POIS É, ZIRALDO, AOS 91 ANOS: “TODOS CANALHAS FORAM CRIANÇAS INFELIZES! CONSEGUIMOS A VITÓRIA QUE É A DEMOCRACIA, MAS NÃO É SÓ ISSO QUE PRECISAMOS”.
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Ziraldo, disse que Deus era brasileiro, mas mudou-se. Ainda bem!
Mesmo com Sua mudança, os fascistas-brasileiros usaram e abusaram de Sua ausência, mentindo que Ele estava “Acima de todos” aqui no Brasil. E têm estúpidos nostálgicos que acreditam e votam nesses mensageiros-fantasmagóricos.
Ziraldo, afirma que tudo no mundo serve como tema para piada. É verdade. Principalmente, a superstição que é a representação maior do medo que lhe protege e alimenta que revigora os canalhas. Por isso, há canalhas por todos os lados. Não há piada-sacra-superstição melhor do que a contada pelo escritor, Kafka quando ele diz que Deus não virá no Dia do Juízo Final, mas só no outro dia quando já não se precisa mais.
Ziraldo, faz parte da História cujo humor é produto da verve excitante dos estúpidos e serve de Potência do Riso-Olímpico, como mostra o filósofo, Nietzsche.
Ziraldo, é um dos poucos humoristas que entendeu o Devir-Criança. E até o sentido que Cristo tinha da Criança, como sendo O Reino dos Céus: O AQUI-AGORA!
Para entender, Ziraldo-Cristo através das enunciações de Nietzsche que soube muito bem mostrar quem são os verdadeiros ANTICRISTO. O Sacerdote, diz: Tu Deves! O Rebanho, diz; Eu Posso! A CRIANÇA, DIZ: EU SOU!
Essa, a Criança do Reino de Ziraldo-Cristo!

Ziraldo
Nasci numa pequena cidade de Minas. Até aí nada demais. Muita gente nasce em cidades pequenas, distantes e quietas. Seria feliz, de qualquer maneira, se quem lê neste instante pudesse saber a alegria que existe em se nascer num lugar assim, em que as ruas pequenas e estreitas, as altas palmeiras, a água macia da chuva que cai sempre, as muitas estrelas e a lua, as pedrinhas das calçadas, a meninada, a carteira da sala de aula, a mestra e mais uma quantidade destas lembranças simples sejam, mais tarde, influências reais na vida da gente. Na vida de quem, afinal, preferiu enfrentar a cidade grande: as águas desse mar, a luz dessas lâmpadas frias, a sala fechada, triste e sem perspectivas em que se ganha a vida, a cadeira quente e insegura das tardes de ir e vir — pura fadiga — das empresas, a luta, a dura luta de ser alguém, um peixe grande em mar estranhamente grande. A verdade é que, um dia, a pensar e refletir na grama macia da pracinha da matriz, a criança decidiu sair.
E a estrada se abriu a sua frente. Vir era uma idéia. Fixa. Caminhar era fácil.
A chegada: a rua imensa, as buzinas, as luzes, sinal verde, aquela cidade grande, grande ali, na sua frente. Cada face, cada ser que passava — pra lá e pra cá — inquietamente, tanta gente, suada, apressada, sem alegria, sem alma, a alma cerrada, enrustida, cada triste surpresa era a chegada.
Cheguei. Um táxi. A mala. As esquinas. Está bem, mas, que fazer? Sentei e pensei. Pela janela da casa alta vai a vida. Seria a vida? E disse a primeira frase na cidade grande, as primeiras palavras diante da grande luta e as palavras eram: Meu Deus, que saudade! E nem um dia me separava da pracinha da matriz. Cada dia que, a seguir, vi passar, esqueci.

Diante da máquina, neste instante, há uma distância imensa entre aquele dia na missa cantada na minha igrejinha e este dia em que, diante de mim, diante de minha mulher e da minha casa feita de cidade grande, minhas filhas brincam de ser gente grande.
E elas. Que vai ser delas? Sem palmeiras, sem um pai de ar grave; sem entender a chuva a cair em jardins humildes, nas margaridas branquinhas; sem entender de lua e de estrelas — que céu aqui, pra se ver nem se vê —, sem brincar na lama das ruas, a lama das chuvas, casca de palmeira, descer as barracas, nadar sem mamãe saber, nas águas escuras, fim de quintal, quintal, quintal? sem quintal? pedrinha de calçada, marcar a canivete sua inicial na carteira da sala. Ainda bem que nasceram meninas.
Já é diferente. Será que é? Sei lá. Entre a chegada e este instante, lembrança nenhuma. Sei que cheguei.
E sei mais: que esta página está é uma grande besteira, dura de cintura, sem graça, uma m… Já se vê que quem nasceu para caratinguense nunca chega a Rubem Braga. E também tem mais: Quem é capaz de escrever uma página literária decente — igual a essa (?) — sem usar uma vez sequer a letra O? Leiam mais uma vez. Atentamente. Se tiver um — além deste aí em cima — eu como!
