COMO ÍNDIA E BRASIL BUSCAM ESTREITAR LAÇOS PARA DRIBLAR TARIFAÇO DE TRUMP
Os dois países mais prejudicados por sanções comerciais dos EUA aprofundam parceria
Presidente indiano, Narendra Modi, foi recebido pelo presidente Lula em Brasília em julho deste ano – Ricardo Stuckert/PR
“Acredito que reforçar os laços com a Índia é central nesse momento de tarifaço e protecionismo, ampliando parcerias que têm potencial de ganho econômico para o empresariado brasileiro”, disse, ao Brasil de Fato, Fernanda Nanci, do Departamento de Relações Internacionais da Universidade do Rio de Janeiro (Uerj).
“A Índia apresenta mercados interessantes para o empresariado brasileiro, sobretudo em alimentos e energia”, aponta. Ela lembra que, por ser um país populoso, com mais de um bilhão de habitantes, existe a preocupação com a segurança alimentar. “O Brasil tem um setor dinâmico de agronegócio que está sendo impactado pelos americanos. No ramo da energia, a Índia está em crescimento econômico, necessitando suprir sua demanda.”
Os indianos também podem se beneficiar de um acesso mais amplo ao mercado brasileiro, em especial em fármacos e tecnologia. “A relação comercial entre os países tem potencial de ser ampliada, no cenário em que ambos estão buscando diversificar parceiros e lidar com o tarifaço, mas para ambos os lados não substituem o peso do mercado dos Estados Unidos.”
Tarifas
Em abril, o presidente dos EUA anunciou tarifas sobre importações da maioria dos países do mundo, com o Brasil recebendo o patamar mais baixo, 10%, e a Índia, 25%. Mas, no fim de julho, o percentual subiu para 50%, em uma tentativa de chantagear o Judiciário brasileiro para eximir de responsabilização criminal o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Já a Índia sofreu, em 6 de agosto, tarifas extras de 25%, elevando o total para 50%, sob a justificativa de comprar petróleo russo – país sancionado devido à guerra contra a Ucrânia e que exporta petróleo, direta ou indiretamente, para inúmeras nações, inclusive o Brasil. Cerca de 70% do diesel importado pelo Brasil é russo, o que coloca o Brasil como potencial alvo de ainda mais sanções dos Estados Unidos.
Para mitigar os efeitos do tarifaço, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) procurou parceiros do Brics, grupo de países de mercado emergente fundado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. O presidente chinês, Xi Jinping, declarou estar disposto a trabalhar com o Brasil na defesa da soberania e de interesses legítimos do país. O líder indiano, Narendra Modi, recebeu um telefonema do brasileiro um dia após o anúncio das tarifas extras estadunidenses, no qual os líderes se comprometeram a trabalhar mais juntos e aumentar o fluxo comercial entre os dois países.
O comércio bilateral com a Índia foi de US$ 12 bilhões (R$ 65 bi) em 2024, com vantagem para a Índia. O governo brasileiro espera aumentar sensivelmente esse fluxo nos próximos cinco anos – mais de 70 missões comerciais brasileiras foram à Índia desde 2023 –, superando a marca de US$ 20 bilhões (R$ 108 bi) já em 2030.
Entre os setores mais estratégicos para parcerias, estão o farmacêutico, o agrícola – em particular a troca de tecnologia genética – e, principalmente, o de comércio energético. O Brasil vende óleo bruto à Índia e compra dela óleo refinado. Com a maior população do mundo (quase 1,5 bilhão) e jovem, o que aumenta a força de trabalho, o país tem hoje a quarta maior economia, com perspectivas de chegar ao terceiro posto em 2032. É um país com sede crescente de combustíveis fósseis para sustentar esse crescimento.
“A Índia tende a aumentar sua renda per capita, consumir mais produtos brasileiros, como o café, por exemplo”, diz à reportagem Giorgio Romano Schutte, coordenador do curso de pós-graduação em Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC).
Ele explica que o processo de aproximação entre os países já existia antes de Trump, seja no âmbito de fóruns, como o Brics e o Mercosul, mas, com os ataques tarifários do estadunidense, “ganham força, encontram mais outro motivo para estimular suas complementaridades econômicas, incentivar os empresários de seus países”.
Fernanda Nanci diz que o alinhamento com o Sul Global é positivo tendo em vista que os países enfrentam “os mesmos desafios e podem advogar por causas semelhantes, acionando a OMC [Organização Mundial do Comércio], pressionando os EUA, abrindo novas frentes em diferentes foros internacionais”.
Schutte acredita que “a tendência é que o Brasil explore cada vez mais os mercados asiáticos, como a Índia”. Nesse sentido, o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, vai à Nova Déli, capital indiana, em outubro. Já Lula deve retribuir, no começo de 2026, a visita de Estado realizada por Modi em julho.