BRECHT/GALILEU: POBRE DO POVO QUE PRECISA DE HERÓI! PRECISAR DE HERÓI É CONFESSAR IMPOTÊNCIA

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Herois-em-Crise

PRODUÇÃO AFINSOPHIA.ORG

 

Em sua peça de teatro “Galileu Galileu”, o teatrólogo alemão, B. Brecht, apresenta um diálogo entre o cientista e seu secretário, Andreas, que espera de Galileu uma postura heroica diante do tribunal da inquisição. Nessa espera ele afirma: Pobre do Povo que não tem herói! Ao que Galileu, responde: Não, Andreas! Pobre do Povo que precisa de herói. Como é possível entender, Galileu, com simplicidade, mostra a condição do homem como ser de liberdade.

Todas as pessoas nascem como singularidades e originalidades. São potências que as levam a serem elas nelas mesmas. São potências demonstrativas da liberdade humana. A filosofia existencial compreensiva de Karl Jarpers, chama de disposições. O seres atuam no mundo através de suas disposições naturais e culturais, mas sempre através de suas potências como liberdade. Confirmação de que ninguém pode existir através das disposições dos outros. A mulher e o homem são proprietários de suas próprias disposições que possibilitam a produção da sociedade onde todos atuam com existir presente e posterior, dado suas abrangências ontológicas.

A sentença de Andreas, não é nada mais do que a confirmação da existência malograda de alguém cujo ato de existir foi dominado pela força da impotência ontológica. A negação da vida como atributo singular e original. Desta forma, a necessidade de herói é o reflexo de alguém que descobriu sua insignificância, e, que, para não sucumbir totalmente, delira um ser fantástico para tomar conta de si. Trata-se de uma consciência infantilizada que precisa de um protetor da mesma forma que quando criança precisa dos pais para lhe proteger e realizar o que não podia realizar. Daí, o significado patológico de infantilização: alguém que não cresceu para se responsabilizar por sua própria existência comungada como a dos outros em forma de alteridade, solidariedade e sociabilidade.

Porém, não é só impotente aquele que precisa de herói, mas também o que se faz passar por herói, posto que precisa da insegurança do outro para esconder, também, sua insegurança e sentimento de insignificância, já que ser herói é rodopiar na ordem do delírio fantasmagórico do pensamento mágico. O mesmo pensamento que lhe dominava quando criança e fabulava seres sobrenaturais com poderes anti-terreno. Trata-se da mesma consciência infantilizada daquele que precisa de herói. Nenhum herói sobrevive no mundo real. A morada do herói é o mundo-impotente das mentes alucinantes e delirante. O herói e seu necessitado, não caminham como seres autenticamente viventes, mas perambulam entulhando o mundo. O mundo dos vivos e ativos.  

Como afirma o filósofo Jean Baudrillard, “o herói não “libera” os acontecimentos nem as forças históricas, nem constrói uma história. Encadeia as figuras do mito e da lenda; é por isso que nem a Revolução nem a Democracia têm necessidade de um herói”. 

 

 

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