ANGELITA MATOS SOUZA: CHINA, A SALVAÇÃO DA LAVOURA?

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 Observatório de Geopolítica

China, a salvação da lavoura?

por Angelita Matos Souza

Tenho lido comentários otimistas nas redes sociais a respeito da viagem do presidente Lula à China. E torço para que a viagem seja promissora. Porém, como venho acompanhando a evolução das relações Brasil-China, diria que os investimentos chineses no Brasil parecem bem adaptados à fase atual da dependência.

Desde as duas últimas décadas do século XX, uma fase nova nas relações de dependência com países centrais entrou em cena, diferente daquela que caracterizou o período de meados dos anos 1950 ao final dos anos 1970, quando foi possível combinar dependência com desenvolvimento (industrial) em alguns países latino-americanos, Brasil à frente.

Nas últimas décadas essa combinação ficou mais difícil, em boa medida por causa da ascensão da China. Isto é, além das políticas econômicas equivocadas adotas pelos governos brasileiros, a inserção de novos produtores de manufaturados na economia mundial, mormente países asiáticos, notadamente a China, acirrou a competição entre as economias dependentes por investimentos diretos estrangeiros.

No Brasil, onde o processo de industrialização mais avançou no século passado, diminuíram os investimentos novos, portadores de empregos, renda e inovação tecnológica; e vem prevalecendo a preferência pela posse da riqueza existente.

O problema com relação à China é que os investimentos diretos chineses seguem nessa mesma toada. Conforme os relatórios do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), cresceram os investimentos diretos chineses no Brasil após 2010, contudo, até 2020, a forma principal de ingresso foi via fusões e aquisições: 70% do valor dos investimentos confirmados. Já os projetos via joint ventures foram apenas 6% das operações e o setor que mais atraiu capital chinês foi o de geração, transmissão e distribuição de energia elétrica, seguido do setor de extração de petróleo e gás.

Em 2021, o Brasil foi o destino principal dos capitais chineses investidos no mundo. A forma de ingresso melhorou um pouco, 54% dos projetos foram via fusões e aquisições e 46% foram greenfield; e houve mais diversificação para o setor industrial. No entanto, estudos apontam que as corporações chinesas tendem a manter o grosso da produção na China, deslocando apenas as operações de montagem para os países receptores dos investimentos.

Não é possível aqui traçar um panorama abrangente, mas o fato é que a análise da evolução das relações Brasil-China resulta em um panorama mais negativo que positivo. Basicamente, o que move o capital chinês para o Brasil é o interesse na garantia dos recursos primários dos quais a China necessita e o interesse na expansão de mercados para produtos industriais e serviços chineses por meios dos investimentos diretos no Brasil.

Em resumo, a relação comercial entre os dois países é muito assimétrica; aumentou o peso das commodities na pauta exportadora, ao encontro da desindustrialização; nos investimentos diretos prevalece o setor de energia e as aquisições/fusões; da ótica da transferência de tecnologias, os investimentos diretos chineses não parecem animadores, sequer da perspectiva da geração de empregos se destacam muito; e grupos chineses ainda avançaram sobre mercados brasileiros, nacional e internacionalmente.

Certamente, o quadro pode melhorar e ajudaria a existência de um plano/guia bem traçado para orientar as relações com a China (desconheço se existe), que poderia partir da seguinte pergunta: como promover uma nova fase de desenvolvimento, via desconexão relativa da tríade e maior aproximação da potência asiática? Necessariamente contemplando o cuidado com o meio ambiente. 

Por fim, politicamente, reclamar da baixa contribuição dos chineses para o desenvolvimento no Brasil, e demais países da região, talvez seja mais produtivo do que ovacioná-los sem merecimento. Até porque o custo de se indispor com os EUA pode ser alto, a China precisa fazer valer a pena.

Angelita Matos Souza – Cientista Social. Docente na UNESP

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