A woman shows a painting depicting ousted Venezuela's President Nicolas Maduro and former President Hugo Chavez (1999-2013) during a demonstration by supporters in Caracas on January 4, 2026, a day after he was captured in a US strike. Nicolas Maduro's congressman son called on January 4, 2026, for Venezuelans to take to the streets following his father's ouster by US forces and transfer to a New York jail. (Photo by Juan BARRETO / AFP)
Para Miguel Stédile, com o país caribenho no bloco, haveria um outro patamar de reação e negociação
Manifestantes homenageiam o presidente Nicolás Maduro e o ex-presidente Hugo Chávez, ambos referências da República Bolivariana| Crédito: Juan BARRETO / AFP
Como seria o cenário atual se o veto do Brasil à entrada da Venezuela no Brics, em outubro de 2024, não tivesse acontecido? Esse é um dos questionamentos apontados pelo historiador e analista político Miguel Stédile, um dos participantes da primeira edição de 2026 do podcast O Estrangeiro, do Brasil de Fato, que foi ao ar nesta quarta-feira (7).
O programa, como não poderia deixar de ser, repercutiu o sequestro de Nicolás Maduro pelo governo de Donald Trump no último dia 3 de janeiro. Além de Stédile, os apresentadores Lucas Estanislau e Rodrigo Chagas receberam o jornalista português Ricardo Vaz, que vive em Caracas há oito anos.
Para Stédile, o Brasil ficou em situação delicada com o veto. “Eu diria até com algum sentimento de culpa”, avaliou. “Imagine se o Brasil não tivesse bloqueado a entrada da Venezuela no Brics, como essa situação seria tratada agora. Poderia estar em outro patamar de negociação, de proteção ou mesmo, de contabilidade dos Estados Unidos antes de terem realizado esse ataque”.
Como os venezuelanos não são parte do bloco, é ainda menor a chance de intervenção concreta de russos e chineses após o ataque estadunidense – até porque os governos de Xi Jinping e Vladimir Putin não têm por hábito o embate direto com os EUA e, também, estão envolvidos diretamente em questões regionais próprias.
“No tabuleiro geopolítico, a China e a Rússia jogam as suas partidas. É óbvio que a Rússia e a China foram bastante enfáticos pelos meios diplomáticos [após o sequestro de Maduro], mas a gente não deve esperar que aconteça mais que isso. Eles têm os seus próprios problemas, no caso a Ucrânia e Taiwan“, avaliou Stédile.
O cientista político fez questão de enfatizar, ainda, a postura cautelosa do chavismo. A presidenta interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, estendeu a mão a Trump e pediu diálogo, ao mesmo tempo em que defendeu a soberania venezuelana ao assumir o cargo.
“Eu acho que eles [os líderes chavistas] têm se movido com a cautela necessária no tempo da política e de acordo com as condições possíveis. O primeiro comunicado foi um gesto de cooperação com os Estados Unidos, mas que seria de se imaginar que se fizesse? Não é momento para ‘porra louquice’, para aventureiros”, apontou
Essa postura se reflete na relativa tranquilidade vivida em Caracas nos dias que se sucederam ao ataque, conforme relata Ricardo Vaz. Em meio a manifestações permanentes de apoio a Maduro e ao regime chavista, a capital e o restante do país retomam a vida aos poucos.
“Como vocês podem imaginar, foram muitas horas de trauma e de tentar entender o que estava acontecendo, mas o clima, se eu tivesse de resumir, tem sido de tranquilidade e de paz, até é surpreendente para quem esteja vendo de fora”, destacou. “Pouco a pouco certos elementos vão aparecendo: o transporte público volta a funcionar, as lojas vão abrindo. As escolas ainda não, dizem que é possível que seja na próxima semana. A situação neste momento é de tentar superar isto, normalizar a situação”, concluiu.
O podcast O Estrangeiro vai ao ar toda quarta-feira, às 11h, no Spotify e no YouTube.