CAOS NA LINHA DE FRENTE: ENFERMEIRA CONTA QUE A MÍDIA ESTÁ SENDO BENEVOLENTE EM RELAÇÃO À PANDEMIA:”É MUITO PIOR”

A enfermeira Andrea Barcelos está exausta. Em sua carreira, nunca viu o que tem visto no hospital público em que trabalha, na linha de frente do combate à covid 19.

O hospital fica na Mooca, um bairro de classe média de São Paulo que lidera o número de óbitos por habitante: 68,5 a cada 100 mil habitantes até 11 de março deste ano, contra a média de 49,5 no município.

Andrea Barcelos foi candidata a vice-prefeita na chapa de Orlando Silva, do PCdoB, nas mais recentes eleições municipais.

Mas ao Viomundo ela falou como enfermeira preocupada em não contaminar o filho único, de 15 anos de idade.

São Paulo dispõe de 52 AMAS (Assistência Médica Ambulatorial) tradicionais,  6 hospitalares e 3 de especialidades.

A cidade também tem 468 Unidades de Saúde ligadas à Secretaria de Saúde do município.

As AMAS e as UBS fazem parte do SUS.

É o mais sofisticado sistema de saúde do Brasil.

Mas, beira o colapso.

Andrea diz que todos estão prestando atenção nas mortes causadas pela covid, mas não olham para as carências destes outros equipamentos, causadas especialmente pelo teto de gastos na Saúde instituído no governo de Michel Temer, depois do golpe de 2016.

Ela dá um exemplo: as UBS não dispõem de fisioterapeutas, que são muito necessários neste momento para os milhares de pacientes que venceram a covid com sequelas.

Com a pandemia, os acidentados e os que sofrem de doenças crônicas acabam represados nas UBS, sem atendimento adequado, com uma taxa de mortalidade que é quase desconhecida pelas estatísticas.

Andrea registrou em primeira mão o resultado nefasto do negacionismo do presidente Jair Bolsonaro: quando ela conduziu parcialmente a vacinação com a Coronavac no hospital em que trabalha, cinco auxiliares se negaram a receber a dose.

Além disso, recebeu muitos pedidos para tratamento com cloroquina, uma droga ineficaz que o governo promoveu como “cura” — teve de fazer o convencimento das pessoas de que a droga poderia causar problemas cardíacos, por exemplo, e que mesmo receitada deveria ser precedida por exames que os pacientes não estavam em condições físicas ou financeiras de fazer.

Nesta quinta-feira, Andrea e sua equipe cuidavam de 35 pacientes intubados.

Como todos estão ligados no mesmo sistema, recebem uma taxa de oxigênio diretamente nos pulmões, mas que não é a ideal.

Faltam respiradores e drogas para fazer a intubação — anestésicos como o fentanil e midazolam, uma droga de indução do sono.

É por isso, segundo Andrea, que a taxa de mortalidade por covid nos hospitais públicos deverá superar a dos hospitais privados — subfinanciamento do SUS e falta de pessoal.

Ela conta o caso de um terceirizado que ganhava diária distribuindo cobertores no hospital e, contaminado pela covid, não contou a ninguém, para não perder o pagamento da diária.

O homem desmaiou em um elevador, foi diagnosticado, intubado e faleceu. Tinha 32 anos de idade.

O caso mais dramático foi da paciente de apenas 22 anos que chegou falando ao hospital, mas piorou gradativamente, foi para a UTI e morreu.

A surpresa da equipe foi tão grande com o óbito que todos continuaram trabalhando mecanicamente, mas em estado de choque.

Também aumentou o número de bebês contaminados e mortos.

Andrea conta que as pessoas sempre perguntam a ela se é verdade o que as TVs estão mostrando.

É outra fake news impulsionada pelo bolsonarismo, segundo a qual as estatísticas estão infladas.

Ela resume: é muito pior do que se vê na TV.

Vale a pena ver o depoimento dramático da enfermeira, que nos leva para dentro de uma UTI.

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