“O MUNDO NÃO ESTÁ PREPARADO PARA O TERREIRO”: PAI DAVID EXPÕE O RACISMO NA RELAÇÃO COM A

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TRADIÇÃO BANTU

No episódio 90, sacerdote discute força dos pontos cantados, crítica ao sincretismo e a disputa por narrativas na religião

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Escritor, pesquisador e sacerdote de Umbanda, Pai David| Crédito: Divulgação

“O mundo não tá preparado para o terreiro.” A afirmação de Pai David Dias no meio da conversa sintetiza muito do que se escuta ao longo do episódio 89 do Sabe Som?. Escritor, pesquisador e sacerdote de Umbanda, ele conduz a conversa como um chamado para um diálogo sobre a religião. No centro do papo, a força dos pontos cantados e as tradições banto que moldaram a Umbanda no país.

Logo no início, Pai David recupera elementos centrais dessa matriz. “Os bantos têm essa ligação muito forte com o elemento terra, com aquilo que é enraizado. O banto ele assimila. Ele não destrói, ele não expulsa, ele não apaga. A cultura banto é profundamente porosa”, afirma.

Dessa porosidade, explica, surge o moyo, conceito que descreve como “a habilidade porosa de obter outros poderes de outras culturas”, uma tecnologia ancestral distorcida pelo olhar colonizador.

O apresentador, Thiago França, que há anos investiga a formação rítmica do Brasil, reforça como esse encontro moldou a música. “O samba não existiria sem esse encontro da musicalidade africana com a indígena. Porque o pulso, aquele grave marcando o tempo, aquilo é indígena”, observa.

Para Pai David, essa lógica de troca não se confunde com diluição: “A cultura banto preserva essa identidade centro-africana […] Não é um Frankenstein. Você identifica de onde vem.”

A cosmologia banto aparece também na relação com a morte, tratada não como encerramento, mas como continuidade. Ao falar da Festa na Calunga, ritual realizado no cemitério pelo seu terreiro, ele explica: “Não tá se acabando ali. […] Celebrar a morte por meio da vida e a vida por meio da morte é um processo cíclico que é centro-africano, que é banto.”

Essa leitura abre espaço para compreender a profundidade dos pontos cantados. “O ponto cantado tem função mágica. Não é ilusão. É feitiço cantado. É força. Eu tô chamando um poder para vir à terra. Tem ponto para chamar, ponto para manter, ponto para riscar feitiço. Ele tem função”, afirma.

Essas cantigas são o centro de seu novo livro, Pretos e Pretas Velhas, publicado pela Editora Encruzilhadas. Ao explicar o “ponto raiz”, ele narra: “Durante uma gira, baixa o caboclo, para a curimba, silêncio, e ele começa a puxar um ponto cantado que está brotando daquele corpo. Ele trouxe.” Um princípio, que segundo o Pai David, desmonta a lógica ocidental de criação individual, pois a autoria, nesse caso, é corpo, é entidade, é presença, e não um ser humano enquanto tal, como prevê a legislação dos direitos autorais.

O pesquisador também discute como o racismo no Brasil se expressa na intolerância religiosa contra os povos de matriz africana e na forma como a sociedade se relaciona com pretos e pretas velhas. Num país onde 42,7% dos praticantes da Umbanda se declaram brancos, segundo o Censo 2022 do IBGE, ele provoca ao afirmar: “As pessoas gostam de preto morto! A gira de Preto Velho é cheia, mas duvido demonstrar esse amor por um corpo preto na rua igual o do Preto Velho”. A frase escancara o racismo que permite venerar a entidade, mas rejeita o corpo negro vivo que lhe dá origem e significado.

Para Pai David, esse apagamento reaparece também na tentativa de higienizar a Umbanda ao chamá-la de “religião brasileira”, um rótulo que esvazia sua origem africana. “A Umbanda é afrobrasileira. Não apenas brasileira. É africana também.” Trata-se de um processo que embranquece a história e dilui o enraizamento dos fundamentos banto.

Entre uma reflexão e outra, o episódio revela também a musicalidade que estrutura o pensamento de Pai David. Ao lembrar que “Xangô criou o tambor e com o tambor criou o prazer de dançar”, ele aproxima a espiritualidade da experiência musical cotidiana, inclusive do próprio Thiago França, que vê sua trajetória atravessada pelos terreiros. “Se meu pai criou o prazer de dançar, eu tenho que tocar para as pessoas dançarem”, completa o saxofonista.

O podcast Sabe Som? vai ao ar toda sexta-feira, às 10h da manhã, e está disponível nas principais plataformas de podcast como Spotify e YouTube Music.

 

Editado por: Luís Indriunas

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