*O MISÓGINO ODEIA A MULHER, MAS A PRIMEIRA MULHER QUE LHE CAUSOU PROFUNDA DECEPÇÃO E LHE FRUSTROU: SUA MÃE
O MISÓGINO, por sua vez, no entendimento mais raso é aquele que odeia a mulher. No entendimento mais raso, porque ele não odeia a mulher que se encontra diante dele na objetividade. E nem tão pouco o cargo que ela ocupa ou uma posição de destaque que represente concorrência contra ele. Quer dizer, o misógino, odeia a mulher, mas a primeira mulher de sua existência. Aquela que lhe causou profunda decepção e que frustrou sua meta. Sua mãe.
Preso nesse quadro maternal-frustrador ele projeta sua desilusão com a mãe em todas as mulheres que encontra em seus caminhos. Tudo porque não conseguiu constituir em si a imago da mãe oblativa. A mãe-amiga que convida o filho para compor alegrias em seu devir existencial em companhia de outras mulheres e homens como parceiros da comunalidade ontológica fraterna do existir. Impedido de expandir sua vida como potência produtiva, em virtude da captura que sofrera pela mãe, o que lhe impediu de construir a imago que se desdobraria em outras mulheres como parceiras, ele entrou na ordem do ódio contra todas as mulheres. Nenhuma lhe escapa seja claramente ou dissimuladamente. Dissimula quando casa e tem filhas. Para alguns incautos, o casamento é tido como uma forma de amor e respeito pela mulher e as filhas. Mas não é. Quem observa o misógino próximo a essas mulheres, percebe claramente que ele não perde nenhum momento para desapreciá-las. Até quando parecem concordar com elas. Muitas vezes ele dissimula esse ataque que elas não percebem por acreditarem ser parte de expressões normais de sentimentos familiares. Aliás, o casamento é, para ele, uma maneira mais fácil de ter sua vítima por perto. Mesmo que tenha que se policiar muito para não deixar transparece à família seu ódio contra as mulheres. O que nem sempre surte um efeito infalível. Em alguns momentos o ódio é tão intenso que ele explode se revelando.
“O misógino tem ódio das mulheres e as mata – mas ele traz uma mulher em si –e é inspirado por uma moça igualmente bissexual, seu duplo invertido, que ele leva a cabo seus crimes… O assassínio como reconstituição da cena primitiva, ou de uma androginia original (“saber, saber como eu havia sido concebido, eis o que meu corpo queria, vê-la, a cena monstruosa. Louco de repugnância, eu imaginava minha mãe…”), escreve o filósofo Deleuze no prefácio do livro de Alain Roger, O Misógino.
Como ocorre em todas as patologias dessas criaturas, que vão sempre buscar fora o alvo de seus ódios, odiar as mulheres na objetividade é um forma de sublimar o ódio pela mãe frustradora que ele não suportaria se esse ódio se tornasse consciente. Um ódio encadeado em dois sentimentos tristes: abandono e culpa. Primeiro ele se sentiu abandonado pela mãe, o que foi verdade. E segundo ele se sentiu culpado por não ter sido capaz de fazê-la amá-lo. O que ele também não se perdoa. No segundo caso um entendimento errado de si em vista de ser, na época, uma criança em iniciação ontológica que precisava do adulto, no caso específico da mãe, para lhe prover de segurança e confiança no mundo como sua morada. Seu hábitat de ser-humano-natural.
Sentindo-se abandonado e culpado pela mãe não havia como criar uma imago da mulher que concebesse o sentido de companheirismo. O ódio estava bem instalado e bem fixado como a única forma de atuação em um mundo diante das mulheres. Uma atuação reação e não ação. O misógino jamais diria o que o filósofo Sartre diz sobre as mulheres.
“É verdade, eu sempre amei muitas as mulheres. Elas foram sempre o centro dos meus pensamentos. É, sem nenhuma dúvida, no que eu mais pensei durante toda minha vida, desde bem pequeno até crescer, e até mesmo depois de velho: mulheres. Mesmo quando penso em assuntos que não têm relação direta com as mulheres, eu penso nelas mesmo assim… (…) A ternura, o amor, tal como eu os imaginava, eram duas pessoas, abraçadas, se beijando. Era isso que eu não podia ter com meus amigos: a relação com os outros garotos eram socos amistosos, nada além disso. Nada de ternura. O que eu encontrei nas meninas foi aquela atmosfera sentimental e íntima que foi dada desde o início na minha família pela minha mãe, pela minha avó e por suas amigas. Esse sentimentalismo que desabrochava com as meninas, foi para mim os essencial do sexo. (…) Eu amo a sensibilidade das mulheres, a sua maneira de ser. Eu adoro a profundidade da sua conversação. Elas tomam as coisas como é preciso, sem relação com uma profissão ou com uma tarefa… (…) Uma mulher vê sempre melhor os objetos e as pessoas”.
É preciso atentar, também, para o fato de que não somente o homem pode ter consciência misógina. A mulher também. Tem um grande número de mulheres que odeiam outras mulheres, e que sempre aproveitam todas as oportunidades para expressarem seu ódio misógino, e que é tido por alguns desavisados apenas como inveja. Principalmente contras as mulheres mais sensíveis, inteligentes, comprometidas e éticas. Esses valores são os que mais ofendem as mulheres misóginas. Elas odeiam essas mulheres em vista de que esses valores surgem para elas como uma forma de humilhação por terem sido obstruídas, como os misóginos, em suas sensibilidades, inteligências e eticidades. Elas podem até ocupar cargos ditos superiores, mas nada as livra de suas infelicidades de mulheres misóginas.
Dizem que elas copiam fielmente os homens misóginos. Não é verdade. A misoginia nasce no modelo mãe-lei, quando deveria ser mãe-educadora, coadjuvada por um pai-lei, ausente ou debochado. Não é à toa que na própria família os meninos aprendem a desvalorizar as meninas. E muitas meninas elas próprias. Estabelecida essa forma de comportamento-tratamento, ela facilmente chega à escola, se espalha pelo bairro e domina a cidade. E dependendo como se expressa a sociedade como um todo, logo esse comportamento passa a proliferar.
Porém, se a sociedade for constituída por uma subjetividade-objetividade democrática, essas criaturas não se instalam e não viralizam. Elas não encontram facilidade para propagação. É por essa realidade que a democracia, como zona clara, é o regime que impede a proliferação e dominação dessas psicopatologias sociais propagadas pelas criaturas da Zona Escura.
A misoginia é um aguilhão histórico fomentado pelo modelo patriarcal-judaico-paulino-burguês. Onde há força patriarcal há misoginia.
Texto extraído do livro Sob A Ordem da Zona Escura (2019), do filosofo e teórico da psiquiatria-materialista, Marcos José.
Não quero comentar o extraordinário texto sobre misoginia! O texto é fantástico, ele fala por si só! Adorei! Quero apenas encorajar o pessoal da AFIN a continuar nessa luta política que é remar contra a maré nesses tempos que não são nada interessantes. Os textos de vocês me fazem companhia. Reconheço a minha existência nas letras dos vossos textos.