ROBERTO BITENCOURT DA SILVA: O LONGO TEMPO DE INDIFERENÇA DAS ESQUERDAS COM A VENEZUELA
afinsophia 06/01/2026 0
O longo tempo de indiferença das esquerdas com a Venezuela
por Roberto Bitencourt da Silva
Após o inominável bombardeio do território venezuelano pelos Estados Unidos e o desconcertante sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e da primeira-dama, Cilia Flores, enfim, amplos setores das esquerdas partidárias brasileiras têm se movimentado para denunciar o gangsterismo imperialista dos EUA e expressar solidariedade ao povo venezuelano.
A subserviência à linha editorial da grande mídia
Em boa medida, o mencionado comportamento político traduz uma acentuada subalternidade das organizações partidárias de esquerda, de resto, outras do campo popular, à linha editorial dos veículos massivos e comerciais de comunicação.
Estes veículos agem como porta-vozes dos geointeresses do governo e do grande capital estadunidenses. O receio em confrontar a linha editorial da mídia massiva, em ser submetidas à prática simbólica da satanização, faz com que nossas esquerdas se rendam facilmente. Pagam tributo à demonização do chavismo para se acomodarem ao discurso da ordem.
Com isso, desnutrem o debate político. Abdicam de moldar a agenda pública e de influir na formação da opinião pública. Inviabilizam a difusão de projetos e visões alternativas de sociedade. Deixam de fazer contraponto. Desarmam o povo trabalhador brasileiro, entregando-o à cantilena reacionária, mentirosa e imperialista pró-ianque, esposada pelas direitas e pela grande mídia.
O imperialismo é arma decisiva do capitalismo
O capitalismo, como toda lógica e sistema de poder, segmenta e divide a realidade social para melhor realizar as aspirações estratégicas das classes dominantes. Uma das fontes de divisão para conquistar e preservar o poder reside na polarização mundial entre povos e territórios. Um pequeno núcleo de nações assume o comando da cadeia produtiva e jurídica global. Por sua vez, a maioria é conduzida para posições subordinadas na divisão internacional do trabalho e nos organismos deliberativos mundiais.
Uns apoiam-se na extração das riquezas dos países dominados e periféricos, superacumulando capital. São as potências capitalistas imperialistas. Outros subdesenvolvem-se com a drenagem dos seus excedentes econômicos e as receitas dos seus recursos para o centro do capitalismo. Trata-se dos países subdesenvolvidos ou espoliados do capitalismo, como há muito ensinava André Gunder Frank.
No capitalismo não há salvação para nossos países desapossados de poder na cena mundial e dependentes do ponto de vista tecnológico. É o caso brasileiro. É o caso venezuelano. Nunca repetiremos as experiências sociais das nações capitalistas hegemônicas. As democracias delas, inclusive a vigência dos seus mais robustos direitos sociais, estão baseadas na expropriação e na violência exercida histórica e cotidianamente sobre as sociedades vítimas do colonialismo e do imperialismo capitalista.
A recente e repugnante agressão estadunidense sobre a Venezuela ilumina de maneira claríssima o que é o capitalismo, o seu imperativo imperialista. O roubo, o saque, a perfídia, a ilegalidade, a imoralidade, o arbítrio. Mr. Trump, de modo estridente, abriu o jogo sem dissimulações: atribuiu, para os EUA, titularidade do direito de propriedade do petróleo da Venezuela. Afirmou na cara dura!
Não há como desprezar esses fatos. A não ser que se queira viver mergulhado na fantasia doce, porém política e socialmente estéril, sem capacidade transformadora da realidade. Foi sob o manto dessa fantasia que amplas frações progressistas brasileiras andaram vestidas até agora, ao menos por duas décadas. Fingiram que o imperialismo não existe. Será que acordarão da gostosa letargia?

Ato em defesa da Venezuela, Rio de Janeiro-RJ, 5/1/2026.
Foto de Roberto Bitencourt da Silva
Um caso específico no movimento social
O Sindicato Nacional dos Docentes do Ensino Superior (Andes-SN), provavelmente, é um dos sindicatos e organismos coletivos populares mais dotados de capacidade de crítica e mobilização rebelde no Brasil. Há muito tempo. Mesmo aí a questão venezuelana tem carecido de interesse. O Andes-SN, por intermédio das suas seções sindicais, dos seus respectivos dirigentes e representantes dos seus movimentos de base, em diferentes instâncias deliberativas e decisórias, tem oportunamente dedicado uma especial atenção às adversidades sofridas pelos povos da Palestina e de Cuba.

