“SE FAZ NECESSÁRIOS E URGENTE QUE TENHAMOS UMA BANCADA DE TERREIRO”, DISSE MÃE DE SANTO NO LANÇAMENTO DA SÉRIE TERREIROS URBANOS

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TERREIROS URBANOS

As protagonistas do documentário Terreiros Urbanos falaram do seu trabalho e dos seus sonhos

Mãe Luciana Bispo apontou que seu sonho passa por uma política pública para o povo de terreiro. | Crédito: Vitor Shimomura/Brasil de Fato

O Armazém do Campo recebeu, nesta quinta (21), mulheres líderes de religiões de matriz africana para o lançamento oficial da série documental “Terreiros Urbanos”, produzida pelo Brasil de Fato. Os episódios estão disponíveis no canal do Brasil de Fato no YouTube.

Antes da exibição dos episódios, elas, que estão presentes no documentário, falaram um pouco dos seus trabalhos e, principalmente, dos seus sonhos.

“O nosso sonho, não só meu, mas da minha comunidade, é a segurança, porque eu quero sair vestida assim [com roupas religiosas]. Quero sair da minha casa sem apanhar, sem ser discriminada. Quero pegar o metrô, quero pegar o trem, quero pegar o ônibus vestida exatamente assim”, disse Mãe Janaína Cunha, do Ilê Asé Ojú Oyá, de Valinhos (SP).

Mãe Luciana Bispo, do Ilê Obá Asé Ogodo e do Lar Maria Sininha, na zona Sul de São Paulo, apontou que seu sonho passa pela representação política. “A política pública para o povo de terreiro só vai acontecer quando nós tivermos parlamentares envolvidos diretamente. Se faz necessário e urgente que tenhamos uma bancada de terreiro, uma bancada do povo preto. Olhem bem para as yalorixás e as babalorixás que estão se candidatando. Se conectem com essas pessoas. A gente precisa ter grupos, a gente precisa discutir planos para que se efetive, porque as outras organizações religiosas têm garantido a política a partir da caneta. Você pode colocar 50 mil pessoas na Avenida Paulista. Sem caneta, nada funciona”.

“O que a gente está fazendo, quem teria que fazer são os governantes. Eu estou há 43 anos lá [no terreiro] e a gente conseguiu fazer tanta coisa, sem ninguém, só nós mesmos. O Estado que poderia fazer esse tipo de trabalho. Que eles pudessem ver um pedacinho das coisas que estamos fazendo nas escolas, porque, nas escolas, ninguém nos conhece e, às vezes, a gente nem pode dizer que é de Axé”, destacou mãe Neide Ribeiro, do Egbé Awo Asè Iyá Mesan Orun e do Centro Cultural Orunmila.

Mãe Janaína também falou da importância do trabalho com a educação. “A gente vai à escola para dizer que macumba não é demônio. Existe um demônio que criaram por aí. E Exu é esse cara maravilhoso com quem a gente dialoga e pede a ele para ter a palavra certa”, explicou.
As mulheres de terreiros mostraram o que fazem e quais são seus sonhos durante o lançamento oficial da série "Terreiros Urbanos".
As mulheres de terreiros mostraram o que fazem e quais são seus sonhos durante o lançamento oficial da série “Terreiros Urbanos”. | Crédito: Vitor Shimomura/Brasil de Fato

Ekedi Eloiza Lourenço, do Ilé Asé Omo Guian Ati Oya, em Ilhabela (SP), aproveitou a oportunidade também para falar de conscientização, detalhando o trabalho que faz no litoral norte de São Paulo e nos municípios vizinhos, no Rio de Janeiro. “Nós estamos em um processo difícil, longo e delicado”, destacou a líder religiosa.

Uma das principais dificuldades encontradas por Eloiza é a falta de reconhecimento. “Ilhabela foi a cidade realmente colonizada. É cidade em que as pessoas têm dificuldade de autorreconhecimento. As pessoas entendem que se nasce caiçara, mas quem tem entendimento de ser caiçara são poucos”, disse, apontando que a dificuldade maior está entre os jovens.

Após a mesa com as líderes, os participantes assistiram ao documentário com a presença das entrevistadas.

** “Terreiros Urbanos em São Paulo” é uma produção do CPMídias e Brasil de Fato, com realização da Secretaria da Cultura, Economia e Indústrias Criativas do Governo do Estado de São Paulo.

Editado por: Rodrigo Gomes

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