FILÓSOFO JOSÉ ALCIMAR: A LUTA DOS POVOS ORIGINÁRIOS E A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO AMAZONAS: DESAFIOS E ESPERANÇA DE UMA CONSTRUÇÃO COLETIVA
A LUTA DOS POVOS ORIGINÁRIOS E A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO AMAZONAS: DESAFIOS E ESPERANÇA DE UMA CONSTRUÇÃO COLETIVA
José Alcimar de Oliveira*
A terra sempre foi toda a alegria do índio. O índio desposou a terra. Sente que ‘a vida vem da terra’ e volta à terra. Finalmente, o índio pode ser indiferente a tudo, menos à posse da terra que suas mãos e seu alento lavraram e fecundaram religiosamente (José Carlos Mariátegui, 1894-1930)
01. Neste domingo, 19 de abril de 2026, no Dia de Luta dos Povos Originários, compartilho o presente texto, agora revisto, que apresentei em fevereiro passado para as Licenciaturas Indígenas de São Gabriel da Cachoeira, AM, coordenadas pelo Professor Dr. Auxiliomar Ugarte, a quem agradeço pela generosa recepção a mim oferecida. Agradecimento extensivo às licenciandas e aos licenciandos das várias etnias com quem tivemos a alegria de dialogar naquele rico espaço pedagógico. De 26 a 30 de janeiro, em Manaus, no coração da Amazônia Ocidental, professoras e professores indígenas de todo o Estado do Amazonas se reuniram, unidas e unidos, movidas e movidos por uma só força coletiva e por um só objetivo comum: enraizar e qualificar a educação escolar indígena como um direito dos povos originários e um dever constitucional do Estado brasileiro em âmbito federal, estadual, distrital e municipal. O direito à educação, sagrado para o povo brasileiro, é uma necessidade que pautou os relatos e debates de todas as lideranças indígenas e não indígenas durante aquele grande ajuri educativo. A propósito, vale aqui recorrer ao que escreveu o pensador Immanuel Kant, em 1784, ao considerar “um crime contra a natureza humana” negar às pessoas o direito ao conhecimento, porque avançar no “caminho do esclarecimento” é uma “determinação original” do ser humano.Crime maior, em 2026, é o Estado brasileiro negar aos Povos Originários o direito a uma educação escolar organizada com e a partir do ancestral modo de vida que antecedeu e continua a resistir à política de genocídio (dizimação) e de apagamento cultural (etnocídio) dos povos indígenas, submetidos desde o final do século XV ao projeto colonizador implementado pela Europa (e pelo Império do Norte) nas Américas e no Brasil.
02. Sem a potência da organização política, da formação permanente e do protagonismo dos povos originários não haverá caminho, não haverá saída, nem presente, nem futuro para a construção de um projeto de educação escolar indígena que responda a duas exigências inegociáveis: ser um projeto de educação escolar enquanto um sistema orgânico, estruturalmente projetado para esse fim, e ser um projeto de educação indígena enquanto um sistema educativo capaz de respeitar e afirmar a autonomia cultural de cada povo. Indigenizar a educação é amazonizar a Amazônia. Fazer nosso, com a cara dos Povos Originários, o projeto do grande pensador José Carlos Mariátegui: “peruanizar o Peru”.
03. A primeira exigência, de natureza escolar, é a de garantir uma política educativa com um padrão de qualidade universal, o que inclui tanto a especificidade arquitetônicaindígena do prédio a ser construído quanto a formação docente das professoras e dos professores que vão trabalhar nessa modalidade educativa. A educação escolar indígena não pode ser um arremedo ou aquilo que Durmeval Trigueiro Mendes chamava de “meia-educação”, que até hoje a classe dominante brasileiracontinua a oferecer ao aopovo: “Se o ‘desengrossamento’ do povo, até a limpidez, é tão dispendioso e ‘incerto’, por que não admitirmos a meia-educação”? Vem de Anísio Teixeira, defensor intransigente da educação pública e sem filiação ao campo da esquerda, menos ainda “à subversão marxista”, a tese de que se não é possível fazer uma guerra barata (a guerra imperialista contra o Irã o prova neste 2026), menos ainda é possível fazer uma educação barata.
