FILÓSOFO JOSÉ ALCIMAR*: NOS 100 ANOS DE CLARICE LISPECTOR (1920 – 10 DE DEZEMBRO – 2020), SOBRE RATOS E BRASÍLIA OU DA TRISTE PARTILHA DO ERRO
NOS 100 ANOS DE CLARICE LISPECTOR (1920 – 10 DE
DEZEMBRO – 2020), SOBRE RATOS E BRASÍLIA OU DA
TRISTE PARTILHA DO ERRO
José Alcimar de Oliveira*
01. Clarice Lispector, que nos deixou em 1977, havia
manifestado em forma de crônica seu estado de pavor em relação
à capital federal: “lugar onde ;o ser orgânico
não se deteriora. Petrifica-se. Se há algum crime que a
humanidade ainda não cometeu, esse crime novo será aqui
inaugurado (…)”;. Brasília, segundo Clarice, “(…) foi construída
sem lugar para ratos. Toda uma parte nossa, pior, exatamente a
que tem horror de ratos, essa parte não tem lugar em Brasília”;.
Para depois concluir: “O inferno me entende melhor. Mas os
ratos, todos muito grandes, estão invadindo. Essa é a manchete
invisível nos jornais. Aqui eu tenho medo. A construção de
Brasília: a de um Estado totalitário… “;. “Brasília é a imagem de
minha insônia”, afirmou.
02. O Brasil de 2020, feito Macabéa sem estrela e sem hora
de alegria, afunda nas trevas do obscurantismo mais boçal e do
ódio que se organiza como política de Estado. Clarice
dificilmente imaginaria que o Brasil no ano em que ela celebraria
no plano do aquém, se viva, seu centenário de nascimento,
estivesse em estado tão regressivo, sob cinzas e sem estrelas. Em
sua crônica política, escrita há quase 50 anos, tecida com a mais
refinada sensibilidade humana e literária, antecipava como uma
vidente que “a construção de Brasília”, feito o anjo da história de
Walter Benjamin, projetava o futuro com as lentes do passado e
antevia em 2020 as sombras “de um Estado totalitário”. Clarice se
foi como uma estrela que de longe nos ilumina um dia antes de
completar 57 anos, em 09 de dezembro de 1977. Preferiu
transfigurar-se um dia antes de nascer.
03. Clarice prefigurou “um Estado totalitário”. Diria nesse
2020: um totalitarismo venal, numa combinação de arrogância
financeira com política de baixíssima extração. Na Miséria da
filosofia o grande Mouro de Trier caracterizava sua época como a
da venalidade universal e, nos célebres Manuscritos de Paris, via
no dinheiro o operador universal da divisão. O processo de
decomposição institucional da República
avança em intensidade e abrangência. O Estado brasileiro, que já
nasceu oligárquico e patrimonialista, sempre esteve sob o tacão
do poder do grande capital. Enquanto isso, pesa sobre a classe
que vive do trabalho a mais agressiva, continuada e degradada
desigualdade social. Multiplicam-se de Norte a Sul e de Leste a
Oeste, desde o que de pior se concentra no Planalto Central, as
dores e os sofrimentos de Macabéas índias, negras e brancas em
diferentes matizes de pele e sob o peso de continuada e sistêmica
opressão.
04. Se o acaso ou a necessidade nos preservaram de falhas
geológicas, as oligarquias da Casa Grande não tiveram
escrúpulos nem mediram esforços na construção da crescente
falha política que parece tragar nosso presente e nosso futuro.
Sobre a natureza generosa e sobre as culturas milenarmente
construídas pela engenhosidade da diversidade étnica foi
reeditado, de 1500 até hoje, 2020, e sob a geopolítica da
destruição, o reverso mitológico das origens bíblicas narradas no
Gênese. Iniciou-se a era dos sismos políticos e em nada naturais.
O último sismo recebeu o nome de República. Segundo o
historiador José Murillo de Carvalho, consumou-se como
República dos bestializados, ou República que nunca foi.
05. Pandemia e pandemônio se abraçam sob a maldição de
Ate, a divindade grega leve e ágil que personifica o erro
deliberado, metódico. O erro como triste partilha em desalinho
com a promessa do bom senso, que deveria ser a coisa mais bem
partilhada no mundo, de acordo com o otimismo cartesiano. No
Brasil errático o tempo político se acelera no mesmo ritmo em
que se degenera. Os acontecimentos se atropelam e parecem não
caber na cronologia cotidiana. Presidido pela política do ódio à
política, os grandes partidos se equiparam por baixo e chafurdam
no lodaçal do fisiologismo. Vivem em função de si mesmos,
refratários à grande política, sempre apartados do Brasil real e
(i)mobilizados pela agenda eleitoral, pior: eleitoreira. Nos
bastidores do poder, segue a operar sem controle o poder maior
do capital na capital da venalidade. Para Brasília parece convergir
o que temos de pior nesse Brasil à deriva, ainda que com método.
06. A sabedoria dos antigos nos ensina que quando
sobra poder escasseia o bom senso. Pascal insistia que aquilo que
é forte tem que ser justo e o que é justo tem que ser forte.
Para além de Hegel e Marx, no Brasil passamos da tragédia à
farsa, e desta ao escárnio. A República segue apartada do povo.
Serve a poucos e a muitos maltrata. Chegamos ao limite
e nada nos resta senão no parlamento dos becos, ruas e praças
organizar corações e mentes contra o poder das trapaças. Sem a
luta e a transição da consciência imersa à consciência de classe
dos milhões que seguem acuados na senzala do andar inferior o
andar de cima seguirá a edificar no presente as ruínas de um
futuro anunciado. A alternativa ao que temos consiste em nos
tornarmos no que somos, como preconizava o Nietzsche da
potência humana matinal.
07. Luta de resistência e resistência da luta, só isso nos
cabe. Do contrário, prevalecerá a sentença do grande Santo
Agostinho: remota itaque justitia, quid sunt Regna nisi magna
latrocinia? (Se a justiça desaparece,
o que são os Estados senão um bando de ladrões?). Chegamos a
um ponto de não retorno. Como fazer a necessária transição, para
pensar com Cícero, da mala morata civitas para a bene morata
civitas? (da cidade dos maus costumes para a cidade dos bons
costumes?). No célebre texto do Prefácio, de 1859, assinala Marx
que a espécie humana só traz à baila os problemas que comportam
solução. Solução exige resolução. Do contrário, enquanto
permanece na letra sem vida o Estado Democrático de Direito, na
vida sem letra, com vida subtraída, permanecerá de forma
autoritária o Estado Monocrático de Privilégios.
*José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do
Amazonas, teólogo sem cátedra e filho do cruzamento dos rios Solimões e Jaguaribe. Em Manaus,
AM, Brasil, 13 de dezembro de do ano coronavirano de 2020, na festa de Santa Luzia.