CLIMATOLOGISTA, CARLOS NOBRE: “COP30 PRECISA SER A MAIS IMPORTANTE DA HISTÓRIA”
afinsophia 06/11/2025 0
Cientista ressalta que, mesmo com a ausência dos EUA, responsável por 20% das emissões históricas, os demais países precisam investir em transição energética

“Se chegarmos a 2050 com 2 °C ou, até pior, 2,5 °C de aquecimento, vamos disparar vários pontos de não retorno”, alerta o cientista, que aponta ainda que a Amazônia pode deixar de funcionar como floresta e passar a emitir mais carbono do que absorve.
Nobre compara a COP30 à COP21, de 2015, quando foi assinado o Acordo de Paris, e à COP26, em 2021, em Glasgow, ambas consideradas marcos no enfrentamento da crise climática. Para ele, Belém precisa repetir e superar esse protagonismo.
Ele ressalta que, mesmo com a ausência dos Estados Unidos — segundo maior emissor atual e responsável por 20% das emissões históricas —, os demais países precisam acelerar seus esforços. “A China colocou pequenas metas de redução até 2035. Precisa acelerar demais. Hoje é o país que mais emite, junto com a Índia.”
Pontos de não retorno
Entre os riscos apontados pelo pesquisador estão o derretimento do permafrost (solo congelado da Sibéria e do Ártico, que libera grandes quantidades de metano), o aquecimento dos oceanos, a morte dos recifes de corais e a transformação da Amazônia em savana.
“A ciência hoje já conhece mais de 20 pontos de não retorno. Até o próximo século haverá uma grande extinção dos recifes de corais e inúmeras espécies oceânicas, mas também espécies dos continentes. Já há muitas extinções de espécies na Amazônia. Se a temperatura passar de 2 °C de aquecimento, nós vamos fazer com que descongele o solo congelado da Sibéria, norte do Canadá e norte do Alasca, o chamado permafrost, que congelou há milhões e milhões e milhões de anos e represou uma quantidade gigantesca de gás de efeito estufa, como o metano, que é 28 a 30 vezes mais poderoso para reter o calor em comparação com o gás carbônico. E já começou a descongelar.”
Para Nobre, um novo acordo global precisa ser acompanhado de financiamento robusto. Ele cita o Fundo Verde para o Clima, que, segundo estudo apresentado na COP29, deveria saltar de US$ 100 bilhões para US$ 800 bilhões por ano até 2035.
“Energia renovável é totalmente factível. Solar e eólica já são muito mais baratas. A maior causa de poluição urbana do mundo é a queima de combustíveis fósseis, carvão, petróleo, diesel. Isso leva a 6 a 7 milhões de mortes por ano devido à poluição urbana.”
Adaptação no Brasil
O cientista também chama atenção para a vulnerabilidade do Brasil diante de eventos extremos, tendo em vista que, segundo o levantemento do Cemaden, mais de dois milhões de brasileiros estão em situação de altíssimo risco.
As ondas de calor, segundo ele, já matam mais do que as chuvas intensas. “Uma cidade como Barcelona, depois da onda de calor de 2022 e 2023, criou um monte de locais com piscina, ar condicionado, médicos, e todas as pessoas idosas, bebês, pessoas doentes são mapeadas. E quando a previsão meteorológica prevê uma onda de calor muito forte, essas pessoas são convidadas a ficar lá dias e dias até o fim da onda de calor. Essa é uma forma de adaptação. Outra adaptação muito importante é a restauração florestal urbana.”
Primeiro coordenador científico do Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera da Amazônia (LBA), Nobre destaca que o projeto inaugurou uma nova era de pesquisa sobre florestas tropicais. Criado nos anos 1990, o LBA reuniu cientistas de vários países para entender como a floresta interage com o clima.
O experimento ajudou a formar mais de 1.500 mestres e doutores e resultou em 2.500 publicações científicas. “Foi o maior projeto científico em florestas tropicais do mundo”, afirma Nobre.
Atualmente, a torre de observação ATTO, com 325 metros de altura no norte de Manaus, dá continuidade a esse legado, ao medir compostos químicos e ajuda a entender se a Amazônia está se aproximando do ponto de não retorno.
O pesquisador reconhece que cortes orçamentários e o avanço do negacionismo climático nos Estados Unidos afetam as parcerias internacionais.
*Com informações da Agência Fapesp.