“EU VEJO, EU OUÇO, EU AGRADEÇO”, DISSE MORO, MAS NADA DO COGITO DE DESCARTES: “PENSO LOGO EXISTO”
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É difícil pensar. Pensar é da ordem do novo. O novo como mudança. Transcendência do dado. Há profunda confusão sobre pensar, imaginar e recognição. Há profunda ignorância sobre o que seja raciocinar e pensar. Raciocina-se até preparando uma deliciosa batida de taperebá, mas não é pensar. A fórmula da batida já estava disposta, dada na objetividade como muitos fatos e signos-conceitos no nosso cotidiano que apenas apanhamos, ou somos apanhados, para nos mantermos crentes de nossas existência.
Somos traspassados por uma névoa imagens-lembranças, como afirma o filósofo Berson, que nos serve para recordar o passado e imaginar o futuro. Uma espécie de delírio-profético. Também não é pensar. Em síntese, durante o dia fazemos uso mais de nossas lembranças e imaginações do que pensamos. Mesmo quando como profissionais, fazemos uso mais dos elementos cognitivos que estão alocados em nós do que pensamos. Imaginemos um médico consultando. Seus diagnósticos já estão na objetividade do acervo-médico. Ou, como se diz: “Estava pensando em você”. Não não estava. Estava lembrando ou imaginando a dita pessoa. Trata-se mais de recognição do que de pensamento. Recognição como voltar sempre ao que foi pela primeira vez conhecido.
Moro, em relação ao evento de sua defesa feito pela extrema-direita, escreveu: “Eu vejo, eu ouço, eu agradeço”. Como se observa, em nenhum momento ele se referiu à máxima descarteana: “Cogito, ergo sum”. As três situações reportam simplesmente ao já vivido por ele. Duas situações sensoriais e uma moral-mística. Vejo, ouço e agradeço. Todas recognições do que ele já vivenciou como sendo agradáveis. Um dia ele viu algo que lhe agradou. Outro dia ouviu o que lhe agradou. As duas experiências sensoriais lhe satisfizeram. Assim, ele entra na ordem moral-mística: agradecimento. Eu mereço. Mas não há pensamento só puras recognições.
Como reacionária, a extrema-direita é impulsionada pela força física. Jamais pelo pensamento. Daí, sua estupidez: ausência da razão que lhe impossibilita o pensamento. Sendo ausência de pensamento, Moro só ouviu, viu e agradeceu essa ausência de pensamento. E foi pela força da ausência do pensamento que Moro pode transgredir o pensamento que se mostra como potência-epistemológica da Justiça. De acordo com o que já se sabia e com os documentos exibidos pelo site The Intercept Brasil, Moro, durante sua participação na Lava Jato, só usou a imaginação e as recognições que lhes eram agradáveis. Só viu e ouviu o que estimulava seuss agradecimento. Nada de penso, logo existo. Nada de pensar em si os corpus potência-epistemológica da Justiça da qual era representante diante da sociedade-democrática.
Neste quadro, Moro só ouviu e viu o que já estava nele como verdade cristalizada e que lhe levava ao agradecimento como forma de sua própria recognição. Preso em si, ele não viu e nem ouviu, porque ambas experiências são corpos epistemológicos que impulsionam o pensar. E o pensar é um devir-fora.