ENTENDA AS DIFERENÇAS ENTRE “RAIVA JUSTA” E “CULTURA DO ÓDIO” NA PERSPECTIVA DE PAULO FREIRE
O pesquisador Dimas Brasileiro destacou a importância da amorosidade associada à construção do conhecimento
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Você precisa se indignar para poder amorosamente tocar a luta, se indignar com a fome, com a miséria
Os atos de pronunciar o mundo e reconhecer os pronunciamentos das muitas histórias de vidas dos povos formam um dos vários postulados de uma educação libertadora na perspectiva freiriana. Assim, a superação de uma condição de opressão depende de processos educativos em que, como afirma o próprio Freire, “nosso papel não é falar ao povo nossa visão de mundo ou tentar impô-la, mas dialogar com eles sobre a sua e a nossa”.
Ao mesmo tempo, os conceitos freirianos apontam que as palavras e os diálogos – que pronunciam a diversidade de histórias do mundo – precisam de uma interação de ação e reflexão para carregar o sentido de uma libertação. Caso contrário, o caminho para existir e transformar o mundo se perde quando falta a ação (para evitarmos apenas palavrórios) ou se abdica da reflexão (para não cairmos no puro ativismo). Desta forma, para Freire, “existir, humanamente, é pronunciar o mundo, é modificá-lo. O mundo pronunciado, por sua vez, se volta problematizado aos sujeitos pronunciantes, a exigir deles novo pronunciar”.
Entre ações e reflexões freirianas das muitas formas de pronunciar o mundo, o Bem Viver conversou com professor Dimas Brasileiro, do Instituto Federal de Pernambuco e da Cátedra Paulo Freire. Considerando os contextos atuais de cultura de ódio e desinformação, o pesquisador destacou a importância da educação e amorosidade no legado de Freire, que completa 101 anos de nascimento nesta segunda-feira (19).
“Desde o princípio de suas primeiras formulações, Paulo Freire traz uma série de práticas que parecem muito simples, mas que são fundamentais para pensarmos uma educação amorosa, como, por exemplo, a escuta. Um mundo onde a loquacidade é imperante, são poucas as pessoas que têm essa habilidade importantíssima de escutar o outro, de se conectar com outro e assim poder dialogar. Para Paulo Freire, a construção do conhecimento é um gesto de comunicação. Você produz conhecimento com o outro. Ao mesmo tempo, Paulo Freire pensa a educação como instrumento de transformação dos sujeitos e das coletividades das classes, dos grupos oprimidos. E essa transformação parte da ideia de que você precisa ser reconhecido com ser humano”, analisa Dimas, destacando uma consideração das pessoas marginalizadas e excluídas na sociedade.
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Para o pesquisador, a amorosidade nos postulados freirianos está vinculada a uma raiva justa, de quem se indigna com as opressões e injustiças sociais, de acordo com a obra Pedagogia da Indignação. Ao contrário de uma cultura do ódio, o foco freiriano é a comunhão entre as pessoas no sentido da esperança e transformação do mundo.
“Você precisa se indignar para poder amorosamente tocar a luta, se indignar com a fome, com a miséria, com a violência, com a violência policial, com o desamor, com o comportamento antiético, pela falta de compromisso de nossas elites. Portanto, a raiva justa é essa indignação, como um sentimento que vai alimentar uma prática pedagógica, cultural, comunicativa, política e amorosa”, ressalta fazendo a conexão da amorosidade com o comprometimento da dialogicidade transformadora do mundo.
“Paulo Freire foi obrigado a aprender a conviver desde cedo com essa situação de desinformação ou para usar o conceito que ele desenvolve no Pedagogia do Oprimido, com essa ação cultural ou política antidialógica, que não promove o diálogo, pelo contrário, limita, cerceia, distorce”, salienta o pesquisador do IFPE.
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Ao criar um método de educação revolucionário que alfabetiza e ao mesmo tempo conscientiza, Freire se tornou alvo de uma forte campanha de desinformação da imprensa que estava apoiando o golpe militar de 1964, com difamações de “práticas doutrinárias”, atropelando a realidade de ações que partiam do diálogo e do respeito amoroso à cultura dos educandos, nas perspectivas populares. Assim, Dimas Brasileiro lembra que ao longo de sua história de vida, Freire ainda passou por momento de censura pelo mídia até o reconhecimento, em 2012, como “Patrono da educação brasileira”, reacendendo as manifestações de ódio e ataque ao seu legado.
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Para Dimas Brasileiro, essa resistência em pronunciar o mundo como prática pedagógica e transformadora também está no contexto de uma cultura do silêncio, típica de sociedades coloniais que durante séculos controlaram territórios através da escravidão de pessoas sequestradas do continente africano e aculturação hispânica.
“As pessoas tinham medo de falar, de se comunicar, de anunciar ou denunciar. Medo de denunciar o descaso em que viviam, de anunciar soluções, de anunciar possibilidades, de sonhar”, ressalta os postulados de freires sobre as marcas da colonialidade em países da América Latina.