ANA LAURA PRATES: “DEIXA A MENINA SAMBAR EM PAZ (CHICO)”!

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Samba.-Di-Cavalcanti.-1927

Di Cavalcanti – 1927

por Ana Laura Prates

escrito em 22/01/2018

Escrevo este texto ainda sob o impacto do ensaio da escola de samba do qual participei ontem à noite. Em meio a tantas contradições envolvendo o que atualmente são as escolas de samba, não tem jeito: quando a bateria começa a esquentar os tamborins, sou atravessada por uma espécie de transe que me leva a outro espaço/tempo. E, então, aparecem as mulheres do samba: a passista, a porta bandeira, a menina da ala das crianças, a baiana, a senhora da velha guarda, as ritmistas e a rainha da bateria. Nessa hora, os pensamentos e sentimentos contraditórios atingem um grau mais elevado e se alçam à dignidade do paradoxo. Fiquei observando aquelas mulheres enquanto as fotografava, tentando capturar algo daquela dignidade que me atinge com força, apesar de me ser estrangeria e quase inalcançável.

Vamos então falar sobre a dignidade do paradoxo? Será, realmente, que a única saída para as mulheres não serem tratadas como objeto de consumo local ou estrangeiro – o que, por favor, não é o mesmo que objeto de interesse sexual, ou tesão, se preferirem – é esconderem seus corpos e só os movimentarem de modo considerado decente? Ora, esse raciocínio apolíneo e aristotélico, se levado ao extremo, chegará à burca que, no fundo, nada mais é do que uma espécie de hipérbole do respeito à mulher; um modo cultural de afirmar que mulher não é “só” corpo. Ora, ora, ora… eis a contradição, nossa velha companheira de insônia aparecendo de novo quando menos esperamos, atravessando o ritmo do samba e nos fazendo perder o rebolado. Mas, afinal, por que é mesmo que as mulheres não podem mostrar os corpos que têm? Por que precisam se restringir ao logos para serem respeitadas, amadas e mais, ainda, terem sua escolha levada em conta na hora da verdade do encontro entre corpos sexuados, seja lá o modo como gozem? Por que não podem, elas mesmas, sentirem tesão com seus corpos? Porque não podem querer despertar o tesão do outro ou da outra? E por que sentir tesão ou querer despertar o tesão é interpretado – de modo assustadoramente comum – como a senha para o estupro? Haja Freud para ajudar a sustentar a pergunta – com o perdão do vocabulário chulo, entretanto extremamente preciso neste caso: “o que o cu tem a ver com as calças?”. Ah… o semblante! Quanto ainda nos falta para alcançar sua “não relação” com o real. Quanto à realidade, essa, é sempre uma montagem mais ou menos burlesca e falaciosa para escamotear o abismo que nos une e separa na maldição divina dos sexos.

E pra não dizer que não falei de Lacan, é urgente lembrarmos que uma de suas mais importantes intervenções na psicanálise foi justamente e ideia de que não se pode reduzir o corpo, enquanto espaço de gozo, ao objeto – isso, aliás, é o que fez a ciência moderna. Numa psicanálise – e quem já frequentou um divã sabe do que estou falando – somos confrontados, ao contrário, com a separação e a não coalescência entre os modos de gozo que o tamponamento do objeto pela fantasia realiza de forma precária e mal sucedida nas neuroses. Para o homem, operar essa separação é fundamental para não confundir a bunda com a saia e “deixar a menina sambar em paz”. Para uma mulher, operar essa separação implica uma experiência corporal inédita; eu diria, carnavalesca: na carne!

O fato de uma mulher ter um corpo – e, por favor, não estou falando de anatomia, há mulheres sem útero, sem ovários, sem trompas e com tromba – e de usá-lo e abusá-lo para fazer desejar e gozar, não quer dizer que ela esteja se oferecendo como objeto de consumo… Não podemos colocar na bunda da Anitta o que é da responsabilidade política e ética do discurso do capitalista. Ou você acha que porque usa seu terno Armani, ou reza o pai nosso, ou dá aulas na universidade está sendo menos consumido?

No capitalismo atual, é sempre bom lembrar que há bundas e bundas, todas, entretanto, prontas não para serem comidas, mas para serem chutadas. Não é porque a Anitta tem uma bunda gostosa & com celulite (um pouco de lógica paraconsistente cai bem) que ela está se oferecendo para ser consumida e muito menos estuprada. Por outro lado, é bom se acostumar com a possibilidade de não gostar da música e da estética da Anitta & não achar que ela reforça o estereótipo de mulher objeto porque mostra a bunda (um pouco de lógica paracompleta cai bem).

O que as mulheres do samba e do funk nos ensinam a nós, homens brancos cristãos todos fálicos – marxistas ou não – é que há algo na mulher que escapa à razão universalizante, e que o corpo de uma mulher sempre resistirá a ser reduzido a um objeto, por mais que o discurso dominante se esforce para fazê-lo, porque ele é um misterioso corpo falante, desejante e gozante. É melhor se acostumar com isso! Para os homens, faço minhas as palavras de Chico Buarque: “ou tira ela da cabeça ou mereça a moça que você tem” – e acrescento: ou que você quer ter. Para as “não todas fálicas” com qualquer tipo de genitália – desnuda ou não –, com ou sem celulite, com ou sem adiposidades e menstruação, com ou sem silicone, recomendo um ensaio de escola de samba – não precisa ser a Mangueira, mas se der, melhor! – para vislumbrar algo do outro gozo…

Ainda dá tempo!

Ana Laura Prates é dona de casa e mãe, psicanalista, escritora e editora. É autora, dentre outros de “Feminilidade e experiência psicanalítica” e “Da fantasia de infância ao infantil na fantasia” (Larvatus Prodeo Editora). Doutora pela USP, Pós-Doutora pela UERJ e Pesquisadora da UNICAMP. É membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano e do coletivo Psicanalistas Unidos pela Democracia (PUD)

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