BOLSOMASTER: TARCÍSIO DE FREITAS, GOVERNADOR BOLSONARISTA DE SÃO PAULO, É ALVO DE CONVOCAÇÃO NA CPMI DO INSS POR ELO COM ESCÂNDALO DO MASTER

0
Untitled-28-768x432.jpeg

Tarcísio recebeu doação de R$ 2 milhões de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, na campanha ao governo de São Paulo. Elo ente o escândalo do Master, consignados e a privatização da Sabesp levanta suspeitas sobre relações do governador com o banqueiro.

Por: Plinio Teodoro: 24/02/2026 – 
– Daniel Vorcaro e Tarcísio de Freitas: ligações suspeitas (Divulgação Esfera / Gov SP)

11:06

Beneficiado com a doação de R$ 2 milhões do pastor mineiro Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, nas eleições de 2022, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), virou alvo de um pedido de convocação protocolado pelo deputado Alencar Santana (PT-SP) para prestar depoimentos na CPMI do INSS.

“Vorcaro assumiu a presidência do Banco Master em 2019 com autorização do Campos Neto. No ano seguinte, foi autorizado a fazer descontos consignados de aposentados e pensionistas e ali fraudou mais de 250.000 contratos, ganhando milhões. Tem ali uma participação íntima com ministros do ex-governo. E [Fabiano Zettel foi] o maior doador para a campanha de Bolsonaro e de Tarcísio. Quer dizer, foi uma escolha muito clara, afinal de conta ele atuou diretamente no Estado de São Paulo. E a suspeita de ter atuado ali também na de ter participado junto com outros atores econômicos empresariais no processo da privatização da Sabesp”, disse Santana à Fórum.

ENTENDA: 
Deputado acionará MP contra Tarcísio por conexão entre privatização da Sabesp e escândalo do Banco Master; entenda
Privatização da Sabesp: Tarcísio e o esquema neoliberal para abastecer a sanha do mercado
Tarcísio paga propaganda com dinheiro público para paulista economizar água privatizada na Sabesp
Sabesp privatizada agrava crise hídrica e acende alerta para 2026

“Nós queremos saber o que envolve. Será que esse dinheiro da doação foi advindo da do desconto consignado? Então, queremos que o Tarcísio venha explicar o porquê. Essa é a razão do nosso do nosso requerimento”, emendou o deputado.

O requerimento, protocolado nesta segunda-feira (23), afirma que a convocação de Tarcísio “fundamenta-se na necessidade de aprofundamento das investigações conduzidas no âmbito da CPMI do INSS, especialmente no que se refere a possíveis conexões político-financeiras envolvendo agentes públicos, o Banco Master e estruturas que possam ter interferido ou se beneficiado de esquemas sob apuração”.

“A relevância do esclarecimento é ainda maior considerando que a CPMI apura possíveis fragilidades sistêmicas que permitiram a ocorrência de irregularidades no âmbito do INSS, podendo tais fragilidades estar associadas a redes políticas e financeiras de alcance nacional”, diz o texto.

Privatização da Sabesp

A convocação de Tarcísio acontece após parlamentares governistas passarem um vídeo, na sessão da CPMI desta segunda-feira, em que o deputado estadual Antônio Donato (PT-SP), líder da oposição na Assembleia Legislativa de São Paulo, explica a conexão entre o escândalo envolvendo o Banco Master, de Daniel Vorcaro, e as privatizações da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, a Sabesp, e da Empresa Metropolitana de Águas e Energia S.A., a Emae, conduzidas pelo governador Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos) entre abril e julho de 2024, em meio à uma série de suspeitas de fraudes.

“Vamos representar no Ministério Público para que seja feita uma investigação aprofundada. Por enquanto, o que estamos vendo é apenas a ponta do iceberg. Estamos atrás também de mais informações sobre a privatização da Emae”, afirmou Donato à Fórum.

No vídeo, o deputado estadual traça uma linha temporal desde a época da eleição em 2022, quando Tarcísio recebeu cerca de R$ 2 milhões do pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, em sua campanha ao governo do Estado.

Logo que foi eleito, o ex-ministro de Bolsonaro deu início às privatizações. A Emae foi leiloada na Bovespa em 19 de abril de 2024.

“O comprador foi o fundo Phoenix, criado só um mês antes da venda da Emae. O fundo Phoenix é comandado por Nelson Tanure, tido pela Polícia Federal como o sócio oculto do Banco Master. O fundo Phoenix é composto basicamente por ações da empresa Ambipar. E a CVM [Comissão de Valores Mobiliários] identificou ações coordenadas entre o Banco Master, o investidor Nelson Tanure e o controlador da Ambipar, Tércio Borlenghi Junior, para inflar artificialmente o valor dessas ações”, conta o deputado.

Segundo Donato, as ações foram infladas em mais de 700% em uma ação estruturada realizada pelo presidente do Conselho de Administração da Ambipar, Carlos Augusto Leone Piani, que ficou no cargo até 24 de setembro de 2024.

“Essas ações infladas por essa operação fraudulenta permitiram que o fundo Phoenix pegasse o empréstimo da XP para pagar a compra da Emae”, lembra.

Donato, então, passa a conectar o mesmo grupo com a privatização da Sabesp, privatizada por um valor 44% abaixo do real, segundo especialistas do Observatório Nacional das Águas (Ondas), da Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp) e da Associação de Profissionais Universitários da Sabesp (APU).

“Tarcísio de Freitas privatiza a Sabesp. E quem compra a Sabesp? A Equatorial. Quem era o presidente do Conselho Administrativo da Equatorial? Carlos Piani, que também a acumulava a presidência do conselho administrativo da Ambipar”, segue o deputado.

