Os octogenários não pararam. Poderiam ficar em casa, repousando sobre carreiras gloriosas, sabendo-se presentes na memória musical de toda uma geração. Mas saíram a campo, subiram em palanques e esparramaram seus cantos de acolhimento, aqueles mesmos que aqueceram a alma brasileira durante o período glacial da ditadura.
Os de 60, 70, 80 anos de idade se puseram a campo para impedir o derradeiro fracasso dos sonhos que começaram com as diretas, ampliaram-se com a Constituinte e bateram no muro do golpismo no mensalão e na Lava Jato e na falta de condições políticas para o grande salto.
Agora estamos todos aí juntando os cacos das instituições, definindo penosamente as novas regras de conduta no Parlamento, na Justiça, no mercado, enfrentando o desmonte das instituições que começa com o impeachment e se agrava com o bolsonarismo.
Jornalistas que demoliram pedra por pedra o pudor democrático, agora retornam à fronteira da democracia, assim como Ministros do STF, juristas e inquisidores. Mesmo sem a autocrítica, as promessas de que não mais se repita, o Brasil formal reage. E reage através do único fator de coesão, de brasilidade, cultura e a música.
A fala de Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho no Globo de Ouro, a comemoração posterior, com samba, a entrada em Cannes, com o frevo, comprovam que a música é o único fator de coesão nacional, o elemento que mantém o Brasil como nação, apesar da polarização, da bandeira norte-americana, do neonazismo nascente.
É o que nos alerta para um modo de ser, de conviver, de criar, um conjunto de fatores que, na sua complexidade, variedade, dão a conformação da Nação.
Dia desses estive em Natal, Rio Grande do Norte. No hotel, a gentileza das funcionárias era espontânea, muito mais do que o exigido pelo profissionalismo. Elogiei uma delas. A resposta foi definitiva: “No nordeste é assim”.
Agora, em Poços de Caldas, em que pese o tamanho da cidade, não se perdeu os resquícios sul mineiros da gentileza, da educação, da atenção.
2026 será um ano terrível, onde estará em jogo a sobrevivência do Brasil como Nação. Entrei com os dois pés na porta dos sentimentos, ouvindo minhas conexões musicais com o Brasil, “Tristeza do Jeca”, “Chuá Chuá”, “Cantar”, “Casinha da Marambaia”.
E relembrando uma viagem que fiz com um grupo de jornalistas, muitas décadas atrás. No grupo, uma repórter da Exame. Os pais, italianos, fugiram da Itália no pós-guerra, quando a fome campeava. Foram até o porto sem saber para onde ir. Até que ouviram, nos alto falantes, “Aquarela do Brasil”. Perguntaram que música era aquela. Quando informados que era do Brasil, imediatamente decidiram para onde ir:
Um país que tem uma música tão bonita assim, só pode ser um bom país.
Diria que um país com essa música, e que tem também Wagner Moura e Fernanda Torres, só pode ser um bom e belo país.
Que 2026 permita ao Brasil superar o novo desafio e se preparar para mais um período atrás do destino que nunca se completa.
Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.