AUSÊNCIA DO ESTADO ABRIU ESPAÇO PARA AVANÇO DE FACÇÕES, AFIRMOU PESQUISADOR, LEONARDO SILVA DO FÓRUM DE SEGURANÇA PÚBLICA

0
Tomaz-Silva-abr-1140x815

Para Leonardo Silva, modelo repressivo de segurança alimenta crescimento do crime organizado

00:00

Download

42:06

“Coletamos uma série de evidências que vão mostrando o aumento do controle territorial por parte das facções criminosas como um problema nacional”, afirma. Segundo ele, todos os estados brasileiros hoje têm presença de grupos como Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), que atuam tanto de forma direta quanto por meio de associações com grupos locais.

Silva explica que “essas facções acabam detendo o domínio territorial em bairros onde o Estado não se faz presente em sua totalidade”. “Quando eu falo presença do Estado, eu não estou me referindo exclusivamente à polícia”, destaca. Para o pesquisador, a segurança pública deve ser tratada como direito fundamental, articulada a políticas sociais que garantam cidadania.

O avanço territorial também se conecta ao movimento das facções de diversificar suas atividades econômicas. “Com o lucro, o capital acumulado, essas facções tentam muitas vezes diversificar o seu escopo de atuação”, esclarece. Isso inclui lavagem de dinheiro, como apontado pela Operação Carbono Oculto, que revelou o uso de fintechs e empresas de combustível ligadas ao PCC na região da Faria Lima, em São Paulo.

Sobre a diferença entre facções e milícias, Silva lembra que esses grupos não são mais antagônicos como no passado. “Hoje a gente vê um contexto muito mais volátil e muito mais próximo, em uma lógica de associação e negociações financeiras”, afirma. Segundo ele, em muitos territórios, milícias passaram a cobrar por serviços e a alugar áreas para facções ligadas ao tráfico de drogas.

Com o Estado ausente, o pesquisador destaca que são os moradores das regiões mais vulneráveis que ficam subjugados. “É uma grande vitimização da população que ali reside, que fica subjugada aos mandos e desmandos desses grupos”, aponta. Para famílias já com orçamento limitado, a extorsão direta impacta o custo de vida.

‘Modelo de segurança baseado na repressão é enxugar gelo’

Questionado sobre operações como a que deixou 121 mortos no Rio de Janeiro, Silva critica o enfoque exclusivo em incursões policiais. “Ao fim dessas operações, a polícia sai e o Estado, mais uma vez, garante a sua ausência naqueles territórios. Então, são operações que muito comumente chamam-se de enxugar o gelo. São operações custosas, que demandam grande risco e que, de maneira estratégica, não garantem grandes impactos para a estrutura das facções criminosas”, avaliou.

Segundo ele, as facções funcionam como empresas. “Esses soldados do tráfico são funcionários dispensáveis e facilmente substituíveis”, ressaltou.

Silva defende uma política de desidratação financeira, investigação integrada e presença contínua do Estado em serviços públicos. “Não vai ser uma ação super midiática que vai dar o resultado desejado. O resultado não vai ser imediato”, apontou. Para ele, o debate público precisa ser deslocado do espetáculo das operações para uma discussão baseada em evidências. “A percepção de fracasso ou sucesso está diretamente ligada ao aspecto ideológico. Enquanto isso, a solução real vai ficando cada vez mais distante”, pontuou.

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 9h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.