04. A segunda exigência, de natureza ontológica, diz respeito à especificidade indígena desse modelo de educação escolar, o que implica o desafio cultural de construção de uma convivência simbiótica, anticolonialista e anticapitalista entre o mundo cartesiano dos brancos e o mundo multidiverso dos povos originários. Diferentemente do dualismo que caracteriza o dominante paradigma cartesiano da cultura ocidental, a matriz indígena do conhecimento não dicotomiza natureza e cultura. A cultura não pode ser construída contra a natureza. Os Povos Originários sabem, como escreve Mariátegui, que “a vida vem da terra e volta à terra”. “A terra sempre foi toda a alegria do índio”. Se desde o presente o projeto político da educação não se edificar a partir de uma sinergia, de uma dialética isenta de hierarquia axiológica, entre a milenar sabedoria dos Povos Originários e o paradigma da episteme ocidental-cartesiana, não haverá futuro para a Amazônia, seja ribeirinha ou citadina, ambas habitadas pelos Povos Originários.
05. O que faz da cidade uma cidade? Desta palavra – polis, em grego – procedem os conceitos de política, cidadania e cidadão. É possível uma cidade apartada do ideal da cidadania? Ou uma cidade sem lugar para cidadãs e cidadãos? E se ao conceito de cidadania for adicionado o qualificativo indígena? Que cidadania Manaus e as demais cidades do Amazonas (e do Brasil) oferecem aos seus habitantes indígenas? Que lugar destinam aos descendentes dos povos que resistem para existir?Os indígenas que moram em Manaus têm direito a nome? Aqui vale uma comparação entre a grande São Paulo, cidade onde se registram inúmeros nomes indígenas de povos dizimados, e a Amazônia de Manaus, sempre incomodada com a presença de sua pluriétnica população indígena, sem direito formal e material de viver de acordo com a ontologia que sustenta seus nomes. Por isso temos tantos nomes indígenas sem povos em São Paulo e tantos indígenas urbanos sem nomes em Manaus. A política anti-indígena da cidade de Manaus é uma afronta às suas origens e ao seu próprio nome.
06. Reproduzo de José Carlos Mariátegui (1894-1930), a quem recorri para epigrafar este breve texto, a sua revolucionária visão política sobre a relação entre luta indígena e socialismo:
A fé no ressurgimento indígena não provém de um processo de ‘ocidentalização’ material da terra quéchua. Não é a civilização, não é o alfabeto do branco, o que levanta a alma do índio. É o mito, é a ideia da revolução socialista. A esperança indígena é absolutamente revolucionária. O próprio mito, a própria ideia, são agentes decisivos no despertar de outros velhos povos… em colapso (…). A história universal tende hoje como nunca a se reger pelo mesmo quadrante. Por que haveria de ser o povo incaico, que construiu o mais desenvolvido e harmônico sistema comunista, o único insensível a essa emoção mundial? A consanguinidade do movimento indigenista com as correntes revolucionárias mundiais é demasiado evidente para que seja preciso documentá-la. Já disse que cheguei à compreensão e à valorização do indígena pela via do socialismo. (…) Valcárcel resolve politicamente seu indigenismo no socialismo. [Afirma] que o “proletariado indígena espera seu Lênin”. A linguagem de um marxista não seria diferente.
(…) O socialismo nos ensinou a colocar o problema indígena em novos termos. Deixamos de considerá-lo abstratamente como problema étnico ou moral para reconhecê-lo concretamente como problema social, econômico e político.
