que eu tenho na vida. E eu queria trazer aquele ambiente.
Eu tentei várias vezes o contato com Itamar, porque eu queria fazer alguma coisa com ele, e nessa música eu consegui, mesmo de uma forma independente. E a ideia de falar sobre o cultivo, falar sobre a luta pela terra, também trazer uma mulher trans no refrão, simbolizando muito que a gente tá vivendo também, quando a gente vê a luta da Erika Hilton e de outras mulheres trans, no final das contas a gente não tá por elas, mas elas ainda estão pela gente. E ter a Bixarte no refrão significou e simbolizou muito isso para mim.