Ato em defesa da Venezuela, Rio de Janeiro-RJ, 5/1/2026.
Foto de Roberto Bitencourt da Silva
Por conseguinte, o Andes-SN tem aprovado resoluções e encetado esforços para envolver-se em atos de solidariedade a estes dois povos tão castigados pela covardia e a agressividade imperialista ocidental. Contudo, a Venezuela, país coirmão sul-americano, não tem recebido a devida atenção do sindicato. Convivendo há décadas com sistemáticas ações de desestabilização política e econômica, os sucessivos governos de extração anti-imperialista, socializante e democratizante, têm se deparado ad nauseam com um indisfarçável ingerencismo praticado pelo imperialismo estadunidense.
A voracidade pelo roubo do petróleo, recurso natural do povo venezuelano e administrado pelo governo do país sul-americano, essa ganância é o que principalmente tem guiado a infame ofensiva ianque. Grosso modo, dois fatores perturbam as relações entre EUA e Venezuela, sob o exclusivo enfoque da estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos:
- De um lado, a escolha dos governos chavobolivarianos pela estatização de setores da economia. Igualmente a contumaz aplicação das receitas do petróleo no custeio de direitos sociais – como o acesso universal à moradia – e seu direcionamento também voltado ao financiamento de direitos trabalhistas (melhorias das prerrogativas dos trabalhadores frente ao capital).
- De outro lado, chamam a atenção os estímulos políticos e jurídicos para elevar o grau de participação dos de baixo, o que tem permitido gestar uma engenharia social que ultrapassa os limites da democracia representativa: a socialização dos meios de produção normativa faz com que a cidadania ativa das massas introduza ingredientes participativos na democracia, como os institutos do plebiscito e do referendo, assim como a expansão da experiência do poder comunal.
Ambas as características dos processos sociais e políticos do país vizinho, cuja trajetória já alcança quase 30 anos, são motivo de aberta hostilidade do capital e do governo estadunidenses, bem como de oposição ferrenha das burguesias locais vende-pátria. As agudas violências e escancaradas ilegalidades ora praticadas pelos EUA na Venezuela demonstram a necessidade de tomar o país coirmão enquanto objeto especial de atenção, tanto pelo Andes-SN, quanto por toda e qualquer organização coletiva popular e progressista.
As sanções impostas pelos EUA
Há mais de 10 anos a Venezuela convive com os efeitos sociais e economicamente deletérios das sanções econômicas. Estas foram e têm sido impostas por diferentes presidentes dos EUA: Obama, Trump e Biden. Trata-se de sanções que impossibilitam a Venezuela de ter acesso a insumos para fabricação de remédios e alimentos, sanções que restringem demasiadamente as condições de realizar transações financeiras regulares em âmbito internacional.
Sanções que tornam impraticável a venda e o transporte do petróleo venezuelano, já que um dos fundamentos das sanções consiste em uma norma estadunidense com poder extraterritorial: toda e qualquer empresa de um país que faça negócios com a Venezuela estará impedida de fazer operações de mercado com empresas que possuam alguma fração de capital estadunidense. A China, por óbvio, é caso à parte.
Toda uma série de barbaridades que violam flagrantemente o direito internacional, que desrespeitam o direito do país sul-americano ao comércio internacional e que maltratam o princípio da autodeterminação nacional! Ademais, arbitrariedades que colocaram nuestra América Latina, hoje, na rota de uma guerra abertamente militarizada!
As recentes manifestações de solidariedade
Após as deploráveis ações dos EUA, atos em defesa do povo venezuelano têm se espalhado por diferentes cidades brasileiras. É de fundamental importância tanto a promoção destes atos nas ruas, quanto maior esclarecimento sobre as dificuldades sofridas pela Venezuela nos últimos anos. Partidos de esquerda, sindicatos e demais organizações populares precisam realizar esse amplo trabalho educativo.
Igualmente, é imperioso exigir que o governo brasileiro aja de maneira contundente em relação aos acontecimentos, abandonando postura, no mínimo, negligente até a pouco dominante, que negou apoio ao vitimado país que nos faz fronteira.

Ato em defesa da Venezuela, Rio de Janeiro-RJ, 5/1/2026.
Foto de Roberto Bitencourt da Silva
Contra a odiosa guerra imperialista promovida pelo putrefato capitalismo dos EUA! Em defesa do princípio da autodeterminação dos povos e do direito internacional! Pela solidariedade das organizações populares brasileiras com o povo venezuelano e com o legítimo governo de Nicolás Maduro! Pela libertação do presidente Maduro e da sua esposa, Cilia Flores!
Roberto Bitencourt da Silva – cientista político e historiador, presidente da Associação dos Docentes do Ensino Superior da Faetec (Adesfaetec S. Sind. do Andes-SN).
Sugestões de leitura:
De La Cruz, Claudia; De Los Santos, Manolo; Prashad, Vijay. Viviremos. Buenos Aires: Batalla de Ideas: Tricontinental Instituto de Investigación Social, 2021. Disponível em: <https://bit.ly/3IR5hqf>. Acesso em: 18 dez. 2025.
Kovalik, Dan. The plot to overthrow Venezuela. Nova Iorque: Hot Books, 2019.
Lugo, Carlos R. Além do constituinte e do constitucional: por uma teoria materialista do processo social constitutivo. Niterói: Revista Culturas Jurídicas, v.5, n.12, set./dez. 2018, p.23-41.
Morales, Rafael González. Estados Unidos y la “guerra 4G” contra Venezuela. S/l: Ocean Sur, 2019.
Pinheiro, Jair. A construção do poder popular na Venezuela. Marília-SP: Lutas Anticapital, 2022.
Sachs, Jeffrey; Weisbrot, Mark. Economic sanctions as collective punishment: the case of Venezuela. Washington: Center for Economic and Policy Research, abr. 2019. Disponível em: <https://cepr.net/images/stories/reports/venezuela-sanctions-2019-04.pdf>. Acesso em: 17 dez. 2025.
Scheidt, Eduardo. A democracia participativa na Venezuela da era Chávez e a questão dos conselhos comunais e das comunas. Marechal Cândido Rondon-PR: Tempos Históricos, Unioeste, v.21, 1º sem. 2017, p.261-291.