EUA PARTICIPARAM DO GOLPE DE 1964. QUAL O RISCO DE UMA NOVA INTERFERÊNCIA NO BRASIL?

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INGERÊNCIA EXTERNA

Para jornalistas, Donald Trump está cada vez mais isolado, mas uma tentativa de interferência não pode ser descartada

19:21

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Trump não reconhece ter cometido algum erro | Crédito: Mandel NGAN / AFP

Os EUA participaram do golpe de 1964 no Brasil, que instaurou uma ditadura cívico-militar, atuando nos bastidores para desestabilizar o governo de João Goulart. Através do embaixador Lincoln Gordon, Washington manteve laços com empresários favoráveis ao golpe e militares, oferecendo suporte logístico e financeiro. Uma ação apelidada de Operação Brother Sam mobilizou uma frota naval para a costa brasileira, pronta para intervir militarmente caso houvesse resistência armada ao golpe.

No episódio de O Estrangeiro desta semana, o debate parte dessa premissa para avaliar quais as chances de os EUA realizarem algum tipo de ingerência no processo eleitoral brasileiro de outubro deste ano e, caso isso seja possível, de que forma aconteceria.

O jornalista José Reinaldo de Carvalho, editor de internacional do Brasil 247, afirma que a operação evidenciou o compromisso imperialista com a ruptura democrática. “Naquele momento, houve interferência direta dos Estados Unidos na vida política nacional, houve um apoio explícito ao golpe. Não houve ação direta, mas eles chegaram a acionar um mecanismo militar e chegaram a deslocar navios para o nosso litoral para, se fosse necessário, caso houvesse resistência, eles poderiam intervir na situação interna do Brasil.”

Carvalho destaca que o contexto da época, a Guerra Fria, difere da realidade atual, mas o imperialismo estadunidense continua o mesmo. E faz uma analogia a política intervencionista de Trump que lança mão de conceitos como narcoterrorismo para justificar intervenções, atropelando a soberania de países, não apenas na América Latina, como em outros locais do mundo. “Eles [EUA] estão mandando milhares e milhares de soldados para uma eventual intervenção direta no Irã, assim como mandaram aquela força tarefa que praticou uma agressão militar direta contra a Venezuela e sequestrou o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, assim como a todo um dispositivo militar cercando o mar do Caribe e pressionando Cuba”, continua.

Para o correspondente do Brasil de Fato em Brasília Lorenzo Santiago, diferente do passado, a possível interferência aconteceria de formas mais sutis com o auxílio tecnológico das big techs e da Inteligência Artificial.

“Acho que esse é o principal canal e a principal ferramenta de desestabilização das eleições brasileiras hoje, que os Estados Unidos têm [na mão], principalmente por meio das plataformas, das redes sociais. O WhatsApp já tem sido um instrumento também de difusão, de desinformação e de, enfim, propaganda política pela extrema direita nos últimos anos”, avalia.

Feitiço contra o feiticeiro

Avaliado como interferência recente na política interna de outros países, o tarifaço aplicado pelo governo Trump a diversos países no ano passado, entre eles o Brasil, foi citado para exemplificar a forma de atuar dos Estados Unidos. Em especial, pela justificativa usada pelo republicano: uma suposta perseguição que o ex-presidente Jair Bolsonaro, articulador da tentativa de golpe de 8 de janeiro, estaria sofrente do Judiciário brasileiro.

A decisão aconteceu pela ação direta do filho do ex-presidente, Eduardo Bolsonaro, que foi para os Estados Unidos pedir essa intervenção e colou ainda mais a imagem do bolsonarismo à figura de Trump.

Mais recentemente, o mesmo governo Trump começou a ventilar a ideia de transformar facções criminosas brasileiras como Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas.

“Esse movimento acontece exatamente para terem o pretexto de colocar o controle ou a repressão ao crime organizado no status não de questão de segurança pública interna, mas como no status de ameaça à segurança nacional do ponto de vista de ameaça externa e dar ao Trump o pretexto para que ele diga que a segurança nacional está ameaçada por grupos terroristas brasileiros”, avalia José Reinaldo de Carvalho.

Soma-se a esse cenário a guerra no Irã, que tem trazido impactos econômicos globais e afundado a popularidade de Trump, que se vê cada vez mais isolado.

“Isso pode transformá-lo numa figura tóxica e, portanto, impedir ou neutralizar as possibilidades de uma interferência direta. De fato, não há sinais claros se o governo dos Estados Unidos vai diretamente tomar alguma ação contra o Brasil agora e, especificamente na eleição, se vai agir abertamente em desfavor do Lula. Ele pode tomar uma atitude mais prudente. Agora, de qualquer maneira, é preciso que o Brasil se prepare para qualquer eventualidade. Isto corresponde também às forças progressistas brasileiras, os partidos, os movimentos sociais, as mídias progressistas fazendo a sua parte”, conclui.

Para ouvir e assistir

O podcast O Estrangeiro vai ao ar semanalmente às quartas-feiras às 15h, disponível nos canais do Brasil de Fato.

Editado por: Luís Indriunas

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