FILÓSOFO JOSÉ ALCIMAR*: PALAVRA E ONTOLOGIA: O PRÍNCIPE DO PODER DO AR E O IMBECIL MEDIÁTICO
José Alcimar de Oliveira *
A fala conquista o pensamento, mas a escrita o domina (Walter Benjamin).
01. Segundo o registro bíblico do teólogo João, autor do quarto
evangelho, a única paternidade autoral atribuída a Satanás é a da mentira. O
autor que imprime força ontológica à compreensão acerca do ser diabólico
é Jesus de Nazaré, formado na Escola Samaritana da Galileia: “Por que
não reconheceis minha linguagem? É porque não podeis escutar a minha
palavra. Vós sois do diabo, vosso pai, e quereis realizar os desejos de vosso
pai. Ele foi homicida desde o princípio e não permaneceu na verdade,
porque nele não há verdade: quando ele mente, fala do que lhe é próprio,
porque é mentiroso e pai da mentira (grifo nosso)” (Jo 8,43-44). Noutros
termos, ele não mente por acidente. Mente porque a mentira é constitutiva
de sua essência. É ontologicamente mentiroso.
02. Não há registro de que na Escola Samaritana da Galileia, situada
num pequeno vilarejo, de má fama, chamado Nazaré, Jesus tenha tido
acesso aos estudos freudianos, e muito menos estabelecido contato com o
materialismo messiânico de outro judeu, de nome Walter Benjamin. O
teólogo João muito menos. Sabe-se que tinha razoável conhecimento da
Filosofia Antiga Grega, da qual hauriu sua compreensão do logos, com o
qual estrutura o mais poético dos evangelhos. O logos é seguramente o
mais fecundo conceito do período socrático, pré e pós. À época em que
João redigiu o quarto evangelho não há registro do conceito subontológico
de pós-verdade. Se houvesse, o teólogo samaritano de Nazaré
provavelmente, ao referir-se ao homicida, teria dito: é o pai da mentira e da
pós-verdade.
03. João parece dar uma indicação de que o teólogo de Nazaré,
mesmo sem contato com o pensamento de Marx, Freud e Benjamin, intuía
de forma ontológica o que havia, de bom e de mau, no coração humano. Há
um registro de João que dá a medida da sabedoria intuitiva de Jesus de
Nazaré: itinerante que era, certa vez foi a Jerusalém para a festa da Páscoa
e lá, diante de uma multidão atraída pelos sinais que fazia, uns
ostensivamente a declarar crença no seu nome, outros a manifestar uma
adesão pouco convincente ao seu anúncio, tem-se que o episódio
mobilizou de tal modo a fina observação do evangelista que o levou a
registrar: “Mas Jesus não tinha confiança neles, porque os conhecia a todos
e não necessitava que lhe dessem testemunho sobre o homem, porque ele
conhecia o que havia no homem” (Jo 2,24-25). A mentira ontológica que
ele objetivou em seu tempo hoje circula sob o disfarce da pós-verdade.
04. Avesso à mentira, Kant igualmente rejeitaria a tal da pós-
verdade, seu caráter eufemístico e nocivo às referências ontológicas, sem as
quais a humanidade se dissolve num presente sem história e sem memória.
A este propósito, Kant condicionava a resposta à pergunta “o que é o
homem?” a três interrogações prévias: o que posso conhecer?, o que devo
fazer? e o que me é permitido esperar? Estas perguntas estão na base de seu
edifício crítico. A mentira encanta, move, atrai, excita. E aliada ao medo,
multiplica seu poder sobre as mentes fanatizadas. A isso Reich denomina
de peste emocional da humanidade. E seria um erro associar tal peste às
classes subalternizadas. O seu Zé Ninguém é da genealogia do
lumpesinato, refratário às causas coletivas e à luta de classes. É a
medianidade ressentida, trânsfuga e envenenada pelo ódio ao
conhecimento.
05. Seria um equívoco epistemológico atribuir às redes sociais a
emergência do imbecil mediático e inimigo das mediações, da teoria, da
reflexão. O apóstolo Paulo refere-se à estranha figura do “Príncipe do
poder do ar” (Ef 2,2). A despeito de agregar vários nomes, este Príncipe só
aparece uma vez em todo o texto bíblico. Mesmo nos tempos paulinos, com
limitados dispositivos mediáticos, o alcance de sua ação pervertida já
mobilizava de forma coletiva corações e mentes. Afinal, para os antigos era
no ar que se abrigavam os espíritos demoníacos, todos sob as ordens de
Satanás, o Príncipe do poder do ar. Hoje, com a mediatização das relações
sociais, o poder do Príncipe da perversão se multiplica por mãos e mentes
anônimas e fidelizadas pelo fanatismo.
06. As redes sociais embalam, sob anonimato, o fascista mediático e
lhe garantem curso para a organização política do ódio. O ódio organizado
como política não é um acidente, mas um constitutivo essencial do
fascismo. O ódio estigmatizante, combinado ao medo, subtraem à palavra
seu poder crítico, reflexivo e ontológico. Convertida em palavra de ordem e
assepsiada de dúvida, a palavra conquista e enfeitiça o pensamento. A
palavra de ordem é mobilizada para tornar proscrita a escrita. Sem a arte e
o poder da escrita não haverá domínio sobre o pensamento, que seguirá
dominado pela palavra de ordem. Por isso o imbecil mediático é refratário à
arte da escrita. Ele odeia a escrita e, por consequência, a filosofia. A escrita
se inscreve como um dos fatores que favoreceram o nascimento da filosofia
na Grécia Antiga.
07. Num breve e denso texto filosófico, A técnica do escritor em
treze teses, Walter Benjamin recomenda: “Não deixe nenhum pensamento
passar incógnito e mantenha seu caderno de notas tão rigorosamente quanto
a autoridade constituída mantém o registro de estrangeiros”. A aversão à
escrita, que se intensifica nas redes sociais, se manifesta na forma limitada
como a fala, mesmo transposta para escrita, ainda permanece no nível
rebaixado da fala. Há um grau qualitativo no devir da fala à escrita. A
escrita imprime estatuto ontológico à fala. A escrita qualifica a fala.
Somente quando submetidos ao filtro da escrita, é possível remover o
preconceito, a mentira, a palavra de ordem, que tendem a se mover em
regime de incontinência no transcurso da fala.
* José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do
Amazonas, teólogo sem cátedra e filho do cruzamento dos rios Solimões e Jaguaribe. Em Manaus, AM, aos 28 dias de março do ano (ainda coronavirano) de 2021.