‘MACACOS’, A PRIMEIRA PEÇA BRASILEIRA A REABRIR UM CASO NA JUSTIÇA, DENUNCIA ESTADO PELA MORTE DE JOVENS NEGROS
Ator e dramaturgo Clayton Nascimento é o responsável por todo o espetáculo que já está há 10 anos rodando o Brasil
Macacos já rodou em 11 países, entre Chile, México, Holanda e Rússia – Matheus José Maria
O espetáculo teatral foi idealizado pelo próprio ator como um roteiro para denunciar casos em que o Estado brasileiro foi responsável pela morte de jovens negros periféricos no Brasil, principalmente no Rio e em São Paulo.
Foi em 2015, durante umas das primeiras apresentações, que Terezinha Maria de Jesus, a mãe de Eduardo, procurou Clayton Nascimento após o espetáculo para contar a história do assassinato do filho. O caso havia sido arquivado, embora depoimento de familiares e vizinhos comprovassem que o disparo de fuzil que acertou o menino veio de um policial e não havia troca de tiros no momento.
Após o ator incorporar o caso à peça, a repercussão fez um advogado procurar a mãe oferecendo apoio para que as investigações fossem retomadas, o que aconteceu em meados de 2024.
“E eu tenho um combinado com a Terezinha. Enquanto eu tiver vigor físico, enquanto este caso estiver acontecendo, eu sempre quero fazer Macacos”, comenta Nascimento em entrevista ao Conversa Bem Viver desta terça-feira (3).
“O Brasil me impede de finalizar a dramaturgia de Macacos, porque é uma dramaturgia viva.”
Macacos já passou por 11 países. No momento, o espetáculo está com apresentações no Sesc Bom Retiro, em São Paulo (SP), com ingressos esgotados, e nos próximos meses vai seguir em turnê pelo país.
Confira a entrevista na íntegra
Você já recebeu alguma ameaça de censura?
Absolutamente nenhuma. Eu percebo que a sociedade sente que eu sou um ator e calhou de que a obra que eu fiz reabrisse um caso. Eu nunca imaginei que isso pudesse acontecer, então em nenhum momento eu trabalhei numa possível expectativa.
A natureza do espetáculo é de um ator em cena, então neste momento da vida eu estou contando essa história, mas, daqui a dois, três, cinco, dez anos eu posso estar contando outra história.
Eu sinto que a sociedade civil, no geral, sabe que ali no palco é um ator que está contando várias histórias. Eu sou um ator em função de personagens, então, felizmente, eu nunca fui censurado, ameaçado, ou minha obra colocada num lugar de perigo, ameaça, algo do tipo.
Eu sinto que estamos amadurecidos para olhar atores como atores.
Como foi concepção da peça?
Macacos começou quando eu era aluno da Universidade de São Paulo e eu morava no Crusp, o Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo.
Um dia eu chego, ligo a TV e vejo um estádio de futebol xingando um goleiro de macaco. Eu lembro que aquilo me chamou atenção porque a câmera dava close naquelas pessoas e elas diziam tranquilamente com as mãos, como se xingassem: macaco.
Então aquilo me provocou de um modo que me deu um clique: as pessoas sabem que racismo é crime no Brasil. Elas sabem que elas estão dentro de um lugar, sendo filmadas. Como que elas têm ímpeto físico de xingarem?
Forças históricas estão permitindo que essas pessoas estejam aí, xingando. Talvez forças históricas da impunidade. E aí que eu decido: “Cara, vou fazer uma peça que vai se chamar Macacos e eu vou investigar onde nasce o xingamento macaco”.
A peça dura mais de três horas, você tem uma preparação física para ela?
Eu comecei a ter suporte médico para conseguir fazer a peça. O público começou a falar comigo: “Caraca, você tá emagrecendo, você tá bem?”
Então atualmente eu tenho o suporte de uma cardiologista, meu coração cresceu, coração de atletas crescem, porque ele vai bombear mais sangue em menos vezes, para ter um rendimento altíssimo.
Já são 10 anos de Macacos, você está pensando em encerrar esse ciclo e começa um novo espetáculo?
É, Macacos é um filho meu que faz dez anos, né? Vai me levar aos livros didáticos, Macacos de São Paulo e de algumas cidades de Minas Gerais também. Isso é uma enorme alegria.
Existe um Clayton antes, existe um Clayton depois de Macacos. Isso com certeza, isso é um fato.
E eu tenho um combinado com a Teresinha. Enquanto eu tiver vigor físico, enquanto este caso estiver acontecendo, eu sempre quero fazer Macacos.
- O Brasil me impede de finalizar a dramaturgia de Macacos, porque é uma dramaturgia viva. Então os novos sonhos estão aí, eu já tenho três novas peças para escrever, só preciso de tempo.