ATO ‘RESISTIR É PRECISO’ UNIFICA NO TUCA MAIORIAS QUE SE LEVANTAM CONTRA BOLSONARO

DIAS DE LUTA
Artistas, ativistas, religiosos, acadêmicos, representantes das mais diversas tribos reuniram-se no Tuca, em São Paulo, em nome da existência
    
RBA

“Como sempre estamos resistindo e lutando, como os povos de matrizes africanas; resistindo e lutando, como os povos dos terreiros; resistindo e lutando como o povo preto”

São Paulo – Pelo conjunto da obra – ataques à diversidade, à cultura, à educação, à soberania, ao patrimônio nacional, ao meio ambiente, aos direitos sociais e trabalhistas e à imagem internacional do Brasil – o governo de Jair Bolsonaro tem despertado rejeição coletiva cada vez mais forte. A resistência a esse cenário levou ativistas dos mais diversos movimentos, religiosos, estudantes, acadêmicos, ambientalistas, diferentes organizações sociais a mais um protesto unificado na noite desta segunda-feira (11). O ato Resistir é Preciso lotou o Tuca, o teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, palco de tantos atos de resistência há 54 anos, completados nesta noite.

Idealizadora do evento, a professora Maria da Conceição Golobovante, da Faculdade de Jornalismo da PUC, lembra que a iniciativa surgiu com o nome de Amazônia Urgente há mais de uma ano e tomou corpo diante do caos instalado no Brasil. “Estávamos muito angustiados com a situação da Amazônia. Estamos muito angustiados com os retrocessos no país, com o avanço do fascismo, então resolvemos fazer alguma coisa de fato. Temos em torno de 20 pessoas na organização direta e 100 pessoas ajudando. Sem dinheiro, apenas com apoios pontuais, como da reitoria e do Greenpeace”, disse.

Um Brasil ameaçado pela virulência desses pouco mais de nove meses de desgoverno desfilou pelo palco em quatro “momentos”. Um, inter-religioso, reuniu desde as católicas Comunidades Eclesiais de Base, representadas por Serginho Silva, ao pastor evangélico Ariovaldo Ramos; a ialorixá Mãe Adriana de Nanã e o babalorixá Pai Rodney de Oxóssi das religiões de matriz africana; Leana Bergel, do Observatório Judaico de Direitos Humanos; e o padre Júlio Lancelloti, que saudou uma das cadeiras vazias como a representação daqueles que não têm religião. “Mais que ser religioso, é preciso ser humanizado. Mais que resistir, pessoas jovens que estão aqui, rebelem-se.”

Mãe Adriana lembrou que o candomblé foi criado no Brasil para curar as dores do povo preto. “Mas mesmo assim estamos de portas abertas para acolher a dor dos outros, mesmo daqueles que nos atacam. Resistir é preciso, resistimos há centenas de anos e continuaremos resistindo. Continuamos de pé. Apesar de toda exclusão, ainda assim somos mais de 60% da população.”

Um segundo ato marcou as iniciativas inclusivas cobrando respeito dos que foram eleitos para governar. Da liderança Guarani Maria Ara Poty, ao jovem Iago Hairon, do Engajamundo, e Pri Bertucci, do Ssex Bbox, organização dedicada a discutir identidade de gênero, sexualidade e sua ligação com a cidadania. De Marly Andrea e Renilda Diniz, da Coopernova de reciclagem, a Julhiana Costal do projeto de hortas urbanas AlboreSer. Ou Andrei Massa, do Movimento de Trabalhadores Sem Teto do Centro, que falou em nome de Carmem Ferreira e sua filha Preta, outra presa política lembrada no ato que dezenas de vezes clamou por Lula livre.

Ester Judite Rufino, da Educafro, lembrou da resistência dos povos originários e da importância de dar voz aos que sempre foram excluídos. “Meus ancestrais vêm resistindo há mais de 300 anos. Como se não bastasse resistir à escravidão, disseram que teve uma abolição. Mas que abolição foi essa? Como vou viver em paz se mataram Marielle e até agora não teve resposta. Como vou viver em paz se nos matam todos os dias? Esse governo combinou de nos matar, está apontando as armas para mim, para o pobre preto. Esse governo é fascista e esse Estado é racista”, disse.

A terceira parte tratou da questão socioambiental. Ubiratã Dias, do Movimentos de Atingidos por Barragens (MAB), estava lado a lado com Denise Carreira, da Ação Educativa, Malu Ribeiro, do SOS Mata Atlântica, e Gilmar Mauro, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.

