RESPOSTA AO DESMONTE DO CINEMA TEM SIDO HISTÓRIAS MUITO POTENTES, DISSE ATOR MARCO PIGOSSI, PROTAGONISTA DE MARÉ ALTA
Ator voltará às telas no papel de Lourenço, um jovem brasileiro imigrante nos EUA
Marco Pigossi é protagonista do novo filme Maré Alta – Divulgação
“Viemos de quatro anos em que o setor foi praticamente desmantelado – com o enfraquecimento da Ancine e a drástica redução de incentivos, a produção nacional quase desapareceu. Mas agora, com o nosso cinema ganhando espaço no mundo, a resposta tem sido histórias potentes e muito bonitas”, afirmou.
Pigossi ressaltou o crescimento da presença do cinema brasileiro nos principais festivais do mundo e o aumento do interesse do público brasileiro pelas produções nacionais. “Não é apenas um movimento de festivais ou de nicho – estamos vendo um impacto real nas bilheteiras. Vitória, com Fernanda Montenegro, vendeu mais ingressos em seu primeiro fim de semana do que um filme da Marvel. Isso mostra que o público está voltando a se conectar com o cinema nacional”, disse.
O ator também criticou o discurso de criminalização da arte que marcou os últimos anos. “Acho que o que torna esse momento ainda mais especial é o fato de estarmos superando algo muito grave que aconteceu no último governo: a tentativa de colocar o público contra os artistas. Houve uma criminalização da arte e da cultura, com discursos que pintavam os artistas como inimigos da sociedade – algo sem precedentes na história”, pontuou.
As produções brasileiras têm conquistado cada vez mais espaço internacionalmente, com obras premiadas e aclamadas pelo público. Pigossi citou como exemplo os recentes sucessos do país no circuito mundial. “Temos uma safra impressionante de filmes sendo reconhecidos internacionalmente. O Último Azul foi premiado em Berlim, Ainda Estou Aqui fez história no Oscar, Malu estreou em Sundance, Baby foi para Cannes… Foi uma temporada riquíssima para o cinema brasileiro”, destacou.
Para o ator, a reação positiva do público mostra a reconstrução da relação entre os brasileiros e sua própria cultura. “O Brasil inteiro torcendo por Fernanda [Montenegro] no Oscar, comemorando nossas conquistas no cinema – tudo isso mostra que essa relação está sendo reconstruída. É um momento lindo para o cinema brasileiro, sob vários aspectos”, concluiu.
Maré Alta e a política migratória dos EUA
Além de falar sobre o cinema brasileiro, Pigossi abordou a temática do filme Maré Alta, que estreia nos cinemas nacionais com ele no papel de Lourenço, um jovem que decide deixar o Brasil e se mudar para os Estados Unidos. “O filme fala muito sobre isso também, sobre o ‘sonho americano’ e o quão quebrado ele é – na verdade, sobre como ele não existe. É uma ideia que se vende, mas que, na prática, é muito diferente”, disse.
O ator relacionou a narrativa do longa com a realidade dos imigrantes nos EUA, especialmente diante de políticas migratórias cada vez mais duras desde a eleição do presidente Donald Trump. “Sabemos que a política migratória dos Estados Unidos é extremamente violenta e agressiva, mas não conseguimos sentir exatamente o que um imigrante deportado sente, o que ele enfrenta. Maré Alta vem justamente para isso: para fazer o público sentir esse isolamento, essa insegurança, essa sensação de não pertencimento, essa necessidade de pedir licença para existir – simplesmente por estar ali, por querer algo melhor para si”, explicou.
Para Pigossi, a arte tem um papel essencial na construção da empatia. “Essa é a potência do cinema. Na verdade, é a função de qualquer manifestação artística, mas, especialmente, do cinema: criar um senso real de empatia. O cinema permite nos colocarmos no lugar do personagem, sentir exatamente o que ele sente”, afirmou.
Com uma trajetória que inclui novelas no Brasil e trabalhos internacionais, Pigossi também relatou sua própria experiência como imigrante. “Tenho uma carreira consolidada no Brasil, são quase 16 anos de trabalho. Mas isso não necessariamente se traduz aqui [nos EUA]. Se eu digo para um produtor de cinema nos EUA que fiz 13 ou 14 telenovelas, isso pode não significar nada. E isso acontece com qualquer profissão: médicos, advogados… Quando você emigra, até conseguir validar sua formação e sua experiência, leva tempo”, contou.
Ao longo da conversa, o ator destacou a importância de se discutir identidade e pertencimento, temas centrais no filme. “Quando você chega [em outro país], eles tiram sua identidade, te ‘limpam’, no sentido de invalidar tudo o que você já fez. Então, se reconstruir é um desafio real”, afirmou. “Para mim, Maré Alta é um grito de liberdade e de amor. Estamos falando de um governo extremamente opressor e violento. E a resposta para a opressão é a liberdade. Estamos falando de uma política do medo. E, para mim, o oposto do medo é o amor.”