‘NUNCA MAIS’ REVELA DETALHES INÉDITOS SOBRE A OPERAÇÃO CLANDESTINA QUE DESAFIOU A DITADURA
afinsophia 28/03/2026 0
LANÇAMENTO
Livro-reportagem de Camilo Vannuchi reconstitui os bastidores do projeto ‘Brasil: Nunca Mais’
- SÃO PAULO (SP)
- JOSÉ BERNARDES E LARISSA BOHER E TABITHA RAMALHO
Em meio aos últimos estertores da ditadura militar, entre 1979 e 1985, um grupo formado por advogados, religiosos, pesquisadores e jornalistas se reuniu em sigilo para realizar uma missão que poderia custar suas liberdades — ou suas vidas. O objetivo: copiar e analisar todos os 707 processos judiciais contra perseguidos políticos que haviam chegado ao Superior Tribunal Militar (STM), a última instância da Justiça Militar.
“O Nunca Mais que eu estou lançando neste sábado (28) é um livro sobre a obra Brasil Nunca Mais”, explica Vannuchi no Conexão BdF da Rádio Brasil de Fato. “Muita gente conhece o livro, mas como é que esse livro foi feito? Quem financiou? Onde esses documentos foram guardados? Quem fez os xerox? Quem microfilmou? Essa é um pouco da ideia desse trabalho.”
O livro Brasil: Nunca Mais é apenas a ponta de um projeto que se estendeu por seis anos. Liderado por figuras como Dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo, e o pastor presbiteriano Jaime Wright, o grupo conseguiu acesso aos processos do STM por meio de um estratagema: advogados podiam retirar os documentos por 24 horas. Nesse período, eles eram levados às pressas para serem xerocados em locais secretos.
“Isso joga por terra toda uma narrativa que ainda tem, que a gente ainda esbarra com ela nos setores da extrema direita, que diz que não era uma política de estado, que a tortura não era algo sistemático, era o excesso de algum investigador que se exaltou. 242 lugares no Brasil inteiro, 444 torturadores: não é um excesso, não é uma exceção. É uma prática sistemática”, destaca.
O trabalho foi motivado por um temor concreto. Eni Raimundo Moreira, uma das advogadas que idealizou o projeto, trabalhava no escritório do jurista Sobral Pinto, que havia defendido presos políticos na ditadura Vargas. Sobral alertou: naquela época, os processos foram queimados. Ele mesmo só conseguiu preservar o processo de Luiz Carlos Prestes porque o xerocou e guardou em segredo.
“Quando chega em 79, assim que tem a anistia, eles resolvem que precisavam pelo menos copiar esses processos. Eles criam todo o sistema escondido para pegar emprestado no STM, mandar xerocar, guardar tudo em segredo para a partir daí pelo menos não sumirem com esse material”, relata Vannuchi.
A operação foi financiada pelo Conselho Mundial de Igrejas, uma entidade protestante internacional que enviou recursos em dinheiro vivo para o Brasil. Dom Paulo cedeu espaços na Cúria da Arquidiocese de São Paulo — onde o pastor Jaime Wright chegou a ocupar uma sala vizinha, virando alvo de piadas: “Você é o único pastor que despacha na igreja católica”.
O grupo mudou de endereço três vezes diante de suspeitas de que estavam sendo espionados. Todo o material foi microfilmado, e os filmes foram enviados para Genebra como backup, caso tudo fosse descoberto e destruído no Brasil.
Uma lição sobre impunidade que ressoa até hoje
Para Vannuchi, a importância de resgatar essa história vai muito além do passado. A impunidade dos torturadores da ditadura, argumenta ele, alimenta a violência de estado que persiste até hoje.
“A impunidade do torturador dos anos 60 e 70 é o salvo-conduto para que um delegado hoje no morro, nas quebradas, se sinta livre para poder torturar população preta, pobre nas periferias”, afirma. “Os torturadores nunca foram réus, nunca tiveram que responder pelos seus atos e nunca foram presos. Por que que eu agora em 2026 vou ser preso se eu torturar alguém?”.
O autor lembra que as denúncias de tortura no sistema penitenciário brasileiro hoje são enormes — em um ano, há mais denúncias do que nos 707 processos analisados pelo Brasil: Nunca Mais. E destaca que o desaparecimento de pessoas não ficou no passado: “Cadê o Amarildo? Era um pedreiro no Rio de Janeiro. É um desaparecido político da democracia. Até hoje não se sabe o paradeiro dele.”
O trabalho do grupo também revelou a cumplicidade do sistema de Justiça com a tortura. “Todos eles sabiam, todos os ministros do STM sempre souberam que tinham tantas torturas ao longo desses anos todos, e não foram capazes de ter uma atitude de basta, de isso não pode ser tolerado, esses caras precisam ser processados.”
Enquanto a Argentina, após sua redemocratização, julgou e prendeu seus ditadores — um processo retratado no filme Argentina, 1985 —, o Brasil manteve a impunidade. O general Augusto Pinochet foi preso no Chile. Aqui, nenhum torturador foi condenado criminalmente.
“Essa impunidade, ela é um catalisador de quem pode planejar a morte de presidente da república e ministro do STF, agora em 2022 para 2023, o 8 de Janeiro”, alerta Vannuchi.
Memória como antídoto contra o autoritarismo
Para o autor, contar essa história não é apenas um exercício de memória, mas uma necessidade diante do avanço do negacionismo e da ameaça autoritária que volta a rondar o Brasil.
“Eu cresci achando que tinha uma escalada de democracia. Mas agora a gente viu o que aconteceu a partir do segundo governo Dilma: um golpe parlamentar, um golpe midiático, e o que a gente viu depois como escalada de extremismo de direita”, afirma. “A gente teve um governo no Brasil muito recentemente que teve mais militares no primeiro escalão do governo do que na própria estrutura militar. O governo Bolsonaro fez coisas do tipo receber no Palácio da Alvorada o major Curió, que tinha sido responsável por dizimar a guerrilha do Araguaia”, declara.
Vannuchi lembra ainda que Jair Bolsonaro, antes mesmo de ser presidente, declarava abertamente em programas de televisão ser favorável à tortura. “Nos anos 70, os presidentes da época não falavam em público que eram favoráveis à tortura. A tortura nunca foi uma política que as pessoas se orgulhavam de dizer abertamente. O Bolsonaro dizia: ‘Eu sou favorável à tortura, você sabe, na democracia nunca se conseguiu nada nesse país’.”
Em ano eleitoral, com a candidatura de Flávio Bolsonaro e o espectro do bolsonarismo novamente à espreita, Vannuchi é direto: a democracia não está blindada.
“A gente não está imune a riscos. A gente viu recentemente o que o Trump tem feito com outros países. É um risco, é uma coisa para a gente ficar de olho. Contar a verdade, contar a história, inclusive dos países que os Estados Unidos invadiram e ocuparam para supostamente resgatar a democracia: não tem um que deu certo depois, não tem um que conseguiu autonomia, soberania, riqueza. São todos virados capachos dos Estados Unidos”, alerta.
Serviço
Lançamento do livro Nunca Mais
Dia: 28 de março
Horário: 14:30
Endereço: Memorial da Resistência – auditório 5º andar | Largo General Osório, nº 66
Para ouvir e assistir
O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.