21 DE ABRIL
Historiador André Figueiredo explica como alferes foi alçado à condição de líder e mártir
Em 21 de abril de 1792, o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, era executado, esquartejado e exibido em praça pública. Há muitas décadas o Brasil celebra a memória do mártir neste feriado, tendo nele uma das principais figuras da construção do Estado nacional. Mas não sem disputa. Afinal de contas, Tiradentes foi um herói popular ou, como dizem alguns, um bode expiatório.
Figueiredo explica que o contexto do século 18 era de insatisfação com o Império. E, embora a Inconfidência nunca tenha saído do papel, Tiradentes acabou vocalizando essas insatisfações. “Ele andava a falar muito sobre a situação da capitania de Minas Gerais, então ele foi alçado ao patamar de líder, e por ter sido líder, e depois toda uma construção em torno da sua ideia de um Cristo brasileiro, fez com que ele fosse alçado ao maior entre os heróis nacionais. Ele foi construído como uma memória heroica em um país que precisava ter heróis. Então, nada melhor do que alguém que se levanta contra o Império. E, naquele momento, você precisava construir heróis nacionais”, explica.
A pauta principal do movimento era a questão econômica, como destaca o historiador. “Eu estou falando de homens que têm dinheiro, têm poder, participação política, participação econômica, e com a crise da mineração, já que a maioria tem a ver com a agricultura, mas também com a mineração, o que vai acontecer? Esses homens vão querer se rebelar, porque a coroa exige o pagamento de impostos”, explica. Figueiredo conta que, décadas antes, a capitania mineira tinha deixado de pagar o imposto de 100 arrobas de ouro por ano para garantir a exploração de minérios e que, em 1788, a dívida já alcançava 6 toneladas de ouro, o que tornou a situação insustentável.
Tiradentes acabou assumindo para si o papel de líder natural desse processo de revolta, porque fez chegar à população o que estava acontecendo.
O historiador explica que, ao contrário do que muita gente diz, Tiradentes não era de origem pobre e por isso foi punido. “Pelo contrário, ele era proprietário de posses de escravizados, ele tinha terras, muitas propriedades, que ele explorava economicamente no sul de Minas. Ele tinha um soldo de militar. A questão é que ele foi traído”, aponta.
“Joaquim Silvério dos Reis não entrega apenas o Tiradentes, ele entrega um monte de pessoas. Entre eles, o seu grande rival, que era o Tomás Antônio Gonzaga, o magistrado de Vila Rica, atual Ouro Preto”, relata Figueiredo.
Segundo o historiador, o grau de punição extrema, que foi a condenação à forca, de Tiradentes se deu porque ele acumulou diversos crimes, muito além de defender a separação de Minas Gerais do Império português. “No momento em que pouco se falava sobre a influência [dos Estados Unidos], sobre as ideias [de independência] que circulavam, de rompimento dos laços metropolitanos, ele era uma dessas pessoas que falava sobre isso. Além disso, ele exigiu a participação dos militares, como ele, no movimento. Ele tentou um golpe para assassinar o vice-rei no Rio de Janeiro. Tudo isso foi se somando”, pontua.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.