Para Lula, a atuação conjunta entre Polícia Federal, Receita Federal, Ministério Público e Judiciário representa uma oportunidade inédita de atingir as camadas mais ricas da criminalidade.
“Nunca tivemos tanta oportunidade de chegar ao andar de cima da corrupção e do crime organizado como agora. Depois da situação do Banco Central com o Banco Master, nós vamos mostrar que o Estado brasileiro vai derrotar o crime organizado”, declarou o presidente.
Ofensiva contra o “andar de cima”
O endurecimento do tom do Executivo foi precedido por uma reunião de emergência, fora da agenda, no Palácio do Planalto. O encontro reuniu o ministro Alexandre de Moraes (STF), o procurador-geral da República, Paulo Gonet, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, além do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e membros da equipe econômica.
O objetivo foi alinhar a resposta institucional ao que o governo classifica como “crimes estruturados“. Lula mencionou, além do caso Master, a Operação Carbono Oculto e o bloqueio de 250 milhões de litros de gasolina contrabandeada da refinaria Refit como marcos dessa nova fase.
“Eu quero falar ao meu delegado da Polícia Federal, ao procurador-geral desse país, falei ao presidente da Suprema Corte, estou falando ao ministro [da Justiça], ao advogado-geral da União […] hoje nós fizemos uma reunião para dizer o seguinte: nós vamos mostrar que o Estado brasileiro vai derrotar o crime organizado”, reforçou Lula.
Autonomia e crise de sigilos
Apesar da busca por unidade, o cenário é de tensão entre os órgãos de controle. O ministro Alexandre de Moraes abriu, de ofício, um inquérito para investigar se a Receita Federal e o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) quebraram indevidamente o sigilo fiscal de ministros do Supremo e seus familiares.
O movimento ocorreu após o jornal O Globo revelar detalhes de um contrato de R$ 3,6 milhões mensais da advogada Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, para defender os interesses do Banco Master e de seu dono, Daniel Vorcaro.
Mesmo diante do atrito, Lula fez uma defesa enfática da independência institucional. “Se vocês não tivessem autonomia, as instituições seriam facilmente cooptadas pelo poder político. É fundamental dizer em alto e bom som: não pertencemos a um presidente ou a um partido, pertencemos ao povo brasileiro”, afirmou.
Segurança como razão de Estado
Em seu primeiro pronunciamento no cargo, o ministro Wellington César Lima e Silva definiu o combate ao crime organizado como uma “razão de Estado”. O novo titular da Justiça destacou que a gestão será pautada pelo fortalecimento tecnológico e pela cooperação federativa, independentemente de coloração partidária nos estados.
Lima e Silva buscou minimizar os ruídos sobre o encontro com a cúpula do Judiciário e da economia, tratando-o como um ajuste de “sincronia“. “A relevância que o crime organizado assumiu impõe a necessidade de atuação comum. Cada um dos órgãos de Estado atuará em conjunto entre os Poderes”, explicou.
O impacto financeiro das operações recentes sustenta o otimismo do governo. Na mais recente etapa da Operação Compliance Zero, a Polícia Federal obteve o sequestro de bens e valores que superam R$ 5,7 bilhões, incluindo carros de luxo e aeronaves, mirando Daniel Vorcaro, seu pai Henrique Vorcaro e o empresário Nelson Tanure.