CHINA ACUSOU EUA DE TRAVAR UMA ‘GUERRA ILEGÍTIMA’ CONTRA O IRÃ EM REUNIÃO ENTRE CHANCELERES EM PEQUIM
afinsophia 07/05/2026 0
SOLIDARIEDADE
Wang Yi defendeu um cessar-fogo na região, enquanto Abbas Araghchi elogiou a posição da China e pediu um “acordo justo”
- PEQUIM (CHINA)
- BRUNO FALCI
A China voltou a criticar a guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, classificando-a como “ilegítima”, durante uma reunião realizada em Pequim nesta quarta-feira (6). O encontro reuniu o ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi, e o chanceler iraniano, Abbas Araghchi.
Do lado iraniano, Araghchi classificou a situação como uma “agressão aberta e uma grave violação do direito internacional”, agradecendo o posicionamento de Pequim diante das sanções e das pressões externas. O chanceler afirmou ainda que o Irã continuará utilizando todos os mecanismos diplomáticos disponíveis e que não aceitará “nada menos do que um acordo justo e abrangente”.
Em paralelo à reunião, o Ministério das Relações Exteriores da China realizou uma coletiva de imprensa em Pequim. O porta-voz Lin Jian afirmou que Pequim considera “imperativo encerrar completamente a guerra e persistir nas negociações”, destacando que a China tem atuado desde o início da crise para promover iniciativas de contenção e diálogo.
Lin Jian também salientou o apoio de Pequim ao Irã, afirmando que a China “apoia o Irã na salvaguarda de sua soberania, segurança, integridade territorial e dignidade nacional”, além de defender o direito do país de proteger seus interesses legítimos no atual cenário de guerra. Ele afirmou ainda que a crise entrou em um momento crítico.
A visita ocorre em contexto de intensificação dos contatos diplomáticos entre China e Irã desde o final de fevereiro, com ao menos três conversas telefônicas entre Wang Yi e Abbas Araghchi ao longo desse período, incluindo um último contato registrado em abril.
A atuação da China
No plano multilateral, Pequim e Moscou têm se posicionado contra propostas de novas sanções e resoluções que consideram coercitivas no Conselho de Segurança das Nações Unidas. A China também passou a contestar sanções contra o Irã, acionando mecanismos internos para evitar o cumprimento de medidas unilaterais impostas por Washington.
Desde o início da guerra, o Conselho de Segurança da ONU tem sido um dos principais espaços de disputa diplomática. Em março, o órgão aprovou uma resolução que condenou ataques iranianos contra países do Golfo, mas o texto foi alvo de críticas de China e Rússia, que se abstiveram sob o argumento de que a resolução ignorava os ataques iniciais contra o Irã que deram origem à escalada do conflito.
Poucas semanas depois, China e Rússia voltaram a usar o poder de veto para barrar uma resolução que buscava ampliar mecanismos de intervenção e coordenação militar no Estreito de Ormuz. Pequim argumentou que medidas desse tipo poderiam agravar ainda mais a crise e comprometer o espaço para uma solução política negociada no Oriente Médio.
No plano diplomático, a China também passou a intensificar contatos diretos com Teerã desde o início da guerra, defendendo publicamente a necessidade de cessar-fogo imediato e retorno às negociações. O governo chinês reiterou em diferentes ocasiões que se opõe a ações militares unilaterais e que considera a estabilidade regional uma prioridade estratégica, especialmente por seu impacto sobre a segurança energética global.
Além da atuação no Conselho de Segurança, Pequim também tem buscado manter canais ativos de comunicação com diferentes atores do conflito, incluindo Estados Unidos, Irã e países do Golfo.
Cúpula entre Trump e Xi Jinping em Pequim
A reunião entre o chanceler iraniano Abbas Araghchi e o ministro chinês Wang Yi ocorre às vésperas da cúpula entre Donald Trump e Xi Jinping, prevista para os dias 14 e 15 de maio em Pequim.
O encontro entre as duas maiores economias do mundo acontece em meio a uma disputa mais ampla pela manutenção ou reconfiguração da atual arquitetura global, marcada por tensões comerciais, tecnológicas e militares. Mais do que um ajuste bilateral, a reunião é vista como parte de um esforço de gestão de uma ordem internacional cada vez mais instável e contestada.
O Oriente Médio aparece como uma das regiões mais sensíveis dessa disputa. A guerra envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel não é tratada apenas como um conflito regional, mas como um ponto de pressão sobre a estabilidade do sistema internacional, com impactos diretos sobre rotas energéticas e preços globais.