WELTON YODA*: SE EU MORRER DE COVID
Ouçam! Não quero que digam “vira essa boca pra lá!” ou “isso não vai acontecer!” ou coisas do tipo. Apenas ouçam! Não sou supersticioso e sei que, caso venha a falecer, não será porque eu toquei nesse assunto, porque eu “atraí” essas coisas. Estudei o suficiente pra não ser refém destas superstições. Uso máscara ao sair de casa, lavo as mãos com sabonete, uso álcool em gel, respeito o distanciamento social e sigo todas as recomendações da OMS, sempre que possível.
E, sobretudo: sei que sou mortal e que, COM TODA A CERTEZA DESTE MUNDO, mais do que outras pessoas, corro o risco de morrer. Moro em Manaus, tenho 50 anos e preciso sair de casa, ocasionalmente, para algumas tarefas como fazer compras, ir à drogaria ou cuidar de plantas no trabalho e no pequeno terreno que cultivo.
Posso morrer porque muita gente em minha querida cidade só lembra que estamos numa pandemia quando a água chega no pescoço. Posso morrer porque o povo desassistido desta cidade não acredita em políticas públicas e, por isso, vota em quem não tem compromisso com Manaus, vota por interesses pessoais ou privados de grupelhos, associações, igrejas, famílias, por telha, tijolo, dentadura, óculos. Posso morrer porque parte desse povo que jura que é esperto, malandro, hoje mais do que nunca, tá é muito f, mas não de feliz.
Posso morrer amanhã, atropelado, por um desses tantos motoristas manauaras grosseiros e brutalizados que, quando estão dentro de um carro, esquecem que são humanos e que, muitas vezes, também são pedestres. Se for atropelado, não terá ambulância, SAMU, pronto-socorro, hospital, porque eles estão lotados. Estão lotados porque esse povo de Deus saiu contaminando todo mundo, matando e morrendo, jurando que Ele os protegeria, apesar das cagadas que fizeram com seu livre arbítrio.
Posso morrer porque meu filho mais velho, mesmo com um ambiente de trabalho bem seguro, precisa sair diariamente para trabalhar; porque sua namorada também trabalha no comércio e, porque, sendo jovens, nem sempre conseguem segurar seu ímpeto ante o desespero de viver com tantas limitações um periodo tão incrível de suas vidas. E, claro, também porque sendo jovens, nem sempre conseguem agir com a necessária responsabilidade diante da gravidade da situação.
Se eu morrer de COVID, meu pai, minha mãe, amo vocês! Se eu morrer de COVID, meus filhos, minha amada companheira, espero ter contribuido o suficiente para criar uma família solidária, forte e capaz de prosseguir com esta luta por um mundo melhor. Se eu morrer de COVID, amigas e amigos, em honra de vocês, não levarei para o túmulo qualquer rancor ou ódio a nossos detratores, porque, em vida, fui amado, respeitado e vivi, ao vosso lado, momentos de confraternização, de alegria, de cumplicidade, compartilhamos tristezas, dores e amores. Aos inimigos, não contem vitória antes do tempo, há muitos de mim!
Se eu morrer de COVID, estarei certo de que valeu a pena viver e que, apesar dessa gente, há muita coisa boa no mundo, há muita gente boa, sentimentos nobres, o nascer do sol, a sombra de uma árvore, os banhos de igarapé, as crianças, o samba e a pessoa mais incrível que conheci nesta cinquentenária existência: minha amada Kariny.
*Welton Yoda é biólogo-filósofo, escritor, articulista, ator, doutor e professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).