Nara Baré, da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), lembrou que o Brasil nunca foi descoberto. “Foi saqueado, foi massacrado, invadido e continua até hoje.”  Fabiana Alvez, do Greenpeace, convocou para a greve pelo clima. “A gente vai dia 20 de setembro para as ruas, mas não só. Estou chamando aqui para uma resistência, mas pra gente ir para além da resistência, para a desobediência civil.”

Um quarto momento foi destinado, ainda, às artes,. A cineasta Lais Bodansky falou do ataque explícito do governo Bolsonaro ao audiovisual brasileiro. “E num momento da história em que a gente nunca esteve tão bem”, lembrando que o setor emprega muita gente, paga impostos, promove diversidade e conhecimento. “Hoje é mais fácil usar a ferramenta do audiovisual pra falar, uma ferramenta que pode incomodar. Pensar incomoda muito. Temos de continuar pensando e seguir fazendo.”

O ator Sergio Mamberti assinalou a representação expressiva da sociedade brasileira. “Sempre resistimos e continuaremos resistindo. Quando falamos de cultura, a primeira ideia é sempre a ideia de resistência. Resistir é também propor e fazer com que a liberdade de expressão e pensamento possa circular, possa estar presente em todos os momentos de nossas vidas”.

Histórico de resistência

O pró-reitor de Cultura e Assuntos Comunitários da PUC-SP, Antônio Carlos Malheiros, falou da importância de a universidade mais uma vez abrir as portas para a defesa de grandes causas. “Nós resistimos a muitas crises, a muitos embates, a muitas perseguições nestes anos todos que a PUC existe. Vivemos um momento terrível e é necessário resistir mais uma vez. O Tuca, tão maltratado, incendiado duas vezes justamente porque lutamos contra injustiças, está presente neste novo momento difícil”, disse.

O professor de Educação e Política Ambiental da USP Marcos Sorrentino somou com os demais docentes, ativistas e religiosos. “A motivação para atendermos a este convite da PUC para organizarmos este evento é porque hoje, mais do que nunca, é necessário compreender a importância da resistência e da navegação. Este é um evento voltado à articulação de ativistas e organizações comprometidas com os direitos e a vida.”

Para economista Ladislau Dowbor, professor da PUC-SP, que esteve na plateia, o sistemas financeiro é o grande responsável pelo golpe que paralisa a economia do país e que culminou na ascensão de Bolsonaro. E que começou com a sabotagem ao governo Dilma Rousseff. “Pelo sexto ano (desde 2013), vivemos em um regime de golpe. Reduzindo direitos sociais, perdendo a aposentadoria e travando a economia de maneira geral (…) Estão fazendo as políticas erradas”, disse.

“O que funciona é o inverso; melhorar direitos sociais e distribuição de renda que cria demanda que aumenta a produção e reduz o desemprego. Gera mais impostos para o Estado e a conta fecha”, argumentou o professor.

União

“Como sempre estamos resistindo e lutando, como os povos de matrizes africanas; resistindo e lutando, como os povos dos terreiros; resistindo e lutando como o povo preto. É muito importante este dia. Qualquer ato em defesa da democracia deve ser feito com a presença nossa, dos povos originários, indígenas, negros. Povos que vêm sofrendo neste país e ensinando os brasileiros a resistir. Transformamos territórios de segregação em territórios de luta e resistência. Temos caminhado neste chão que nossos ancestrais bateram e estamos aqui, mais uma vez, pregando o amor, a união e o diálogo”, disse o babalorixá Pai Rodney.

O padre Júlio Lancellotti, da Pastoral do Povo de Rua, reiterou pedido de união contra o fundamentalismo e contra a extrema-direita, espelhada em Bolsonaro. E não se acanhou em gritar contra uma das maiores injustiças da atualidade. “Como padre, e principalmente como ser humano, gostaria de dizer que, nesta conjuntura e neste momento, tenho espírito crítico: Lula livre”.

Resistência de povos originários é o dia a dia há mais de 500 anos

A perseguição política à militante do MTSC Preta Ferreira, presa política há 73 dias, e a sua mãe Carmen Ferreira também foi contestada. “Era para elas estarem aqui e não eu. Duas mulheres negras, periféricas, que ousaram ocupar o centro na luta por moradia e, não por outro motivo, que essa direita racista, machista, buscou prendê-las. Estou aqui as representando e gostaria muito de vê-las em breve, com a gente”, disse Andrei Chikhani, da Ocupação 9 de Julho, coordenada pelo MSTC.

Gilmar Mauro, do MST, sintetizou o sentimento do teatro: “Enquanto houver vida, haverá luta. Enquanto houver luta, haverá esperança. Enquanto houver esperança, haverá sonhos. A vitória será nossa porque amanhã vai ser outro dia”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.