Após deixar a presidência do Conselho da Ambipar, Piani assume, em outubro de 2024, a presidência da Sabesp. E segue no posto até os dias atuais.

“Julho a setembro de 2025: Nelson Tanure pega R$ 160 milhões de reais do Caixa da Emae e compra CDBs podres do Banco Master. Outubro de 2025: Tanure não quita o empréstimo com a XP Investimentos que lhe permitiu comprar a Emae. A XP executa a dívida e assume o controle da Emae. Imediatamente depois, a Sabesp privatizada, comandada por Carlos Piani, compra a Emae da XP”, conta Donato.

“Resumindo, Carlos Piani, que no início estruturou uma operação fraudulenta para comprar a Emae, agora fecha o círculo e leva para dentro da Sabesp privatizada a Emae, uma empresa estratégica para gestão dos recursos hídricos do Estado de São Paulo. Novembro de 2025: Banco Master é liquidado pelo Banco Central e esse esquema todo começa a ser investigado. Tarcísio, não adianta esconder, as suas relações com o Banco Master estão todas aqui”, conclui Donato.

Ambipar e o crescimento a partir de 2020

A Ambipar se apresenta como um grupo global de soluções ambientais, dividido em dois grandes braços: gestão de resíduos e economia circular (Ambipar Environment) e resposta a emergências ambientais (Ambipar Response), atendendo desde vazamentos químicos até grandes acidentes industriais.

Na prática, tornou-se uma prestadora de serviços ambientais para setores de alto risco — petróleo, mineração, química e infraestrutura — vendendo tanto prevenção quanto socorro quando algo dá errado. O discurso é de sustentabilidade e ESG; o negócio, essencialmente, é operar onde há passivo ambiental e risco regulatório.

O crescimento acelerado veio sobretudo após o IPO na B3, em 2020, quando a empresa, com Carlos Piani no comando, passou a financiar uma onda intensa de privatizações no Brasil.

Essa estratégia transformou a Ambipar em uma companhia com presença internacional e receitas bilionárias, mas também a aproximou fortemente do mercado financeiro — dependente de captação, alavancagem e da confiança dos investidores para sustentar expansão e integração de ativos.

Como em muitos casos de crescimento via M&A (Mergers and Acquisitions — em português, Fusões e Aquisições), o desafio está menos no discurso ambiental e mais na capacidade de gerar caixa consistente para justificar o ritmo de compras e o valor atribuído pelo mercado.

Nesse modelo, há ainda essencialmente o fator político, com infiltração em grupos políticos que buscam vender empresas públicas sob o jargão “privatiza que melhor”. No caso da Sabesp – e em muitos outros -, não foi isso o que ocorreu.

Crise hídrica

Em outubro do ano passado, uma entrevista coletiva realizada na sala do Conselho Estadual do Meio Ambiente, na Cetesb, em São Paulo, anunciava as medidas que seriam tomadas diante de um contexto de crise hídrica que ameaça o abastecimento de água no estado.

Àquela altura, o reservatório do Sistema Cantareira já apresentava o seu menor nível em dez anos e o que se propunha basicamente para enfrentar o problema era a redução na pressão de água, um plano de sete faixas prevendo até 16 horas com a restrição da operação antes da necessidade de um eventual rodízio ou racionamento feito de forma oficial.

Com o fracasso do plano, no início de fevereiro o governo de São Paulo lançou uma campanha publicitária para pedir que a população economize água em meio ao que a própria gestão descreve como “a maior seca dos últimos dez anos”. O mote é “Gota por gota. Mais do que nunca”, com peças em TV, rádio, mídias digitais e formatos de rua (OOH), orientando medidas como reduzir o tempo de banho, fechar a torneira ao escovar os dentes e evitar mangueira em áreas externas.

O ponto político está no enquadramento, e no destinatário implícito do esforço. A campanha é institucional, produzida e distribuída pela Secretaria de Comunicação do Estado (Secom-SP), ou seja, é o governo quem assume o papel de “chamar a sociedade à responsabilidade” para conter a demanda. Isso ocorre depois de a Sabesp ter sido privatizada, com o Estado reduzindo sua participação acionária e a companhia passando a operar sob lógica de mercado, com investidor privado de referência e compromisso de retorno a acionistas.

Em outras palavras: o Palácio dos Bandeirantes banca a narrativa pública do “consumo consciente”, enquanto o serviço é prestado por uma empresa com controle privado. A semiologia é clara: a crise entra pela porta do comportamento individual (“gota por gota”), e não pela discussão sobre modelo de gestão, perdas na rede, política tarifária, metas públicas de redução de consumo e mecanismos de incentivo/compensação.

Outro lado

Após a publicação desta reportagem, a Sabesp enviou nota. Segue o posicionamento na íntegra abaixo:

“A escolha de Carlos Piani para o cargo de diretor-presidente da Sabesp, assim como de toda a diretoria da Companhia após a desestatização, passou por todas as avaliações e análises de conformidade (compliance).

Não foi identificado nenhum conflito de interesses ou impedimento legal para a sua atuação.
Sobre a aquisição da Emae, é importante ressaltar que não existia qualquer relação anterior da Sabesp ou de sua diretoria com a empresa. A compra das ações foi um movimento estratégico, transparente e que passou pelo crivo e pela aprovação formal dos órgãos máximos de fiscalização do país: o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

A Sabesp repudia o uso político e a divulgação de informações falsas.”

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.