07. Rodrigo Montoya Rojas, no Prólogo da edição brasileira dos irredentos Sete ensaios de interpretação da realidade peruana (leiturarecomendável), de autoria de José Carlos Mariátegui, afirma que “o pecado original do Peru é ter se formado sem o índio e contra o índio” e que é uma necessidade política “dar à luta indígena um caráter de luta de classes”. A luta indígena é também luta de classes, luta anticapitalista. Não há como pensar o incontornável bívio civilizatório entre socialismo ou barbárie sem que a tradição do materialismo histórico e dialético não reconheça o estatuto socialista do modo indígena de ser e pensar.
08. Não há capitalismo sem catástrofe ambiental e humana. Nós, indígenas e não indígenas, que nos organizamos nessa frente coletiva de luta, se não nos apropriarmos dasecular e aguerrida “esperança indígena”, esperança “absolutamente revolucionária”, nas belas palavras de Mariátegui, não temos como recuperar a alegria do bem-viver dos Povos Originários e de quantas e quantos habitam a Amazônia. É preciso que a terra volte a ser, ainda em diálogo com o Amauta, “toda a alegria do índio”, porque ele sabe, mais ainda, “sente que a vida vem da terra e volta à terra”.
09. O futuro da Educação Escolar Indígena passa por São Gabriel da Cachoeira,AM, o município mais indígena do Brasil. Em sua geografia e em sua história, nessa bela, rica eúnica constelação de povos e línguas diversas, é que o Brasil pode se encontrar com sua mais originária e enraizada ontologia. Se o ser humano, como nos diz Paulo Freire, tem uma vocação ontológica, a vocação de ser, é em São Gabriel da Cachoeira que o Brasil pode recuperar o fundamento ontológico da Educação Escolar Indígena. Se a classe trabalhadora brasileira conta hoje, construída no Estado de São Paulo, com a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), um modelo (no sentido leninista e gramsciano) de Universidade Popular, é preciso dizer que já passou da hora de o Estado brasileiro construir em São Gabriel da Cachoeira, no Estado do Amazonas, com o protagonismo dos Povos Originários, o seu mais estratégico Centro Geopolítico de Pesquisa e Educação Indígena, seja na forma de um Instituto ou de uma Universidade, capaz de funcionar como matriz irradiadora e pedagógica para o Brasil e para o mundo, da multidiversa e milenar cultura dos Povos Originários.
10. Manaus, capital mais indígena do Brasil, situada no centro estratégico da Amazônia brasileira, e que poderia se converter na Capital Ecológica do Mundo, deveria estar na dianteira doProjeto Pedagógico de uma Universidade Indígena. Diria mais: pela diversidade de sua população originária, que luta pelo direito à cidade, Manaus guarda potencialidade ontológica e política para se converter na mais irredenta e organizada Comuna Indígena Pluriétnica do Brasil. Que cidade do mundo, do porte de Manaus, pode se ver e se banhar nas águas de um rio tão belo quanto o Negro, que geometriza sua geografia? Apartada de suas raízes indígenas, de seu saber originário, como manter viva essa geografia? Como irradiar esse potencial histórico? Qual o preço a pagar a permanecer esse desperdício ontológico-social?
11. Por fim, para nós, professoras e professores da ADUA – Seção Sindical do ANDES – Sindicato Nacional, é um dever reforçar a luta coletiva dos nossos parentes originários pela construção de uma Educação Escolar Indígena enraizada nos valores que sustentam seu milenar modo de viver e de pensar.Para o ANDES – Sindicato Nacional e para a nossa ADUA – Seção Sindical, defender a Universidade Pública, defender a Universidade Federal do Amazonas (no nosso caso), é defender o mais importante e necessário patrimônio público do povo brasileiro. E essa defesa implica o encontro entre Universidade e Mundo dos Povos Originários. Somente a luta muda a vida. Somente a grande luta muda a história. Para existir é preciso resistir!
* José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, onde cursou e obteve o mestrado e o doutorado. É também teólogo franciscano ex corde e sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA – Seção Sindical e filho do cruzamento dos rios Solimões (em Manacapuru – AM) e Jaguaribe (em Jaguaruana – CE). Escrito em São Gabriel da Cachoeira e Manaus, no Amazonas, fevereiro/abril de 2026.