JORNALISTA ISRAELENSE RELATA AMEAÇAS DE AUTORIDADES DE ISRAEL PARA NÃO PUBLICAR INVESTIGAÇÃO SOBRE EX-CHEFE DO MOSSAD
Jornalista do Haaretz foi coagido a não publicar sua investigação sobre as manobras do ex-chefe da Agência de Inteligência de Israel
O jornalista israelense Gur Megiddo, do Haaretz, relatou ter sido ameaçado e coagido a não publicar informações sobre a tentativa do ex-chefe da Agência de Inteligência de Israel de intimidar uma ex-procuradora do Tribunal Penal Internacional (TPI), com o objetivo de atrapalhar as investigações relacionadas à Palestina.
Na última terça-feira, o The Guardian publicou uma extensa reportagem em parceria com as revistas israelenses +972 e Local Call, revelando como Israel usou suas agências de inteligência para vigiar, hackear, pressionar, difamar e supostamente ameaçar funcionários seniores do TPI.
Ameças
Megiddo vinha investigando, há dois anos, três viagens de Yossi Cohen, ex-chefe da Agência de Inteligência de Israel (Mossad), à República Democrática do Congo. As viagens teriam contado com a ajuda do presidente congolês, Joseph Kabila, para pressionar a então procuradora do TPI, Fatou Bensouda.
O jornalista tentou entrar em contato com Bensouda para discutir o caso. Após descobrirem essa tentativa de contato, ele foi convocado a se encontrar com duas autoridades de segurança de Israel e ouviu ameaças claras para não publicar a reportagem.
“À entrada do escritório oficial, pediram-me que deixasse o meu celular para me impedir de gravar a conversa. Na sala, outros oficiais seniores de uma agência de segurança diferente estavam me esperando. A conversa começou com as palavras: ‘Entendemos que você sabe sobre o promotor.”
Megiddo afirmou que foi “explicado que, se publicasse a história, sofreria as consequências e conheceria as salas de interrogatório das autoridades de segurança israelenses por dentro”.
“No final, ficou claro para mim que mesmo compartilhar a informação ‘com meus amigos no exterior’, referindo-se a veículos de comunicação estrangeiros, levaria aos mesmos resultados.”
“Levei as ameaças muito a sério”, disse Megiddo ao Guardian. “Às vezes, os funcionários podem ser bastante pesados, mas, como regra, não houve consequências se você ignorar esses pedidos. Neste caso, ficou claro que eles aplicariam penalidades reais. Foi altamente incomum.”
Censura
Jornalistas vivem sob um regime de censura em Israel. Desde a fundação do Estado, eles precisam submeter artigos que tratem de “questões de segurança” a um censor militar, que pode alterar parcial ou totalmente o conteúdo do material.
Em 5 de maio, autoridades fecharam os escritórios locais da Al Jazeera, horas depois de o governo ter votado a aplicação de novas leis para encerrar as atividades da rede de notícias por satélite no país.
Na semana passada, o equipamento da Associated Press foi brevemente apreendido, o que levou a uma intervenção da Casa Branca.
O censor também editou partes de outros 2.703 artigos, o maior número desde 2014. Ao todo, os militares impediram que as informações fossem divulgadas, em média, nove vezes por dia.
